11/10/2011 - Observatório da Imprensa
 
A importância de uma imprensa livre
(Leticia Nunes - Alan Rusbridger)
 
REINO UNIDO
A importância de uma imprensa livre
11/10/2011 na edição 663

Tradução e edição: Leticia Nunes
Alan Rusbridger, editor-chefe do Guardian, foi um dos palestrantes de uma série de seminários que fazem parte do Inquérito Leveson, aberto depois do escândalo dos grampos ilegais no tabloide News of the World com o objetivo de avaliar as práticas e a ética da imprensa britânica.

O juiz Brian Leveson, que preside a comissão criada a pedido do primeiro-ministro David Cameron, anunciou em julho que uma das ações seria a organização de seminários para que pudessem ser observados diferentes pontos de vista da indústria e da sociedade. Ele afirmou em sua declaração inicial que estas palestras incluiriam, “entre outros temas, a lei, a ética jornalística, a prática e as pressões sofridas pelo jornalismo investigativo da perspectiva dos jornais tradicionais e dos tabloides, e questões de regulação”, sempre com o objetivo de auxiliar a busca pela “integridade, liberdade e independência da imprensa, e ao mesmo tempo garantir os mais altos padrões éticos e profissionais”.

Rusbridger participou do bloco de seminários sobre os direitos e responsabilidades da imprensa. Com um discurso intitulado “A importância de uma imprensa livre”, o editor explicou por que a liberdade jornalística continua a ser um direito fundamental.

Investigação longa

O Guardian teve papel relevante na exposição do escândalo do News of the World – foi o primeiro a noticiar, no início de julho, que o tabloide havia grampeado o telefone da menina Milly Dowler em 2002, quando ela estava desaparecida. Rusbridger conta que a história levou dois anos para ser esclarecida, com poucos acontecimentos nos primeiros 18 meses. Foram abertas duas investigações policiais complementares ao inquérito policial original sobre os grampos em 2006; políticos e grande parte da imprensa mostravam-se pouco enérgicos diante da questão; e o órgão regulatório britânico havia produzido um relatório inócuo sobre o assunto.

Ele defende que o jornalista Nick Davies, responsável pela cobertura dos grampos, e o Guardian foram a força mais importante na investigação e exposição do caso. “A única razão para que a história completa fosse descoberta se resume a uma imprensa livre”, diz. E continua:

“Outros jornalistas, em tempo, se juntaram. E o que estes repórteres fizeram – examinar a fundo as provas; reunir fatos; fazer perguntas; cultivar fontes; olhar documentos; falar com pessoas envolvidas; ganhar sua confiança; ignorar ameaças; verificar informações; reportar com precisão – serve como um bom exemplo da importância de uma imprensa livre.

“Fica para outros responder à questão sobre os cães que não latiram: por que outras instituições em nossa sociedade não funcionaram efetivamente naqueles 18 meses. Mas a saga nos diz muito sobre a necessidade de uma instituição, um estado, uma profissão, um ofício– nós provavelmente nunca vamos concordar em como chamá-la – que existe independentemente dos outros principais centros de poder da sociedade.”

Responsabilidade

Rusbridger lembra que a imprensa é, por vezes, chamada de “quarto poder”. O termo sugere que ela exerce uma força importante, consistente e independente na sociedade. A imprensa não tem os mesmos objetivos do governo, da religião ou do comércio.

“Stanley Baldwin [primeiro-ministro britânico nas décadas de 1920 e 30] não quis fazer um elogio quando afirmou, em 1931, que os jornais tinham ‘poder sem responsabilidade’. Mas, de fato, a falta de responsabilidade é um dos aspectos importantes em que a imprensa é diferente. É claro, a imprensa deve ser responsável por seus padrões e ética. Mas não é função dos jornalistas administrar as coisas: eles literalmente não têm responsabilidade. Eles não têm que responder aos partidos políticos, fazer concessões necessárias na política ou responder a acionistas. Eles não são amarrados pelos acordos de confidencialidade que prendem outros. Eles são indiferentes a incomodar ou envergonhar alguém. Eles não têm que ganhar votos. Eles podem escrever coisas – sobre a economia ou o meio ambiente – que precisam ser ditas, mas são podem ser ditas por políticos. Eles vêm de um lugar diferente.

“Esta liberdade é uma liberdade fundamental. Há muitos escritores, juristas e filósofos políticos que a consideram a primeira e principalde nossas liberdades. A Primeira Emenda americana é provavelmente a mais forte e sagrada expressão da primazia da liberdade de expressão em uma sociedade aberta.”

Isto, claro, é o ideal, diz Rusbridger. “Mas vale a pena perguntar, em um contexto britânico, o quão ‘livre’ é a nossa imprensa. E, fundamentalmente, o que é ‘a imprensa’”, afirma. O editor ressalta que há diferentes medidas de liberdade. Uma delas é se os jornalistas são genuinamente livres para cobrir qualquer pauta, independente de influências ou pressões editoriais, políticas ou comercias. Outra é a liberdade econômica. Há anos os jornais de papel sofrem uma “ameaça existencial” pela combinação de fatores técnicos e econômicos. A fratura digital, diz Rusbridger, ocorre de várias formas – entre elas, sugando a receita do impresso e desafiando os conceitos de “jornal” e “jornalismo” como os conhecíamos. O chamado jornalismo investigativo, que demanda tempo e dinheiro, é cada vez mais difícil de ser feito diante da compreensível necessidade de cortes de custos nas redações.

