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APJ - Associação Paulista de Jornais
Edição: 13/12/2009
Entrevista: Dilma Rousseff

 

 

Entrevista - Dilma Rousseff
Ministra desafia PSDB a comparar gestões de FHC e Lula na eleição
A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, lançou um desafio à oposição: comparar com números e nomes os legados de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na corrida pelo Planalto em 2010, transformando a disputa presidencial em um verdadeiro plebiscito.

Em entrevista exclusiva à Associação Paulista de Jornais, concedida na última sexta-feira em seu gabinete no Centro Cultural Banco do Brasil, sede provisória do governo, Dilma pregou a comparação como ferramenta essencial para que o eleitor decida seu voto.

"O que eu acho absurdo é o seguinte: não querem comparar, por que? Não querem discutir projeto? Por que? O que nós vamos discutir nesta eleição se não for isso? O sexo dos anjos?", questionou.
APJ - No Estado de São Paulo, o PAC está mais circunscrito às regiões metropolitanas, ficando distantes das pequenas e médias cidades. Quando o programa chegará a estes rincões?
Dilma Rousseff - Hoje o PAC, de fato, tem uma concentração grande nas cidades metropolitanas. A primeira grande ação foi no caso de habitação e saneamento dar peso para cidades de mais de 100 mil habitantes. É aí que se concentra o voluma de população brasileira. Era por onde a gente ia começar. Na seqüência, fizemos o PAC para cidades com menos de 100 mil.

APJ - Nesta segunda etapa, os valores são diferentes?
Dilma - Os valores são menores. Como houve uma grande reivindicação de prefeitos, nós realocamos recursos para estas cidades menores. No caso de habitação, o Fundo Nacional de Habitação por Interesse Social só cuida de pequenas cidades. Demos um peso importante para as cidades menores. Porque o Finis aprova projeto até R$ 10 milhões. E foram R$ 4 bilhões.

APJ - As pessoas têm a percepção de que as obras são do PAC? Principalmente as feitas em parcerias com estatais e prefeituras?
Dilma - Eu acho que você tem razão, é um pouco difuso. Mas, progressivamente, acho que tem esta consciência. Até porque há uma praxe no Brasil de prefeito e governador pegar recurso federal e falar que a obra é só dele. Mas os prefeitos perceberam que a gente trata não porque é desse ou aquele partido. A gente trata o prefeito que tem ou não tem projeto.

Se o projeto dele faz sentido, não queremos saber qual a corrente partidária. Isso criou uma relação sistemática. A gente não faz um projeto. Fazemos PAC, Minha Casa, Minha Vida etc.

É complicado para o prefeito até porque o presidente tem participado, tem visitado, tem inaugurado, tem fiscalizado as obras. Há ainda uma parte grande que não sabe que a obra é do PAC, mas uma parte significativa que sabe.

APJ- E depende da relação com os prefeitos...
Dilma - Eu acho mais fácil a relação com os prefeitos do que a relação com os Estados.

Acho os prefeitos parceiros. Fica mais difícil em alguns momentos, quando o recurso é passado para as companhias de saneamento por exemplo haver esta percepção clara. Não porque as companhias estaduais queiram ocultar o investimento federal. Mas, sim, porque acabam se perdendo num todo como o investimento é muito grande. Eu vou dar o benefício da dúvida para elas.

APJ - Por que a relação é melhor com prefeitos que com governadores?
Dilma - Eu não acho a relação com os governadores ruins, ao contrário. Temos uma vantagem hoje, temos uma leva de governadores de alta qualidade de gestão e de seriedade política. Eles constituem um time de primeira. O problema é que os projetos dos governadores são caros, temos projetos de R$ 1 bilhão. Isso implica obras em que participamos de um pedaço, então o desafio é três vezes maior. A complexidade de obras e projetos torna mais difícil a relação. Tenho até de reconhecer que fizemos ótimas atividades com o pessoal da CDHU, em São Paulo.

O fato é que de Oiapoque ao Chuí e de Leste a Oeste, o investimento nosso é muito grande.

