15/04/2012
 
"Caixa se posiciona num novo momento do crédito no Brasil”, diz Hereda
(Wilson Marini)
 
Caixa baixa juros e lança plano de redução de dívidas das famílias

Wilson Marini
Rede APJ

A Caixa Econômica Federal anunciou esta semana dois amplos programas de crédito que têm objetivo de ampliar o relacionamento com os seus clientes e ao mesmo ampliar a sua base tornando-se atraente para os novos. Um dos programas anunciados baixa as taxas de juros e amplia o volume de recursos disponíveis no mercado. O segundo é um plano de reorganização financeira para pessoas físicas que desejam reduzir as suas dívidas ou obter novos empréstimos.

“A Caixa está reposicionando os seus canais”, afirma o seu presidente, Jorge Hereda, em entrevista à Rede APJ - Associação Paulista de Jornais, da qual faz parte este jornal. Na entrevista, Hereda anunciou ainda a abertura de 129 agências da Caixa no Estado de São Paulo ainda este ano, de um total de 500 no País em 2012. Boa parte das novas agências paulistas será pulverizada no Interior, onde a Caixa movimenta crédito de 40,9 bilhões, equivalente a 16% de sua carteira total (outros 13,6%, ou R$ 34,7 bilhões, referem-se à Capital). Segue a íntegra da entrevista:

Nos dois programas anunciados, qual é o espírito que predomina, o social ou a competição de mercado?

As duas coisas. Um banco público é um instrumento sim do Estado e está a serviço da população brasileira e tem um papel a cumprir. Um banco público é um banco, tem toda a governança a respeitar, não pode fazer benesses sem ter retorno, tem uma série de compromissos. Tem que ser sustentável, tem que ter retorno pois, num banco público, esse retorno se volta para a população também em benefícios. Nosso acionista entre aspas é o governo federal. Em 2008, nos primeiros sinais de crise, os bancos privados colocaram o pé no freio, frearam qualquer tipo de acesso ao crédito. Foi uma dificuldade muito grande, grandes empresas tiveram problemas de capital de giro. É óbvio que o governo tinha uma preocupação em manter a situação econômica do país e óbvio que os bancos públicos são instrumentos para isso também, com responsabilidade é claro. E naquela época tomamos a decisão de acelerar e pisar enquanto todo mundo estava pisando no freio. O resultado é que em 2007 tínhamos 6% do mercado de crédito bancário do Brasil, hoje temos 12,6%. Significa a quarta posição em carteira de crédito e a meta é chegar a terceira até o final do ano. Hoje temos uma carteira de R$ 260 bilhões e queremos chegar a R$ 340 bilhões. Vamos conseguir com o esforço que a Caixa está fazendo hoje de aumentar o crédito. A nova estratégia vai contribuir para que a gente chegue nesse ponto.

Há desconfianças em torno das medidas?

Em 2008 muita gente criticou dizendo a mesma coisa que estão dizendo agora, “os bancos públicos estão indo para uma aventura, estão indo porque o governo mandou, isso é uma irresponsabilidade porque um banco público compete no mercado e tem que ter a mesma condição de competição dos privados”. Nossa carteira cresceu em média 40% ao ano desde aquela época, aumentamos nosso market share. Foi um bom negócio para a Caixa, foi bom para o Brasil. A Caixa conseguiu crescer. Tivemos ano passado lucro de R$ 5,2 bilhões, o maior lucro da história da Caixa, o maior retorno sobre capital entre os bancos, o maior crescimento de carteira, em função do reposicionamento. Nós achamos que agora existe uma outra oportunidade. Nesse momento em que a crise bate às nossas portas numa outra característica, os bancos não tiraram completamente o pé do acelerador. Aprenderam com o que aconteceu em 2008. Estão cautelosos. A Caixa acha que existe uma outra oportunidade agora. Com esse ambiente de juros mais baixos, quem se posicionar melhor, quem começar a raciocinar com a cabeça de que tem de ampliar a sua base, para dar mais condições de mais pessoas terem acesso ao crédito e mais pessoas serem bancalizadas, num ambiente de crescimento que o país está tendo e de juros mais baixos, vai se posicionar primeiro nesse novo mundo, nesse novo momento.

