20/05/2012
 
Jornalismo regional paulista ganha destaque na imprensa especializada
(Rede APJ)
 
Renato Zaiden, publicitário e jornalista, é presidente da APJ - Associação Paulista de Jornais, entidade que reúne 15 dos principais jornais regionais do Estado de São Paulo e que formam a RPJ - Rede Paulista de Jornais-, cujas tiragens somadas representam a maior tiragem de jornais independentes e em rede do país.
É sócio-diretor do Grupo Cidade de Comunicação, que edita o Jornal da Cidade de Bauru e controla outras empresas regionais de comunicação e eventos.

O senhor poderia começar falando sobre os principais desafios para o meio impresso no Interior e Litoral paulista?

Você tem diversas categorias de jornais no interior e no litoral e, portanto, desafios diferentes para essas publicações. Tem os mensários, semanários e até diários em pequenas e médias comunidades. E tem os jornais da APJ, entidade criada há 18 anos e que reúne 15 dos principais jornais regionais diários do estado, em breve 16. São jornais que circulam diariamente em suas cidades sedes e municípios vizinhos, líderes de mercado no Estado de São Paulo e formam a Rede Paulista de Jornais, cujas tiragens somadas representam a maior circulação de jornal do País. Nossa tiragem de segunda-feira a sábado é de 252 mil exemplares e aos domingos de 342 mil. Nossas redações são compostas por cerca de 600 jornalistas ao todo. Para os jornais de pequenos mercados os desafios são grandes, já que os anunciantes são em número menor e a relação destes com seus consumidores é muito pessoal. No caso da APJ, os jornais são os principais players em seus mercados, líderes auditados em circulação e nosso desafio é o de mostrar sempre a liderança editorial e mercadológica em nossas regiões.

Como a APJ está posicionada no sentido de encarar estes desafios?

Hoje estamos em 370 municípios, cobrindo uma área de mais de 16,7 milhões de habitantes, com IPC e IDH invejáveis e numa área territorial compacta em se tratando de Brasil. A liderança de circulação e leitura nos mercados regionais mudou de mãos, hoje é nossa. Nos impusemos como diferenciais padrões rigorosos de circulação diária, liderança em mercados, independência editorial e econômica e a união com a troca de informações em todos os campos, trabalho em rede, compra conjunta de insumos e credibilidade das informações prestadas. Além disso, temos escritórios próprios em São Paulo e parcerias que vão muito além da simples representação, como em Brasília, por exemplo.

Desde a sua criação, quais foram os momentos mais marcantes da APJ até hoje, e quais foram suas principais conquistas?

Nossa primeira iniciativa foi credibilizar a informação passada ao mercado. Montamos em São Paulo a primeira sucursal de jornais em rede com títulos independentes do País. Criamos e realizamos pela primeira vez na história, ainda na eleição de Mário Covas, em conjunto com a Rede Bandeirantes de Televisão, a primeira série de debates a partir do Interior com transmissão ao vivo para todo o Estado e cobertura simultânea e completa pelos jornais associados. Começamos por Bauru e depois fomos para outras cidades. Realizamos os projetos Agenda Brasil e Agenda São Paulo, com a consultoria de Fernando Portella. Fizemos debates com nossos jornalistas e a participação de lideranças do pensamento político brasileiro debatendo com Serra e Lula, Alckmin e Lula, Dilma e Serra e todos os demais candidatos às eleições presidenciais, distribuídos em caráter documental para nossos assinantes e leitores, com propostas e programas de governo. Fizemos à mesma coisa na esfera estadual. Com a nova sede da APJ em São Paulo, um belo espaço na alameda Gabriel Monteiro da Silva, no Jardim Paulista, montamos a embaixada dos mercados paulistas na capital e agora estamos lançando o maior portal regional de notícias do País que é o seuplaneta.com.br e também o clickficados, que chegará com mais de 30 mil anúncios por edição e 60 mil ofertas em média. Individualmente somos líderes, unidos somos realmente muito fortes e estamos mostrando essa realidade.