Agora, você não pode se furtar ao fato de o Estado de São Paulo abrigar uma parte expressiva da população e merece, portanto, uma atenção proporcional. Você não pode achar que um Estado mais rico não tenha desigualdade.

APJ- A interlocução com o governo de São Paulo, mesmo com as divergências partidárias, tem sido satisfatória?
Dilma - Muito satisfatória. É feita num padrão de relacionamento de alto nível, com os problemas de qualquer relação com qualquer outro governo. Nós sempre queremos que seja mais rápido. Para prefeituras e Estado. São Paulo tem padrões de gestão de qualidade.

APJ - E quando o governador e sua equipe afirmam que o PAC é mais uma sigla, uma peça de marketing...
Dilma - Eu até me surpreendo que ele faça isso, pois ele está desconstruindo um nível de investimento considerável no Estado de São Paulo. Só em saneamento e habitação, estamos investindo R$ 11 bilhões. Como que é uma sigla? Ele abre mão dos R$ 11 bilhões? Ao contrário, o que tem pedido é para expandir os recursos.

APJ - Como a senhora avaliou o resultado do PIB do trimestre, de 1,3%, patamar inferior ao projetado pelo governo. Ainda será possível atingir os 5% de crescimento esperados pela equipe econômica para 2010?
Dilma - Eu tenho certeza que vamos conseguir uma proximidade muito grande dos 5%. O resultado do PIB reflete esta recuperação, que está em curso. E que aumentou agora. Esta recuperação teve um grau de aceleração em outubro, novembro, dezembro. Tivemos uma reunião muito boa do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Acho que estamos numa fase muito boa. No ano passado, tomamos as medidas anticíclicas, defendemos o país da crise. Agora, mudamos de etapa. É a percepção de que vamos entrar num novo ciclo de desenvolvimento sustentado da economia.

APJ - A agenda econômica vai ser preponderante na disputa eleitoral de 2010?
Dilma - Eu sou a favor do assessor do Clinton, que dizia: 'é a economia, estúpido'. Aqui a gente pode tirar o estúpido, porque soa deselegante, mas para eles, não. É a economia, pessoal.

APJ - E é positivo para a sua candidatura que esta seja a discussão posta?
Dilma - Acho positivo para o Brasil. Fazer uma disputa eleitoral quando o governo que tenho a honra de participar e coordenar os ministérios tem 73% de aprovação. Nós não temos esta aprovação por causa dos nossos belos olhos. Nós fizemos um esforço danado, apresentamos serviço. Mudamos uma porção de coisas. A coisa mais importante, que dá mais orgulho, é quando você vê que mudou a vida das pessoas. Elas comem melhor, têm acesso à educação, tem muita coisa por fazer ainda. Não podemos ficar soberbos e nem cantando em prosa e verso o que a gente fez. Tem mais coisa para fazer. A cada coisa que você faz, você muda seu padrão de exigência. Se antes era importantíssimo fazer seu programa de um milhão de casas, quando você sabe que já há 590 mil contratos na Caixa Econômica para serem analisados... Quando a gente imaginou que ia conseguir isso? Você vai querer fazer mais do que você está fazendo...

APJ - Será uma disputa plebiscitária?
Dilma - Vai ter uma disputa plebiscitária, não porque a gente queira. Vou te perguntar o seguinte: entramos numa disputa, o que está em jogo? Como é que fica isso? Em quem você acredita? Em quem fez e fala: eu fiz e está aqui. Esse é o meu. Qual é o seu? Porque, caso contrário, o que nós vamos discutir? É fantástico não ter confronto de projeto, porque o outro lado tem de dizer: eu fiz e está aqui. Agora, eu fiz aonde? Eu fiz no governo federal. Quem é que fez no governo federal? Eles [oposição] fizeram no governo federal. Onde está o deles?

Por que esconder o deles? O estranho é que neguem que tenha confronto de projeto. A primeira pergunta de qualquer pessoa, até em eleição para síndico, é saber o que ele apresenta...