O que mudou?

No meio da década de 90, o banco ganhava dinheiro com floating, o dinheiro que ficava no overnight, a inflação era muito alta. Os bancos tiveram que se adaptar à inflação mais baixa e aí se criou outro modelo para ter retorno de seus investimentos, as tarifas. Agora, os juros estão caindo, portanto, vamos ter que ter um spread menor e para ter um nível de lucratividade maior, tem que uma disputa maior pelo mercado, ampliar a base, como aconteceu no passado com a compra de folha de salários. Agora vai ser quem tem condições de atendimento e condição de crédito mais favorável. A Caixa está se posicionando no que ela acredita seja um novo momento do crédito no Brasil.

Haverá um segundo movimento no setor ainda este ano?

A Caixa lançou essas medidas mas vai continuar se posicionando durante o ano todo. Vamos ser agressivos como estamos sendo desde o ano passado de uma maneira mais firme. Estudamos outras medidas em outros segmentos, mas não dá para antecipar, porque tudo o que a gente faz é em cima de precificações, não tem carteira com margem negativa, fazer só por fazer, que baixou os juros, não tem isso. A Caixa tem uma carteira no setor habitacional de R$ 160 bilhões, ou 73 a 74% do mercado, 3 milhões de clientes. Tudo o que a gente faz tem que ser medido com todo cuidado.

Qual o impacto na cadeia produtiva?

Na pessoa jurídica optamos em centrar firmemente no capital de giro e no desconto de duplicatas. Colocamos R$ 10 bilhões de recursos novos nisso, o que não quer dizer que se limite a isso se tiver mais demanda. A Caixa vai aplicar R$ 70 bilhões de abril a dezembro clom as novas medidas, mas R$ 10 bilhões para capital de giro especialmente para pequenas e médias empresas. A Caixa quer ser o banco da nova classe média, sempre foi o banco de todos os brasileiros. Quer o pequeno, micro e médio empresários tenham alternativas de crédito nesse momento possa produzir e garantir os empregos que o país precisa. Os pequenos são os que mais geram empregos. Fizemos um grande esforço para colocar os juros muito atrativos para esse setor -- 0,94% ao mês não existe no mercado nenhuma alternativa, de nenhum banco, nem público, nem privado.

A expectativa é puxar para baixo os juros dos bancos privados?

A expectativa é ganhar mercado ampliando a base de clientes, conquistando novos clientes porque o mercado bancário é muito competitivo. Uma parcela grande da população brasileira já está bancalizada. E tirar alguém de banco para passar para outro é uma tarefa árdua. Então, esse novo arsenal que a gente coloca à disposição dos funcionários e gerentes é para conseguir ampliar essa base. E vai cumprindo o papel que um banco público tem que cumprir, que de certa maneira é regular o mercado.

Como vai funcionar na prática a portabilidade de contas-salário?

Nesse início de ano passou a valer a portabilidade do salário das folhas públicas e privadas. É a possibilidade do cidadão que receba num determinado banco transferir a sua conta-salário a outro banco a seu desejo. Existe agora a possibilidade maior de o banco abordar diretamente o cliente e dizer: se você trouxer sua conta para aqui, terá melhores condições de juros, atendimento. A portabilidade acelera e propicia a competição entre os bancos e isso é bom para todo mundo, sobretudo para o cliente.

O que a Caixa planeja em relação a renegociação de dívidas?

