Edição: 29/07/2007
Entrevista: Alberto Goldman

 

 

Entrevista - Alberto Goldman
SP paga conta da crise aérea, diz Goldman
O vice-governador Alberto Goldman (PSDB) acusa o governo federal de tentar atribuir parte da responsabilidade pelo acidente com o Airbus da TAM a instituições ligadas ao Estado, como o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas).

Ele adverte que administração de José Serra (PSDB) sofre os reflexos da tragédia de Congonhas e terá que correr contra o tempo para atender às novas demandas de infra-estrutura decorrentes da redistribuição do tráfego aéreo.

“Tentaram envolver o IPT no episódio da liberação da pista, mas o instituto não tem nada a ver com isso. A crise é lá [em Brasília], mas nós estamos sofrendo aqui as conseqüências e o Estado está fazendo sua parte”, disse o tucano.

Em entrevista exclusiva concedida à Associação Paulista de Jornais, Goldman, que acumula o comando da Secretaria de Desenvolvimento, indica que as PPPs (Parceria Público-Privadas) serão fundamentais para financiar obras que melhorem os acessos aos aeroportos que absorverão os vôos desviados de São Paulo. “O trem que faz a ligação com Guarulhos já foi aprovado pelo conselho gestor das PPPs e deve sair logo”, afirma.

Ex-ministro dos Transportes, Goldman é mais prudente ao avaliar o chamado ‘Expresso Bandeirantes’, que interligaria a capital com o aeroporto de Viracopos, em Campinas. “Há o desejo do Estado, mas a viabilidade ainda não está concluída.”

O vice-governador criticou a letargia do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na gestão da crise aérea, mas elogiou a indicação do novo ministro da Defesa, Nélsom Jobim, com quem mantém estreitas relações desde o período em que foram colegas na Câmara dos Deputados. “Parece que finalmente o governo acordou. É uma luz no fim do túnel.”
Associação Paulista de Jornais- Qual o impacto imediato da crise aérea sobre o Estado, a economia. O governo já mensurou?
Alberto Goldman -
O impacto já havia. Nós já tínhamos tido problemas com transportes de carga no passado recente. E agora, desde o ano passado, mais agudamente se evidencia o problema do transporte de passageiros. Aeroportos são instrumentos de infra-estrutura muito importantes para o desenvolvimento do Estado. Nós temos hoje grandes rodovias, temos rodovias expressas, duplicadas, com investimentos pesados, mas também temos gargalos.

APJ – E os aeroportos hoje são estes gargalos para o desenvolvimento do Estado?
Goldman -
Os aeroportos e portos são gargalos na logística do Estado de São Paulo. Então isso já acontecia. Eu diria que este infausto acontecimento [o acidente com o Airbus da TAM] deixa mais clara uma questão que vinha sendo discutida pelos técnicos do governo do Estado e que passou a ser discutida pelo conjunto da sociedade.

APJ – E como o Estado vem agindo neste processo?
Goldman –
A proposta nossa é de acordar o governo federal, pressionar o governo federal para que ele se conscientize. E agora parece que eles começam a acordar. A pressão que nós fazíamos enquanto governo do Estado passou a ser uma pressão pública. É claro que nós queremos participar da decisão, até porque nós precisamos participar. A presença do Estado de São Paulo nestas decisões é fundamental.

APJ – E os aeroportos do interior? Falta muito para que eles possam compor melhor a malha aérea neste momento de crise...
Goldman -
Vai depender agora das ações do governo federal no sentido da redistribuição da malha aérea. Pode ser que nós tenhamos que colocar estes aeroportos dentro do jogo, da arrumação nova que vai ser feita.

APJ – Há disposição do governo em colaborar neste processo?
Goldman –
Total.

APJ - E nos casos em que se faz necessário um investimento maior nos acessos a estes aeroportos, o Estado estará presente?
Goldman -
Em alguns casos já tomamos algumas medidas e estivemos à frente. Por exemplo, na questão da ligação de São Paulo com Guarulhos, Cumbica. Já está programada, já foi aprovada pelo conselho gestor das PPPs. Através de um trem expresso. Esta questão já estava equacionada.

