Edição: 02/07/2007
Entrevista: Sidney Beraldo

 

 

Entrevista - Sidney Beraldo
Pente-fino descarta 'fantasmas' em SP
O recadastramento do funcionalismo público estadual, determinado pelo governador José Serra (PSDB) no início de seu mandato, descartou a existência de servidores fantasmas nos quadros do Estado.

É o que antecipa o secretário de Gestão Pública, Sidney Beraldo, em entrevista exclusiva à Associação Paulista de Jornais (APJ).

O relatório do pente-fino feito na administração direta e indireta, que abrigam juntas um exército de
750 mil funcionários (além dos 300 mil inativos), será divulgado nesta semana e ditará os rumos da política de gestão de pessoal da administração tucana.

Sob a justificativa de perseguir a qualificação do serviço público, o governo Serra pretende introduzir
nos quadros do Estado práticas de recursos humanos comuns na iniciativa privada, mas que encontram sérias resistências na máquina estatal.

Ao rechaçar a possibilidade de concessão de reajustes lineares para a categoria, o secretário Beraldo descreve o novo modelo de recomposição salarial da classe, ancorado no desempenho do servidor.
"Vamos ter no Estado a remuneração por resultado. A idéia é premiar as equipes que obtiverem avanços na qualidade", disse o secretário.

O projeto-piloto deverá ser implantado na Educação e levará em conta as performances das escolas em indicadores já consolidados de avaliação, como o Saresp e o Inep.

Beraldo coloca à prova seu poder de articulação política com uma empreitada impopular entre os prefeitos: a extinção de escritórios mantidos pelo governo em pequenas cidades para centralizar em 14 sedes de macrorregiões as atividades das secretarias. "Há a necessidade melhorar o gasto público. Essas medidas geram economia, mas sem prejuízo ao atendimento do cidadão", diz o
presidente licenciado do diretório estadual do PSDB.

O secretário da recém-criada pasta avalia como irreversível o modelo de terceirização de serviços na área de saúde e cultura, diz apostar na tecnologia da informação para levar desenvolvimento ao interior e refuta o estigma paulistano que ronda o Palácio dos Bandeirantes após a posse de Serra.

"O governador tem mostrado que este conceito é equivocado ao visitar duas ou três regiões do interior por semana, ao anunciar obras para o interior. E isso vai continuar."
Associação Paulista de Jornais- A Secretaria de Gestão é uma pasta recém-criada. Nestes
primeiros seis meses, já foi possível efetivamente traçar um diagnóstico da máquina do Estado?
Quais os principais gargalos?

Sidney Beraldo
- O governador Serra, ao criar a secretaria, deu um sinal que iria priorizar esta área no governo. É uma secretaria de atividade-meio que tem como objetivo permitir que as
secretarias das atividades-fim possam cumprir o que está previsto no programa de governo. Nos últimos dez anos houve uma grande preocupação com o ajuste fiscal, equilibrar receita com
despesa. Agora devemos nos preocupar mais com a qualidade dos gastos. Entrar fortemente na gestão por resultados. E no resultado para o cidadão. Uma das coisas que o Serra determinou é
que a Secretaria de Gestão estivesse voltada para que a gente pudesse melhorar o serviço
prestado.

APJ- E neste processo está o servidor.

Beraldo
- Uma das coisas importantes é o pessoal. Somos responsáveis pela gestão de pessoas. Temos um programa que começou com um recadastramento, para atualizar os dados e tirar uma radiografia dos funcionários. Não só do ponto de vista funcional, mas do ponto de vista pessoal. Às vezes neste período de dez anos em que esse cadastro não era atualizado a pessoa se qualificou, estudou, fez cursos, fez pós-graduação...

APJ- Este recadastramento demorou quanto tempo?

Beraldo
- Estamos fazendo em tempo recorde, começamos em fevereiro, atendendo um decreto do Serra. Terminamos no dia 20 e já temos um relatório para apresentar ao governador.
Está praticamente pronto. Este trabalho é fundamental para medir a qualidade da força de trabalho no Estado de São Paulo. Em cima deste recadastramento estamos fazendo um plano de treinamento
e capacitação, através da Fundap. Estamos aperfeiçoando o que chamamos de 'Escola de Governo', priorizando o que realmente interessa para o Estado.

APJ - Já há algum ponto deste relatório que ficou claro?

Beraldo
- O que nós podemos antecipar é que 100% dos funcionários se recadastraram. Se teve um caso aqui e ali, foram problemas de código ou que o RH não atualizou. É coisa de três ou
quatro casos. Agora isso será corrigido. Isso significa que esta parte estava bastante eficaz.