Qual a sua avaliação sobre o mercado anunciante no Interior e Litoral paulista?

A APJ não tem jornais associados com sede no litoral. Temos o jornal O Vale, com sede em S. José dos Campos, que também circula no Litoral Norte. No litoral, a realidade é diferente pelo turismo e pela população variável, em função das temporadas de férias, verão e feriados prolongados. Quanto aos mercados regionais do Interior, nos centros onde estamos os anunciantes não abrem mão dos nossos títulos. Somos a mídia principal para o varejo, mercado imobiliário, de autos, prestação de serviços, planos de saúde, moda, designer e decoração, utilidades domésticas, recrutamento de mão de obra, classificados e lançamentos em geral. Ganhamos muitos leitores entre os novos consumidores, vivemos de oferecer resultados aos anunciantes e por isso crescemos com eles.

Como o senhor avalia a relação custo/benefício da mídia impressa para os anunciantes que se utilizam dela em seus planos de comunicação?

Posso te afirmar que os nossos melhores números são os contabilizados pelos nossos anunciantes, que renovam e ampliam suas ações publicitárias em nossos jornais. Temos localmente a maior parte dos investimentos publicitários. É só conferir em nossas páginas e ver que quem quer vender está sempre por lá, porque quem compra está com a gente. Quem anuncia em nossos jornais vende muito mais.

Como tem sido a relação dos jornais do interior com as agências das respectivas praças?

Nos mercados regionais as relações são mais próximas e intensas e as agências e os jornais estão se aproximando cada vez mais e até mesmo alguns prêmios regionais já estimulam a criação publicitária para o meio e tem muito novos talentos na área. Juntos desenvolvemos novos anunciantes e criamos uma cultura publicitária cada vez mais forte.

Como tem sido a relação dos jornais do interior e litoral com os da capital?

Eles sempre foram nossos fornecedores de noticiário nacional através de suas agências. Muitos jornalistas que estão lá foram formados nos jornais regionais e as tecnologias democratizaram a produção gráfica com qualidade para os nossos jornais. Fechamos mais tarde e chegamos mais cedo para os nossos leitores, com noticiário internacional, nacional, político, esportivo e cobrimos com exclusividade o local e o regional. Hoje a sua própria pergunta revela uma nova realidade -- os jornais da capital estão cada vez mais restritos à capital. No interior a liderança mudou de mãos, hoje é totalmente nossa.

Qual a sua avaliação sobre a importância de os jornais serem auditados pelo IVC?

Todos os jornais devem em nossa opinião oferecer informação auditada ao mercado. Dos nossos associados, quase 70% já estão no IVC, outros tem auditorias como a Price Waterhouse e BDO Trevisan ou estão em fase de implantação das mesmas. Esse caminho e irreversível.

O senhor diria que alguns jornais resistem ao IVC, considerando este um gasto desnecessário?
Creio que no caso dos pequenos jornais o custo ainda pese, mas o IVC tem projeto para auditar essas circulações com custos mais acessíveis e isso deve ampliar os títulos filiados.

Como o senhor analisa o futuro dos jornais impressos em meio ao surgimento de novas plataformas de conteúdo?

Com muito otimismo. Em médio prazo vejo que os jornais regionais crescem com os novos leitores inseridos na classe média. Creio que as plataformas web e móbile complementam as alternativas de acesso à informação, mas acredito que teremos ainda uns bons anos de convivência entre todas elas, possibilitando alavancagem para uma transição criativa, inteligente e mais rentável do que hoje. Tecnologia para acessar informação está virando commoditie e daqui a pouco vai custar só “1,99” na maioria dos casos. Daí vai valer cada vez mais a competência, talento e foco no ser humano. Queiram ou não o mundo está evoluindo e gente vai ser muito mais importante que o capital e aí quem está mais próximo e focado em pessoas, ganha a preferência. Pode me cobrar isso daqui a alguns anos.