Adaptação

O jornalismo se adapta. Hoje, parece difícil encontrar um jornal que exista unicamente como produto impresso. Cada vez mais, a palavra “imprensa” engloba também as formas digitais de jornalismo. “E isso incluirá imagens em movimento, dados e som, normalmente publicados sem interrupção em uma variedade de plataformas”, lembra.

“Esta desagregação, ou fragmentação, digital do jornal tem, é claro, implicações econômicas graves. Mas também traz para o debate o até agora distinto papel da ‘imprensa’. Muitas destas novas formas digitais de compartilhamento de informação são baseadas em uma ideia diferente de mídia, ou de quem deveria participar dela. A revolução tecnológica – considerada por muitos a mais significativa desde a invenção da prensa móvel no século 15 – permite virtualmente que qualquer um crie e compartilhe suas notícias e opiniões. Então a mídia do século 21, em vários aspectos, marca uma ruptura brusca do que veio antes – um mundo em que um relativamente restrito grupo de pessoas se beneficiava ao ter uma plataforma para falar a uma audiência em massa. Chegaram ao fim os dias em que a liberdade de imprensa é limitada àqueles que a possuem”.

Rusbridger cita o veterano jornalista Carl Bernstein – parceiro de Bob Woodward no caso Watergate, em 1972 –, que recentemente traçou um paralelo entre o trabalho no Washington Post há quase 40 anos e o trabalho de Nick Davies no Guardian. Bernstein usou a frase “a melhor versão alcançável da verdade” para descrever o que os jornalistas, em sua melhor forma, tentam conseguir.

O editor cita ainda a definição de “jornal” do também jornalista veterano David Broder, que trabalhou por mais de 40 anos no Washington Post e morreu no início de 2011, aos 81 anos:

“Uma versão parcial, precipitada, incompleta e inevitavelmente falha e imprecisa de algumas das coisas que ouvimos nas últimas 24 horas – distorcido, apesar de nossos melhores esforços para eliminar as maiores parcialidades, pelo mesmo processo de compressão que torna possível que você o pegue na porta de casa e o leia em cerca de uma hora. Se rotulássemos o produto corretamente, poderíamos mencionar: ‘Mas é o melhor que pudemos fazer nas circunstâncias, e voltaremos amanhã, com uma versão corrigida e atualizada”.

Desafio

Mas Rusbridger lembra que as imperfeições da imprensa não devem ser o ponto principal quando se discute sua liberdade. “Uma imprensa livre não existe para o benefício de um grupo chamado ‘jornalistas’. Ela existe, fundamentalmente, em benefício dos cidadãos comuns. As liberdades pertencem a eles – que são livres para receber sem atraso informação confiável sobre sua sociedade”.

O problema é que hoje, pela primeira vez, é possível imaginar uma sociedade sem nenhuma forma consentida ou verificável da verdade. E os jornalistas, diz o editor, gostariam que fosse óbvio que o que fazem é crucial para a democracia, assim como ter água potável ou contar com o corpo de bombeiros.

Desde Watergate, os jornalistas citam grandes investigações jornalísticas para exemplificar sua importância. É a imprensa livre que expõe ilegalidades e interesses escusos. E o trabalho investigativo, defende Rusbridger, é evidência vital da importância da liberdade de imprensa. Também vital é o “músculo institucional” que existe por trás de um repórter que faz este tipo de trabalho. “Repórteres precisam saber que serão protegidos de ameaças e dos imensos custos normalmente envolvidos quando pessoas não querem que seus segredos sejam expostos”. Há ainda um lado menos glamouroso – mas também vital – do trabalho jornalístico que não é replicado pelos blogs ou pelas mídias sociais. É a rotina jornalística: fazer perguntas, ser observador, gravar entrevistas, contextualizar os fatos. “É sentar em um tribunal reportando o fluxo diário de casos criminais – ser a testemunha da comunidade no processo de justiça. É estar na linha de frente na Líbia, tentando separar a propaganda da realidade. É reportar os argumentos antagônicos sobre as mudanças climáticas – e ajudar o público a avaliar onde está a verdade”.

Rusbridger continua: “governos totalitários não podem nunca permitir uma imprensa livre”. O Reino Unido, diz ele, teve que lutar por mais de 400 anos para ter a imprensa “relativamente livre” de hoje. “E nunca pode haver um momento em que a liberdade seja considerada uma ‘vitória’”. Quando se pensa na liberdade atual da imprensa, o editor diz que é preciso voltar no tempo:

“Leia sobre como o ‘licenciamento’ da imprensa no Reino Unido foi abolido em 1695. Leia sobre como Wilkes, Cobbett, Locke, Milton, Mill, Junius e inúmeros escritores, advogados e impressores anônimos lutaram pelas liberdades gozadas pela imprensa britânica. Lembre como as liberdades conquistadas aqui se tornaram um modelo para grande parte do resto do mundo. E tenha consciência de que o mundo ainda nos observa para ver como protegemos estas liberdades”.