APJ- Aquela preocupação que se chegou a ter, da existência de servidores 'fantasmas', foi definitivamente afastada?

Beraldo
- Foi afastada. Não verificamos nenhum caso disso. Porque nós fizemos o recadastramento inclusive das universidades. Agora é um banco de informações que é muito importante. A maior despesa que o Estado tem é com a folha de pagamento, 49% de tudo o que
se arrecada.

Agora vamos fazer uma adequação da força de trabalho para cada setor. Você vai verificar que há excesso em uma área e outra área em que há falta de profissionais. Não há preocupação de
demissões, porque a maioria é de servidores efetivos, mas a realocação será feita.

APJ- O projeto do Estado de centralizar as estruturas do Estado nas sedes de macrorregião tem causado polêmica no interior. Quais serão os prazos e como funcionará este novo modelo?

Beraldo
- Este projeto de criação do que chamamos de Escritórios Regionais Integrados de Governo é uma parte de todo esse processo de melhoria do serviço público, desburocratizar,
melhorar a qualidade do gasto. Hoje você tem uma estrutura de representação de secretarias que funciona nas sedes de regiões administrativas, muitos deles em sedes de regiões de governo, as
microrregiões. O projeto nosso tem por objetivo colocar algumas secretarias nestes escritórios de cidades-sede de regiões administrativas, num local só. Gerenciado pela Secretaria de
Planejamento.

APJ- Serão quantas sedes de escritórios regionais no Estado?

Beraldo
- São 14. Num primeiro momento, este espaço irá abrigar as secretarias do Trabalho, Desenvolvimento Social, Esporte e Turismo, Habitação, com a CDHU. E dependendo da região,
vamos agregar outros órgãos. Tem lugar que tem Itesp, DER, DAEE que também podem ser colocados no mesmo local. É importante destacar: secretarias de Educação, Saúde e Segurança continuam nas estruturas existentes. A Secretaria de Agricultura também, porque é outro critério.

O mesmo vale para a Secretaria de Meio Ambiente. Teremos esta agência que vai centralizar as estruturas de licenciamento, mas com uma sede em cada bacia. Temos 22 bacias. Aí a preocupação é com a questão ambiental, com a proteção dos mananciais, das bacias
hidrográficas.

APJ- Por que a adoção desta medida agora? Há economia para o Estado? E a funcionalidade deste arranjo?

Beraldo
- Gera economia, o Estado paga aluguel, você tem contratos com segurança, limpeza.

Cada secretaria, mesmo a pequena, exige toda uma estrutura administrativa. A idéia é juntar tudo, eliminar burocracia. Se pretende alcançar de 25% a 35% de economia destas tividades-meio. Isso sem nenhum prejuízo para o atendimento à população.

APJ- Mesmo com a desativação de unidades tradicionais em cidades menores?

Beraldo
- O trabalho desenvolvido por estas secretarias está muito voltado para os agentes políticos. São os prefeitos, os presidentes de entidades, associações, que se relacionam. Então,
você não vai ter um prejuízo para o atendimento à população. Ao contrário, você vai facilitar. Você vai reunir os agentes políticos ali. Vamos montar um padrão Poupatempo neste sistema. Vamos
mexer com processos, informatizar. A oferta dos serviços que o Estado presta será toda disponibilizada via Internet. Esses escritórios regionais vão fazer os convênios. Muitas vezes o prefeito tem que vir a São Paulo pra trazer documentação. Isso poderá ser feito lá.

APJ- Os escritórios terão mais autonomia, então...

Beraldo
- É. Por exemplo, hoje um problema sério que os prefeitos têm é a questão dos convênios. Para assinar um convênio, ele precisa trazer a documentação. Se ele assina com a
Saúde, tem que entregar documento e leva para Secretaria da Saúde, para Secretaria da Educação, leva para a Secretaria da Promoção. O que nós vamos fazer? Estamos criando um sistema único. Ele entrega os documentos em uma única secretaria e uma só vez. Esta secretaria, que deverá ser a de Planejamento ou de Gestão. Ela vai emitir uma certidão, um papel único. A
partir de então, o prefeito estará apto a assinar um convênio em qualquer secretaria.

APJ- Estes escritórios vão ter um gestor?

Beraldo
- A secretaria de Planejamento já tem o Erplan, que será o coordenador deste processo. Até porque a Secretaria do Planejamento é responsável por quase metade dos convênios assinados no Estado.

APJ- Em termos de tomada de decisão, haverá também autonomia?

Beraldo
- Na área de gestão, de administração, ele terá sua autonomia ampliada. Agora, na hora de decisão, de investimento, aí não. Depende mesmo do secretário, do governador.