APJ – E o chamado Expresso Bandeirantes, com a conexão com Viracopos?
Goldman -
Esta questão de Viracopos ainda não está totalmente equacionada. É um desejo do governo do Estado, mas a viabilidade disso ainda não está concluída.

APJ - Seria também executada por meio de uma parceria público-privada?
Goldman –
Nós não temos ainda o modelo. O modelo ainda não foi definido. Ainda não conseguimos resolver.

APJ – Mas isso passa pela nova malha aérea. Depende disso?
Goldman -
Exato, dependendo desta nova malha que for definida, nós vamos ver o que será preciso fazer no próprio aeroporto e no acesso ao aeroporto.

APJ – A princípio, o senhor deu declarações que indicavam uma preocupação com o fato de o governo federal tentar se esquivar de suas responsabilidades neste colapso aéreo. O senhor mantém este receio?
Goldman -
Eu diria que pelo menos a Infraero tentou durante a semana jogar em uma instituição do Estado, que é o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), uma responsabilidade que não é dela, na autorização do uso da pista de Congonhas. No sentido de que o IPT estaria avalizando que a pista está em ordem, coisa que absolutamente o IPT não fez e não faz.

APJ – Então esta tentativa de transferir responsabilidade se estende para o aspecto técnico?
Goldman -
Foi uma tentativa de envolver o IPT neste episódio. O IPT não tem nada a ver com isso. O IPT tem alguns contratos com a Infraero para estudar certas especificações de algumas coisas da pista que foram pedidas e está trabalhando, apresentou um relatório parcial e tem ainda mais um mês para apresentar seus relatórios todos. E estão, mesmo assim, tentando envolver um órgão desta magnitude neste processo. O IPT não tem nenhuma participação, não tem nada a ver com liberação de pista. Tem a ver com um estudo específico pedido pela Infraero. A Infraero pediu para o IPT estudar o asfalto, o IPT estudou. O IPT foi contratado para apresentar análise dos índices de atrito da pista e apresentou. Tem muitos outros pontos que vão ser analisados. Mas, em nenhuma destas análises cabe ao IPT dizer se a pista está ou não em condições.

APJ - Esta redistribuição da malha tem causado apreensão em algumas cidades que devem absorver vôos desviados, até pelas condições precárias em que se encontram os terminais e seus acessos. Esse processo preocupa o Estado?
Goldman -
Claro que preocupa. O Estado vai ter que tomar algumas medidas para tentar atender esta mudança da malha. Não estamos sabendo ainda exatamente o que é e qual é a atuação que teremos que ter do ponto-de-vista aeroportuário e do ponto-de-vista dos acessos a estes aeroportos. Nós estamos dispostos a dar nossa parte para colaborar e é nossa obrigação.

APJ – Foi criado algum comitê, algum gabinete especial para avaliar a crise e seus desdobramentos?
Goldman –
Não, não. A crise está lá [em Brasília]. O que acontece é que nós podemos sofrer as conseqüências da crise. E nós vamos ter que enfrentar, como estamos enfrentando aqui.

APJ - E como o Estado já vem enfrentando?
Goldman –
Os diversos órgãos do Estado estão envolvidos. Os hospitais estão atendendo, os institutos de criminalística estão envolvidos, a polícia está investigando. Ou seja, as conseqüências nós já estamos enfrentando.

APJ - Mudando um pouco o foco, como estão sendo fomentadas as Agências de Desenvolvimento Regional, consideradas vitais como instrumentos de estímulo à organização dos setores produtivos?
Goldman -
Acreditamos que as ADRs têm que ser produto da ação local. O governo apóia, mas a estruturação cabe especificamente às forças locais. O caso típico que temos é o de São José dos Campos. Neste caso a própria prefeitura assumiu o Parque Tecnológico e nós estamos implantando uma Fatec. Nós estamos dando este respaldo para que a organização local tenha resultado.

APJ – Não existe a proposta de se criar uma rede destas agências?
Goldman -
Não, não. Não queremos montar isso, queremos incentivar, temos condições no ensino técnico, na pesquisa e tecnologia, podemos articular na infra-estrutura, mas a ação precisa ser local.

APJ- Isso se repete nos arranjos produtivos?
Goldman-
Sim, o arranjo tem que ser fruto de uma ação local.

