|
20/01/2010 - Imprensa
Contexto Paulista: Enquanto o terremoto não vem
Wilson Marini
O mundo acompanha assustado o que se passa no Haiti como se fosse à porta de cada um. Anos atrás, o tema seria tratado pela imprensa brasileira apenas nas páginas de noticiário internacional. Agora é assunto global e ao mesmo tempo local. Ganha a capa dos jornais regionais na mesma dimensão da imprensa americana e européia.
O Brasil sempre se considerou um país geograficamente "abençoado" por não fazer parte de regiões sob risco permanente como Japão, Califórnia e Indonésia. E agora? A verdade é que não estamos isentos de tremores ainda que moderados, situados em torno de 5 graus na escala Richter, capazes de provocar rachaduras em paredes e estragos maiores dependendo da profundidade e da proximidade com áreas habitadas. Os abalos no Rio Grande do Norte este mês, um deles com magnitude 4,3, servem de aviso.
Por sugestão desta coluna, Rodolfo Bonafim, estudioso em geologia ambiental e climatologia, diretor científico da ONG Amigos da Água, mapeou as áreas potencialmente de risco no Estado de São Paulo. A conclusão: o perigo também mora aqui perto. É preciso que as populações se preparem para o inesperado.
Ainda é fresco na memória dos paulistas o evento de abril de 2008 no leito submarino ao longo da costa sul da região sudeste, a 215 quilômetros de São Vicente, na Baixada Santista, a apenas 10 quilômetros de profundidade e com magnitude 5,2. Os efeitos foram sentidos até na Capital. Se tivesse ocorrido em área mais próxima do continente, poderia ter causado danos materiais em cidades litorâneas, Santos entre elas. A causa seria uma falha geológica que acumulou tensão nas rochas por longo tempo. "Mas curiosamente, ninguém até agora soube dizer que falha é essa, sinal do parco ou de nenhum estudo de zoneamento ou demarcação sísmica na região", adverte Bonafim. Uma ocorrência desse porte não pode ser simplesmente arquivada como algo do passado. A Terra é dinâmica, não é estática.
Há também os tremores induzidos por reservatórios de água. O lago formado com a barragem altera as formações rochosas em virtude do peso da massa de água e há também a pressão exercida pela infiltração no subsolo. A combinação pode explicar distúrbios tectônicos como os registrados em 1974 em Guaira, no Norte do Estado (magnitude 4,2) e quando da construção do reservatório de Paraibuna-Paraitinga, no Vale do Paraíba, em novembro de 1977, sete meses após o enchimento do lago (magnitude 3,4). Até hoje, esses e outros reservatórios são monitorados. “Além dos prováveis danos estruturais por sismos induzidos, existem cidades povoadas nas redondezas", afirma o estudioso.
Finalmente, há um outro tipo de risco que atinge em cheio grande parte do Interior Paulista, especialmente nas áreas do Aquífero Guarany, um dos maiores reservatórios de água subterrânea do planeta. A fim de buscar locais cada vez mais profundos, técnicos perfuram as rochas basálticas. A pressão da água acumulada ao longo do tempo pode gerar sismos, como o ocorrido em 2004 no distrito de Andes, em Bebedouro, deixando a população local muito assustada. Pesquisadores do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP e da Unesp de Presidente Prudente montaram uma rede de sismógrafos para monitorar os poços do local. "Há fortes indícios de que a sismicidade local possa estar relacionada com a movimentação de água subterrânea através de fraturas nas rochas", afirma Bonafim.
Dedo na ferida
A coluna recebeu e-mails de entusiasmo com os resultados obtidos pela prefeitura de Maringá (PR) depois que passou a atuar em parceria com o Observatório Social da cidade, divulgados domingo. É simples assim. Na compra de uniformes escolares para 2009, houve economia de R$ 907 mil e o material é de qualidade superior, na comparação com os gastos de 2006. Não há milagres, apenas trabalho. É por isso que o Comitê de Notáveis, que avaliou os projetos pela ONU, afirmou que o observatório “coloca o dedo na ferida do continente americano” em referência à corrupção e má gestão administrativa. É preciso que se coloque o dedo na ferida também em muitas cidades de nosso Interior Paulista. O site da ONG é www.sermaringa.org.br
Aviação regional
A Gol incluiu Bauru em sua rota com um vôo diário a São Paulo, mas é muito pouco diante do potencial do Interior do Estado. Em paralelo ao interesse das companhias – a Azul também está de olho nesse mercado – é preciso que as cidades se mobilizem para melhorar a infra-estrutura dos seus aeroportos, que é precária na maioria dos casos.
|