APJ- Esta decisão de centralizar em algumas cidades maiores tem um forte viés político.

Quando você tira de um município de menor porte uma estrutura do Estado, cria-se um impacto
negativo. E o governador José Serra, em diversas regiões, é visto com um certo estigma' metropolitano', até por sua ligação com a capital, como ex-prefeito. O senhor não acredita que medidas como esta acabam por contribuir para um desgaste maior do governo Serra?

Beraldo
- Eu sou deputado, sou do interior e sei perfeitamente o que isto significa. Muitas vezes o prefeito, o deputado sabe que não tem nenhum peso político. A cidade não vai deixar de ser mais importante por ter uma representação do Estado. Mas a população cobra e o prefeito e os representantes de cada região defendem a manutenção disso. Mas nós que temos preocupados
com a gestão. E recuperar a capacidade de investimento, que isso que importa, e isso gera economia, gera agilidade. Nós estamos mudando. As empresas todas reduzem os níveis hierárquicos. Não tem uma empresa hoje que funcione com seis, sete níveis hierárquicos como o Estado tem. Por que? Porque é mais ágil, desburocratiza, dá mais transparência.
Não é a presença de um escritório que vai garantir investimento. Ao contrário.

APJ- Está tomando dinheiro...

Beraldo
- Está tomando dinheiro. Aliás, o que aconteceu nos últimos anos é que cresceu tanto o custeio, o tamanho da máquina, que não tem dinheiro para investir. O esforço que temos de fazer
agora é ter fôlego para investimento e garantir as políticas públicas. O governador Serra, nos seus seis primeiros meses, já demonstrou claramente que esta visão de ser metropolitano é equivocada.

Toda semana ele visita duas ou três regiões do Estado e anuncia investimentos. Esta semana anunciou investimentos em estradas vicinais. Na nossa área, por exemplo, determinou que se disseminasse o Poupatempo, determinou que dobre o número de pontos do Acessa São Paulo, que é um programa de inclusão digital. Levar infra-estrutura de banda larga para o interior. A gente sabe que isso é importante, porque antigamente se dizia que o desenvolvimento equivalia a
estradas, energia. Hoje é o acesso à internet, a infovia.

APJ- Quantos são os funcionários do Estado hoje? Qual a dimensão da máquina?

Beraldo
- Nós temos 552 mil na administração direta, 50 mil nas autarquias. Mas considerando
as fundações e empresas, chega a 750 mil. E tem mais os aposentados. Todos os funcionários do Estado somam 1,070 milhão, o que equivale aos 49% do orçamento que lhe falei. Além disso são
6% para o Judiciário, 2% para o Ministério Público, 3% para Assembléia Legislativa e Tribunal de Contas. Somando isso dá 60%, que está no limite.
APJ- Dentro desta análise do tamanho da máquina e das limitações orçamentárias que o senhor deixa claras, qual a perspectiva de reajuste para o servidor?

Beraldo
- Aumento linear para todos os funcionários nós não teremos. Vamos ter estudos carreira por carreira, sempre olhando para o mercado, se paga mais, paga menos. A orientação do
governador é privilegiar as áreas mais importantes, que são segurança, saúde, educação. E nós estamos estudando estas carreiras. Não só com correção salarial, mas corrigindo distorções. E a outra decisão é que teremos no Estado remuneração por resultado.

APJ- Como seria este escalonamento?

Beraldo
- Seriam salários variáveis que a gente pretende premiar as equipes. Não será individual. Será a equipe ou instituição que melhorar o desempenho. Estamos preparando uma lei, vamos encaminhar para a Assembléia.

APJ- Como será a avaliação de desempenho?

Beraldo
- Não é uma tarefa fácil. Isso não substitui todo o aumento. O aumento linear para todos é difícil. Até porque 1% de aumento linear significa R$ 300 milhões. E com isso eu contemplo as carreiras que mais precisam e implanto este modelo de remuneração por competência. E como será a avaliação? Nós estamos descartando avaliação individual, só de equipes e organização. Por exemplo: escola. Vamos avaliar a escola com ela mesmo. Com os indicadores que já dispomos. A idéia é aproveitar indicadores que já existem e têm história. Que você pode examinar o histórico e estabelecer metas. Não faremos uma comparação de uma escola
do centro com uma da periferia. A idéia não é esta. É você estipular metas, para melhorar em relação ao posicionamento que ela mesmo teve no último indicador. Se ela melhorou, ela será premiada.

APJ- E os prazos para implantar este sistema?

Beraldo
- Queremos que saia em 2008. O governador Serra nos encomendou um estudo, queremos encaminhar a ele o mais rápido possível. É claro que tem que passar pela Assembléia.