APJ – E nos casos em que alguns setores da produção são alvejados por políticas macroeconômicas que criam uma competição até certo ponto desleal, o Estado não pode interceder?
Goldman –
Nisso a gente dá o respaldo possível dentro das competências do Estado.

APJ – Mas os representantes dos setores produtivos recorrem ao Estado de forma freqüente. Recentemente o senhor recebeu uma comitiva do setor de folheados, de Limeira.
Goldman -
Sim, nós estamos fazendo isso. No caso de Limeira temos uma reivindicação de cursos técnicos para dar respaldo a este setor de folheados. Então nós vamos ampliar as escolas técnicas que existem lá com cursos dedicados a este arranjo produtivo local.

APJ – Este processo de expansão das Fatecs está intimamente ligado às necessidades dos arranjos produtivos locais então?
Goldman -
Está ligado. A idéia da expansão do ensino técnico é exatamente a de incentivar a organização do arranjo local. Nós não devemos organizar, devemos deixar que isso ocorra de forma inversa e estimular, com os nossos recursos, o seu desenvolvimento.

APJ – E o papel do Estado na defesa de setores que vêm se sentindo desprotegidos, como o calçadista, o têxtil...
Goldman –
O papel nosso é fazer a articulação interna de diversos setores para atendimento de diversos setores ou mesmo de regiões do Estado. A gente procura articular isso internamente e também com o governo federal e com os governos municipais. O papel é de coordenação. Procurar eliminar entraves que existam ao desenvolvimento de setores econômicos ou de regiões do Estado.

APJ – No setor tributário, especificamente...
Goldman -
Nós recebemos constantemente este tipo de cobrança e procuramos articular, junto com a Secretaria da Fazenda, uma resposta a isso.

APJ – E qual tem sido a participação do governo estadual para estimular o crescimento econômico do interior? Na campanha eleitoral, o governador Serra ressaltava a importância de o Estado liderar um processo de crescimento em patamares superiores aos apresentados no país, que são tímidos.
Goldman –
É o que nós estamos fazendo agora nesta questão de aeroportos. Estamos procurando encontrar saídas, fazer sugestões. O governador Serra inclusive encaminhou ao governo federal suas sugestões. Fazemos nossa a parte e fazemos as pressões políticas que o Estado tem que fazer.

APJ – E há eco nestas pressões?
Goldman–
Eu diria que não do jeito que nós desejamos, mas em alguns pontos sim. Eu espero que melhore esta resposta do governo federal.

APJ – Nestas questões pontuais, como agora a crise aérea, existe um interlocução direta do senhor ou do governador com representantes do governo federal?
Goldman–
Eu diria que ainda está muito débil esta relação, mas tende a crescer, tende a melhor. Tende a começar a haver conversas mais consistentes.

APJ – Como o senhor avaliou a troca no ministério da Defesa?
Goldman-
Positiva. A figura que vai para lá, a figura do Nélson Jobim, é uma figura que nós temos boas relações há muito tempo, é uma figura que pode estabelecer algo novo. Vamos dizer que é uma luz, uma luzinha no fim do túnel. Acho que tem aspectos positivos, perspectivas positivas.

APJ – O senhor concorda com a autocrítica feita pelo presidente Lula, reconhecendo que faltam ao Ministério da Defesa os instrumentos que o tornem mais eficiente e possam dar uma resposta ao que realmente a sociedade espera da pasta?
Goldman
– É, felizmente, depois de tantos acontecimentos, parece que o governo federal, nesta área, começa a acordar.

Perfil

Nome: Alberto Goldman
Data de Nascimento: 12 de outubro de 1937
Naturalidade: São Paulo
Formação: Engenheiro Civil pela Escola Politécnica da USP
Cargos atuais: vice-governador e secretário estadual de Desenvolvimento
Trajetória política: ex-militante do MDB e do PMDB, foi deputado estadual por dois mandatos e federal por seis legislaturas, secretário de Estado de Coordenação de Programas (87) e de Administração (88-90) e ministro dos Transportes (92-94). Atualmente é vice-presidente do PSDB
Fábio Zambeli
Da Associação Paulista de Jornais