A Caixa lançou o programa Melhor Crédito. Num primeiro momento isso foi questionado, se era sustentável, se era uma simples questão de atender à demanda do governo. E nós afirmamos que a estratégia da Caixa é ampliar a sua base de clientes. Enxergamos que num ambiente de juros baixos, os bancos precisam se adaptar a isso. Uma questão que vem sendo colocada muito na imprensa é que a população está muito endividada. Há opiniões contraditórias, uns dizem que sim, outros que não, que tem muito espaço. No reposicionamento da Caixa, queremos colocar uma assessoria financeira a nossos clientes. Dizer a ele que a Caixa está preocupada em lhe dar uma alternativa para reestruturar as suas dívidas e ter uma vida mais tranquila. Num primeiro momento, se você não está acostumado a consumir muito determinadas situações e o país mudou, as pessoas podem extrapolar a sua capacidade. É importante que se tenha a possibilidade de se renegociar, de reestruturar a sua dívida e a Caixa está querendo nesse novo movimento que está fazendo também dar essa tranquilidade para o cliente. Utilizar as nossas linhas de financiamento para reestruturar as suas dívidas.

Como fazer isso?

Ele pode nos procurar e a Caixa vai lhe oferecer as alternativas que têm, verificar com as novas taxas temos a possibilidade de pagar menos. Algumas taxas tiveram o seu prazo dilatado, algumas linhas de financiamento mais a longo prazo, portanto, com essa cesta de produtos que temos, com certeza é possível se achar uma forma de reestruturar a dívida.

O atendimento vai mudar?

A Caixa já está investindo nessa questão do atendimento há algum tempo, temos um novo modelo.

E a indimplência?

Se eu tenho condições de dar um juro melhor ao cidadão, ele vai ter mais condições de pagar. Além disso, a Caixa tem uma inadimplência controlada. Temos uma composição de carteira de crédito imobiliário muito grande (cerca de 60%), mas enquanto na área do crédito livre, que a gente chama de comercial, o mercado está com 5,6 a 5,8, a Caixa está com 3,1. A da Caixa é de 2,1 (o imobiliário é 1,7). Temos uma carteira que cresceu em nível significativo nos últimos anos e com nível de inadimplência controlada.

É a maior redução de juros da história da Caixa?

A Caixa tem como prática há algum tempo procurar ter as melhores condições de juros do mercado. Mas desta vez o banco foi incisivo. Estamos trabalhando nessa proposta há uns três meses. Escolhemos os principais produtos para uma cesta de relacionamento com pessoa física e outra com pessoa jurídica e reposicionamos também a nossa rede -- vamos ter que reduzir parte da minha margem líquida e vou ter trazer tantos clientes a mais para compensar isso e aumentar o meu relacionamento com os clientes. Temos 3 milhões de famílias com crédito habitacional, boa parte delas não tem a Caixa como principal banco. Temos 42 milhões de clientes como poupança, mas boa parte deles não tem a Caixa como primeiro banco. Então, é uma oportunidade de estreitar relacionamento com esses que já estão na Caixa oferecendo a eles a melhor condição que o mercado tem. Vamos trabalhar com esses que já conhecem a Caixa e vamos trazer outros clientes também. Todos foram beneficiados. No cartão de crédito, houve um corte de mais de 50% na tarifa que tinha antes.

Que setores serão beneficiados?

Sob o ponto de vista da pessoa física, vamos ter um impacto grande especialmente nos funcionários públicos e assalariados de forma geral. Micros, pequenos e médios empresários. O governo tem uma ação forte de crescer o microcrédito orientado; a Caixa se preparou ano passado e vai ter este ano R$ 300 milhões nessa linha. Iremos abrir lotéricas em todos os municípios desassistidos, que hoje em SP são 16, para os quais os editais já foram publicados.

E as metas de novas agências?

Temos uma meta de 2 mil novas agências até 2015. Essa distribuição foi feita pensando num novo Brasil. A primeira vez que trouxeram a proposta, repetia o desenho que sempre se teve. São Paulo sempre é um estado que vai ter muitas agências porque é onde têm muitos negócios. O reposicionamento está olhando para o Nordeste, o Norte, o Centro-Oeste. O Nordeste é crescendo mais que a média brasileira. A Caixa como banco público vai onde os outros normalmente não vão. Hoje estamos em todos os municípios, com correspondentes. Queremos ter lotéricas em todos os municípios até 2015.