21/10/2011 - Observatório da Imprensa
 
Pauta aberta sinaliza fim do “furo” jornalístico
(Carlos Castilho)
 
Pauta aberta sinaliza fim do “furo” jornalístico
Por Carlos Castilho em 20/10/2011

Um dos maiores tabus do jornalismo começa a ser desmontado gradualmente com o avanço da experiência lançada em meados de outubro pelo jornal inglês The Guardian. Ao abrir sua agenda futura de notícias para o público em geral, o matutino quebrou uma regra de ouro das redações, segundo a qual o sigilo sobre o que será publicado no dia seguinte é a principal arma para atrair leitores.


Ao fazer o um balanço da primeira semana de existência do seu projeto Open Newslist, o Guardian foi cauteloso embora a experiência esteja sendo acompanhada de perto pelos concorrentes do jornal e, princpalmente, por dezenas de blogs especializados em cobertura da imprensa.


A iniciativa quebra também um comportamento quase secular em matéria de jornalismo. O Guardian está tentando mostrar que é possível conquistar a fidelidade do leitor dando-lhe mais participação na produção do noticiário. A esmagadora maioria dos demais jornais em todo mundo ainda segue a regra de que o comprador de jornais e revistas opta pela novidade e pelo ineditismo em primeiro lugar.


São duas linhas completamente diferentes e que obedecem à duas visões distintas da realidade informativa atual. A proposta do projeto Open NewsList parte do princípio de que a avalancha informativa gerada pela internet reduziu drasticamente a possibilidade daquilo que os jornalistias chamam de “furo”, ou seja notícia, foto, video ou entrevista publicados com exclusividade, antes que os demais concorrentes.


O “furo” sempre foi encarado pelos profissionais como o troféu maximo da categoria e um atestado de qualidade e eficiencia jornalística, por parte da empresa. A grande maioria dos jornais ainda apoia o seu marketing na exibição de feitos inéditos pelos seus funcionários na investigação jornalística.


O Guardian está fazendo uma aposta ousada no abandono de um dos mais celebrados valores do jornalismo, o ineditismo. O contexto informativo atual , caracterizado por uma super-oferta informativa que reduziu drasticamente o preço da commodity noticia inédita, pode explicar parte da ousadia do jornal inglês, mas as incertezas ainda são muitas para antecipar um sucesso.


A principal incógnita é o comportamento do leitor e até que ponto ele se envolverá na produção de notícias, acrescentando detalhes, novos enfoques e correções. Após uma semana de experiência, o resultado é promissor porque foi intenso o uso do Twitter como ferramenta de participação dos leitores, com cerca de mil mensagens enviadas à redação do jornal. Surgiram até debates entre jornalistas e leitores sobre temas como foi o caso da morte do ex-homem forte da Libia, Muammar Kadhafi.


A avaliação dos resultados da experiência tende a ser um processo lento porque, passada a novidade, os leitores tendem a ser menos participativos na medida em que a colaboração inevitavelmente toma tempo, que é retirado da rotina diária de cada pessoa. A partir dai, o resultado ficará dependente da capacidade da experiência contagiar um número suficientemente grande de leitores, de forma que sempre haja um grupo disposto a participar na produção de notícias. Ai vale mais a estatística de que a motivação, como já acontece hoje com a enciclopédia virtual Wikipédia.


Tecnicamente o sistema montado pelo Guardian é simples mas eficiente. A pauta diária do jornal é publicada no site da versão online, onde cada assunto tem ao lado o link para o Twitter do repórter ou do setor encarregado de redigir a notícia .


Há cinco áreas principais, que corresponderiam às principais editorias de um jornal: internacional, noticias nacionais, esportes, economia, ciência/ambiente. Há uma pauta matutina e outra vespertina. Os interessados podem incluir o hashtag #opennews no seu Twitter o que lhes permitirá receber os temas das reportagens em preparação bem como os comentários de outros leitores.


O Guardian também foi cauteloso na hora de associar a sua experiência à uma possibilidade de implantar a transparência total na sua redação. Embora assumindo que a sua preocupação central não é mais o furo, o jornal admitiu que pode reter algumas informações em casos de embargo n divulgação de noticias liberadas por órgãos governamentais ou quando houver risco de consequências imprevisiveis, como informações financeiras ou de segurança nacional.