18/09/2011
 
Correios mudam para entrar na tecnologia da informação
(Wilson Marini e Nelson Gonçalves/ Rede APJ)
 
Os Correios distribuem diariamente 35 milhões de objetos, entre cartas, encomendas e telegramas. Cerca de 64% do tráfego total da ECT concentra-se no Estado de São Paulo e é gerenciado pelas diretorias regionais na capital e no Interior Paulista (em Bauru). Em 2012, a empresa iniciará a ampliação dos quatro centros de triagem postal, localizados estrategicamente em Bauru, Campinas, Ribeirão Preto e na capital, com o objetivo de eliminar gargalos criados com o aumento da demanda nos últimos anos com o crescimento econômico.
A presidência da empresa é ocupada por um campineiro, o economista Wagner Pinheiro de Oliveira, formado pela Unicamp e com especialização em Administração e Gestão Financeira pela FGV/SP e em Finanças pela USP. Ele assumiu o cargo em janeiro, junto com o governo Dilma, vindo da Petros -- Fundação Petrobras de Seguridade Social, que presidiu durante oito anos.
Na sexta-feira, Wagner Pinheiro visitou a sede da Associação Paulista de Jornais (APJ), no Jardim América, em São Paulo, onde foi recebido pelo presidente da entidade, Renato Zaiden. Chegou com um tablet às mãos e dando números sobre o movimento grevista na empresa deflagrado esta semana e que afeta parcialmente a entrega de correspondência. Relaxou quando passou a falar dos planos de diversificação dos serviços, que incluem a carta digital, o Correio Celular, o Banco Postal, a certificação de documentos e maior participação no mercado de encomendas rápidas.
Enquanto almoçava, trocou torpedos (SMS) com o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo. É um estilo de gestão do ministro, comentou. Mas isso não é nenhuma surpresa para um executivo que considera a mensagem via celular “o telegrama moderno” e que por isso quer aproveitar o espaço da inovação tecnológica para atualizar o perfil da própria organização que comanda. Esse e outros assuntos são abordados por ele nesta entrevista à Rede APJ, da qual faz parte este jornal.

Rede APJ - O que o sr. pode dizer sobre a greve dos funcionários dos Correios?
No geral, a greve está em torno de 30%. É parcial mesmo. Ocorre que como os carteiros têm uma participação maior na média, a impressão para a população é que a greve é maior do que está sendo na realidade. Cerca de 70% dos funcionários estão trabalhando.

A carreira nos Correios é atrativa?
Acredito que sim. No último concurso, com 9.120 vagas, que estamos contratando agora, 1 milhão de pessoas fizeram a prova. Isso demonstra que as pessoas veem nos Correios uma oportunidade de emprego bom. É competitivo sim o salário. Eu gostaria de pagar mais o carteiro? Lógico que sim, mas eu ficaria espremido. Os rapazes de empresas concorrentes nossas ganham pior que os nossos. Não quero comparar. Quero ao longo do tempo, com esse projeto de transformação dos Correios numa empresa muito maior, incluir a melhoria das condições de trabalho e salários dos trabalhadores, mas tem que caber no orçamento, e hoje não cabe.

Que nova empresa é essa a que o sr. se refere? Quais são os novos campos em que os Correios pretendem atuar?
Pretendemos trabalhar no mercado de encomendas que nós trabalhamos hoje, a logística para pequenos pacotes, de até 30 quilos. No Congresso teve um debate se os Correios iam querer atuar em tudo, do alfinete ao minério de ferro. Não é isso. Queremos disputar com as multinacionais que concorrem com a gente e que têm a origem em correios, como o da Holanda. O correio alemão está no controle da DHL. A Fedex é uma empresa norte-americana. A experiência dos EUA nós queremos afastar. Lá os Correios cuidam só de cartas, telegramas e cartão postal. Isso está fazendo o correio norte-americano definhar. O nosso projeto dialoga com a modernidade, com a tecnologia da informação. Temos que atuar com maior eficiência no campo de encomendas. Queremos nos fortalecer na área de logística para disputar com grandes empresas multinacionais. Poderemos também atuar no Exterior, apoiar empresas brasileiras na exportação ou que importem. No correio tradicional, já atuamos no exterior através da União Postal Internacional que congrega quase 200 países.

No exterior, qual é a prioridade?
América do Sul e países de língua portuguesa. Mas não é projeto para agora. Por enquanto, queremos melhorar a entrega de encomendas no Brasil.

A globalização, o que muda?
Um aumento no mercado interno. Também cresceu a classe média no Brasil, muitas pessoas passaram a ter conta em banco e ligação de luz, e nós passamos a entregar as contas, isso aumentou muito o mercado. O crescimento econômico que o Brasil viveu aumentou o mercado de entregas.

De que forma os Correios se interessam pelas concessões de aeroportos em São Paulo?
Queremos focar em Campinas. Estamos discutindo com a Infraero uma participação para um grande centro logístico em Viracopos. Lá chegaria todo o conjunto de objetos para São Paulo. Queremos nos fortalecer também em Guarulhos, mas lá não tem mais para onde crescer, está entupido. Aeroporto de Brasília será outro grande centro regional e também o Rio Grande do Sul. Pensamos em Campinas porque o trem-bala vai passar ali. Todos os meios de transporte entre São Paulo e Rio não podem ser descartados. Nesse trecho fazemos 45% quase 50% de todo o transporte de encomendas e de cargas.