Mas a idéia é que em 2008 tenhamos algumas experiências, especialmente na Educação. E na área de pesquisa, de Ciência e Tecnologia.

APJ- Existe um grande fosso entre o serviço prestado pela iniciativa privada e o serviço público.

É possível neste mandato atingir metas para reduzir este abismo?

Beraldo
- Nós melhoramos nestes últimos dez anos. Houve uma melhora do Estado com várias políticas públicas que deram resultado. Mas por outro lado, em termos de qualidade e eficiência,
em função do excesso de burocracia, estamos longe do ideal. Precisamos assumir isso. Agora, todo o esforço que estamos fazendo é para que nestes próximos quatro anos a gente dê um salto
grande de qualidade. Principalmente no que tange à informatização. Eu acredito que dada a prioridade e os investimentos que serão feitos, nós teremos uma melhora significativa. Para chegarmos a padrões internacionais, teremos um tempo maior.

APJ- Esta política de recursos humanos parece da iniciativa privada, mas no setor público os entraves são maiores...

Beraldo
- Sim, por isso digo que os prazos são maiores. Os marcos regulatórios que temos, as leis que regulam as atividades do serviço público têm uma burocracia enorme. E sempre existe uma resistência da corporação às mudanças. E você tem que fazer as mudanças através do convencimento e não da imposição. Por isso, demora mais.


PSDB faz 'blindagem' em terceirizações

Sob pressão dos sindicatos e dos partidos de oposição, o governo do Estado vai manter o processo de terceirização de serviços públicos nas áreas de saúde e cultura.

A idéia da equipe de José Serra é criar, entretanto, uma espécie de 'blindagem' aos contratos firmados com OSs (Organizações Sociais) e ONGs (Organizações não-Governamentais.

"Esse processo de terceirização, que é bom, vai continuar. Mas, da mesma forma que nós temos um cadastro dos fornecedores, estabelecemos preços médios para se contratar e avaliamos estes parceiros. Aqueles que têm problemas jurídicos e também não cumpriram acordos com o Estado, saem do cadastro", diz o secretário de Gestão, Sidney Beraldo.

O presidente licenciado do diretório estadual do PSDB alfineta o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

"O governo federal tem contrato com diversas empresas que estão sob investigação, com corrupção. Nós trabalhamos muito para eliminar isso, vamos ter critérios, empresas que não cumpriram serão punidas", afirma o secretário de Serra.

Para ele, essa devassa nas parcerias garante mais credibilidade ao sistema.

"O modelo é bom, mas precisa ter o controle do Estado. Se não tiver, você corre o risco de desmoralizar uma alternativa boa para o Estado", declara Beraldo.

Servidor terá 24 mil casas financiadas

Com limitações orçamentárias que engessam a capacidade de concessão de reajustes salariais, a Secretaria de Gestão Pública planeja incrementar programas que gerem benefícios indiretos ao funcionalismo. Na linha frente, está a habitação.

Em parceria com a CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano), o governo pretente subsidiar 6.000 casas por ano para funcionários públicos com renda familiar inferior a R$ 3.800.

"É o Plano de Habitação Integrado. Focado para o funcionário público que não tem casa, é um financiamento da Nossa Caixa, com subsídio do Estado. Para os funcionários de baixa renda. O objetivo é privilegiar o funcionário perto do local de trabalho", disse o secretário Sidney Beraldo.

A contrapartida do Estado é de R$ 7.000 a R$ 10 mil em cada unidade construída.

"A nossa meta é chegar a 6.000 moradias por ano, 24 mil nos quatro anos. É uma prestação fixa, em 20 anos, com desconto em folha", diz.
As regiões contempladas na primeira etapa são as de São Paulo, Campinas, Baixada, Ribeirão Preto e Rio Preto. "Mas a idéia é ampliar para todo o interior. Vamos mapear pela demanda. É um volume grande."

Segundo o Estado, este programa nos quatro anos de mandato de José Serra terá condições de atender 50% dos funcionários incluídos nesta faixa de renda que não possuem habitação própria.

Perfil

Nome: Sidney Estanislau Beraldo

Idade: 56 anos

Naturalidade: São João da Boa Vista (SP)

Estado civil: Casado

Formação acadêmica: ciências biológicas e administração de empresas, com pós-graduação em gestão empresarial

Profissão: empresário do ramo têxtil

Carreira política: ex-vereador (77/82) e ex-prefeito de São João da Boa Vista (83/88), deputado estadual por três legislaturas (95/06), ex-presidente da Assembléia Legislativa e presidente licenciado do PSDB
Fábio Zambeli
Da Associação Paulista de Jornais