Que avaliação o senhor faz da plataforma tablet, e como está a adesão a ela por parte dos jornais do Interior e Litoral?
Muitos já estão nessa e em outras plataformas digitais, outros estarão lá muito em breve. Acho uma alternativa indispensável, só não concordo com os modelos de negócios, em que eles querem ser nossos sócios em proporções exageradas, quando na verdade são apenas meios de transmissão e acesso. Essa é uma questão que ainda vai dar muito que falar, mas com a gente protagonizando.

Como o senhor avalia a conjuntura econômica atual do Interior e Litoral paulista?

São Paulo, a capital, vai se sofisticar, tem que parar de inchar e se desenvolver com valor agregado, não cabe mais carro, nem moradia, nem gente vivendo mais no trânsito do que na vida. Isso está gerando maior desenvolvimento para outras áreas, que são justamente as cidades sedes e suas regiões nos mercados paulistas. Somos hoje em matéria de população, consumidores e PIB tão grandes como a capital e maior do que qualquer outro Estado brasileiro. Como distância agora se mede em tempo e não em quilômetros, estamos muito próximos um dos outros, pois vamos mais rápido de uma cidade para outra do que de um bairro para outro na capital. Não tem nada tão bom, com mercados tão próximos e com um poder de consumo tão relevante em qualquer outro lugar do País e da América Latina como o Interior Paulista. Temos PIB, IPC e IDH sem comparação com outras regiões e quem ignorar esses mercados e essa realidade vai jogar dinheiro fora. Por isso estamos lançando a campanha: “Rede Paulista de Jornais, o primeiro player do segundo mercado consumidor do país”.

A partir de 2003, com o governo Lula, iniciou-se um processo de regionalização das verbas de mídia dos órgãos federais. O senhor acredita que este processo deu certo na prática, ou só na teoria?
Houve avanços no governo Lula. A grande expertise da regionalização está na Caixa Econômica Federal e as verbas públicas em todas as esferas representam algo entre 1,5 a 3,5% do faturamento dos jornais da APJ. Os Correios estão indo na mesma direção da CEF, mas acho que o pessoal da Secom, do Banco do Brasil e de outras áreas, ficou mais tímido nesse governo. Deveriam sair de Brasília para conhecer cada um dos mercados regionais brasileiros, teriam ótimas surpresas e assim poderiam com conhecimento de causa passar da teoria para uma prática ampliada.

O PSDB já está próximo de completar duas décadas à frente do governo do Estado de São Paulo. Como o senhor avalia este período para o desenvolvimento local? O senhor acha que é preciso ter mais alternância?

A alternância de poder deve ser uma possibilidade como regra legal nas democracias. Vejo, no entanto que se um governo permanece no poder por mais tempo é porque tem aprovação do eleitor ou é porque a oposição não tem propostas, nem quadros convincentes. O mesmo acontece na esfera federal, onde, se as coisas seguirem no patamar atual, o PT tem grandes chances de ficar pelo menos 16 anos no poder. Temos que desonerar quem produz e investir melhor o dinheiro público, especialmente nas questões sociais, de saúde e educação, seja nas cidades, que é onde as pessoas vivem e no Estado ou na Federação para manter o País competitivo internacionalmente. Esse é o grande desafio que teremos pela frente para manter o desenvolvimento que precisamos.

Este é um ano de eleições municipais. Os jornais do interior e litoral fazem uma cobertura isenta e imparcial das eleições locais?

O jornalismo praticado nas redações da APJ retrata as realidades regionais também na política e a trajetória independente desses títulos tem sido responsável por um jornalismo sério e competente, com investigações e denúncias que levaram até mesmo a cassações e prisões de homens públicos. E os leitores sabem disso, pois estão ali junto com a gente, vivendo essa realidade. Sem modéstia, cobertura de eleições municipais é coisa que ninguém faz tão bem e com tanta proximidade, profundidade e independência como os jornais da APJ.