Há projetos de modernização dos centros de triagem de correspondência?
Em Bauru, por exemplo, temos um plano piloto para o nosso carteiro ser informatizado, com smartphone. O carteiro que cuida de Sedex passa a entregar com rastreamento automático no celular. Entrega e já registra na central.

Fala-se em esgotamento da capacidade de triagem.
Realmente estamos no limite em várias regionais. Estamos fazendo este ano um plano de investimento no Interior de São Paulo. Em Valinhos, por exemplo, e outros centros.

Nas cidades do Interior, quais são os serviços que mais crescem?
É incrível como a Diretoria Regional São Paulo Interior (que excetua a região metropolitana de São Paulo e a Baixada Santista), e que tem sede em Bauru, como essa região é quase auto-sustentável. Mais da metade dos objetos que a gente dá tratamento em Bauru chega de uma cidade do Interior e vai para uma cidade do Interior de São Paulo. O comércio eletrônico ampliou muito nessas regiões do Estado de São Paulo. É um Interior riquíssimo. Ampliou também muito a entrega de contas de telefone, de cartões de crédito, apesar de no mundo isso estar diminuindo. A região metropolitana de São Paulo é a primeira no País, e o Interior, a segunda.

E o Banco Postal?
No mundo inteiro os correios têm experiência de banco postal. O italiano é um exemplo. O banco postal japonês é fortíssimo. Temos a parceria atual com o Bradesco até o final do ano e em janeiro entrará o Banco do Brasil, que venceu o leilão, com lance de R$ 2,3 bilhões. Qual é o nosso diferencial? É mais amigável com a população de baixa renda. Os bancos com o tempo foram se elitizando, afastando os clientes em geral, nós não costumamos mais ir em agências. E isso faz com que os correios sejam uma porta de entrada para a bancalização das pessoas. Nos últimos 10 anos, o Banco Postal abriu 11 milhões de contas. 93% de pessoas declaram ter renda de até 3 salários mínimos; 57% até 1 salário mínimo mensal. São pessoas que não tinham conta em banco e viram nos correios uma oportunidade de pagar a sua conta, sacar, mandar o dinheiro para o filho que está estudando fora. Esse é o papel do Banco Postal. Ser muito mais popular e de ter capilaridade, ir onde os bancos não vão.

O correio tradicional, das cartas, representa que parte dos negócios atuais?
Ainda representa de 60 a 65% da operação e da receita. A lógica natural é inverter nos próximos anos. As encomendas, as parcerias com Banco Postal e celular, representarão dois terços de nossa operação, e o correio tradicional, 30%.

A agência física vai perder a sua imponência nas cidades?
Não, a lógica que a gente vê na Europa é de as agências físicas serem uma agência de parcerias de marcas. Por exemplo, com o Correio Celular, lá você pode comprar também o chip do celular, o novo aparelho. Tem correios em que você entra e parece uma drugstore onde você pode comprar um monte de coisas, CDs, livros, conveniência. É o contrário do que banco faz. Porque o banco, com o avanço tecnológico, se livrou da gente dentro da agência. Os correios, não. A experiência exitosa no mundo mostra o contrário. Os Correios não querem que as pessoas deixem de ir lá. Quer agregar coisas para oferecer.

Qual o correio do futuro?
Um exemplo. Criar uma empresa que ofereça minutos com a marca Correio no aparelhinho celular é usar a credibilidade dos correios. Comprar carga de celular no atacado e vender no varejo. Para juntar a credibilidade da marca, a agilidade que o celular tem e junto com isso continuar a ser o responsável por levar mensagens. Nossa área de inovação tem estudado isso, mas precisamos ter recursos para isso. Queremos ser uma certificadora digital, também. Ter um provedor que ofereça um diferencial: quando a pessoa física recebe um e-mail que a extensão é correios.com.br, ela foi certificada e a pessoa pode ficar tranquila que risco não existe. O correio da Suíça faz isso. É um mercado potencial enorme. Sonho em implementar isso. Pode dar diferencial e continuar na área da comunicação. Outra coisa: Hoje você pode mandar uma carta pela internet. Nós imprimimos, com sigilo, envelopamos e entregamos. Queremos implementar esse serviço de maneira maciça e contar para todo mundo. Telegrama é mesma coisa. Temos 12 milhões de telegramas/ano. O desenho dos Correios do ano 2020 é viabilizar parcerias, capilaridade em todo canto, avanço digital, parceria com banco e telefone celular marca Correios que vai fazer tudo para o nosso cliente. Quem tiver conta no Banco Postal, paga a conta pelo celular. A reforma estatutária agora respaldada pelo Congresso nos dá essa possibilidade. Nós não podemos perder essa oportunidade para não cair no definhamento.

O selo vai desaparecer?
Acho que não vai, porque tem uma comunidade filatélica tão consolidada que justifica manter. Mas hoje em dia grande parte das correspondências que a gente recebe é tudo selado eletronicamente. O selo tradicional como uso comercial vai se restringir à lógica cultural, do patrimônio do país, isso é considerado uma marca forte para todo mundo. É incrível como as comunidades gostam disso. Por ano, fazemos 15 selos comemorativos, e mais 6 são de autorização do ministro das Comunicação. Têm que ser definidos um ano antes, em julho, e a disputa é uma maluquice, um monte de gente querendo selo para a sua cidade, evento, clube de futebol.