Como é a relação da APJ com a ANJ?

Praticamente todos os jornais da APJ são associados da ANJ e a nossa relação com a entidade nacional é muito boa, porém as propostas são diferentes. A APJ nasceu dos nossos encontros na ANJ. Somos focados no reconhecimento da mídia regional paulista e em jornais líderes de mercado, na formação da Rede Paulista de Jornais com títulos e domínios independentes, apenas um por praça, que, portanto não concorrem entre si. Temos plataformas conjuntas na compra de insumos, troca de conhecimento e conteúdo nas ações em grupo e desenvolvimento de projetos editoriais e comerciais.

Como é a relação da APJ com a ADI – Associação de Diários do Interior?

Somos entidades distintas. A realidade paulista é única, mas estamos próximos da ADI e realizamos quando possível parcerias editoriais para projetos de interesse nacional, nos unimos em defesa da mídia regional e em outras ações. Além disso, temos também laços de amizade com seus dirigentes e com muitos dos seus associados.

O senhor poderia contar um pouco da história do Jornal da Cidade de Bauru?

O Jornal da Cidade nasceu em 1967 sob a liderança de um grupo de cidadãos que queria mudar o cenário político da cidade. Passado esse processo, o grupo liderado pelos empresários Alcides Franciscato, Érico Braga e nós, deu início a uma fase focada em pluralismo e vanguarda editorial e mercadológica. Com o nosso jornalismo investigativo, ao lado do Ministério Público nos tornamos referência em todo o Estado. Em mercadologia contribuímos para o desenvolvimento de uma cultura publicitária regional e mantemos uma proximidade ímpar com as comunidades onde estamos presentes. Nosso slogan é “O melhor jornal do nosso mundo” e a nossa missão, coisa que perseguimos o tempo todo, é “Informar para Transformar”. Hoje estamos colocando em prática um projeto vanguardista denominado “JC 360º 3D”, que inicia toda a gestão a partir da Redação, em todas as plataformas, com foco no ser humano, revê relações de trabalho e busca novas alternativas ganha-ganha, acreditando que pessoas, criatividade, princípios e objetivos saudáveis fazem toda a diferença.

O município de Bauru conta com um curso de comunicação da Unesp; como o senhor avalia a qualificação dos profissionais ali graduados; trata-se de uma boa fonte de mão-de-obra para o seu jornal?

Não só a Unesp como a Universidade do Sagrado Coração (USC) -- que também tem cursos de jornalismo --, tem sido muito úteis na formação de novos profissionais. Avaliamos que entre a teoria e a prática ainda há uma distância, mas que vem diminuindo. Penso que muita gente ainda vai para a área sem ter vocação e outros sem uma formação cultural mais sólida, mas o cenário é de boas mudanças. Quase 60% da nossa Redação vêm dessas universidades e o jornal também acaba contribuindo para a formação desses novos profissionais.

Como o jornal está se preparando para o futuro; que futuro o senhor espera para o jornal?

Com as novas tecnologias, plataformas multimídia, web, móbile, redes sociais, contribuição e participações dos cidadãos, estamos criando transformações no comportamento e comprometimento das equipes e ao mesmo tempo viabilizando o partilhamento com eles funcionários de resultados através de empresas parceiras, sociedades temporárias, que vão remunerar as equipes por projetos feitos no Grupo Cidade, porém fora do jornal. Não se trata da simples criação de uma agência de comunicação e conteúdo, mas de uma nova leitura do negócio da comunicação e da sua influência na qualidade de vida dos públicos internos e externos. Contemplamos isso no projeto 360º 3 D. Como a informação vai ter muito mais valor pela credibilidade de quem as assina, vamos continuar fazendo toda a diferença, em qualquer plataforma. Por isso o futuro é crescer com qualidade, evoluindo sempre.
 
 
 
APJ - Associação Paulista de Jornais