APJ - Falta projeto à oposição, na sua ótica?
Dilma - O projeto deles eu acho que eles têm. É o projeto de FHC. São os oito anos do governo FHC. Quando eu digo que falta projeto, tem implícita uma avaliação de valor, que é a qualidade do governo FHC. Você entra naquela discussão maluca. Dizem que o Bolsa-Família é continuidade do governo FHC. Ah é? Então me mostra quanto investiram nos programas sociais... Apresenta os números. Como é que é continuidade?

APJ - O mesmo é dito da política econômica.
Dilma - Ah, é igual? Então, onde é que estão as reservas? Temos US$ 236 bilhões.

Vocês tinham quanto? Quais são os resultados? Em saneamento, sabe quanto eles investiram em 2002? R$ 264 milhões. Este valor hoje a gente investe em uma cidade.

APJ - Diante do quadro de comparações...
Dilma - O que eu acho absurdo é o seguinte: não querem comparar, por que? Não querem discutir projeto? Por que? O que nós vamos discutir nesta eleição se não for isso? O sexo dos anjos?

vp- E a senhora acredita que será uma disputa tensa, complicada...
Dilma - Claro, ninguém ganha eleição de véspera. Nem nós, nem eles. A primeira coisa que você tem numa eleição é respeitar o povo e respeitar que quem decide é ele. Ninguém decide por ele e ninguém decide antes dele. E esta é uma satisfação que temos que dar a ele. Não podemos chegar na eleição e dizer: 'o meu recall basta'. Não tem isso.

APJ - Esta será uma eleição mais racional que emocional?
Dilma - O eleitor age com a razão e com emoção. Age dos dois jeitos. Nós temos já mais de 20 anos de democracia. Você lembra como tinha algumas coisas de surpresa na eleição?

A pesquisa era uma coisa na véspera, no dia mudava totalmente... Acho que várias coisas foram superadas no Brasil, aquelas armadilhas...

APJ - A senhora confia nas pesquisas eleitorais feitas no atual momento?
Dilma - Acho que ninguém deixa de considerar as pesquisas, do jeito que elas são.

Pesquisa, só. É uma confiança, um indicador. Antes, o que se tentava passar para a população? De que a pesquisa era o que ia acontecer, era uma espécie de adivinhação do que ia ser. Ninguém hoje, do brasileiro mais humilde ao mais letrado, ninguém cai nesta. É um retrato do momento.

APJ - Mas neste retrato, sua rejeição é alta.
Dilma - Se você me explicar por que em uma pesquisa dá um índice e em outra dá outro, eu te respondo. Em uma dá 40% e em outra dá 20%. É um erro fora de qualquer margem.

Em termos de estatística. Não tenho idéia.

APJ - Teria relação com o esconhecimento?
Dilma - Sem dúvida, uma parte é desconhecimento.

APJ - Com qual calendário a senhora está trabalhando?
Dilma - Se eu achar um espacinho assim para respirar... O partido vai tirar e indicar. Você não pode ser candidato de você mesmo. Não sou nem pré-candidata. Para isso, eu preciso passar pelo congresso do partido, que ocorre em fevereiro. Aí você começa o processo de construir a candidatura. Aí o prazo de saída do governo é final de março. Depois, tem a convenção em junho. Agora, acho que a legitimidade política se dá em fevereiro, com o congresso.

APJ - E a senhora se sente confortável em permanecer no cargo até o limite da desincompatibilização?
Dilma - Olha, nós ainda não discutimos isso não. Por um simples motivo: não dá tempo e não está na pauta. Sabe, é que não funciona igual as pessoas pensam. Nós ainda não discutimos como é que vai ser.

APJ - A convicção é de que a senhora vai enfrentar o governador José Serra?
Dilma - Eu não posso dizer isso, pois não posso decidir pelo próximo, pelo outro partido.

Não sei quem eles vão escolher.

APJ - E tem algum candidato de preferência da senhora?
Dilma - A gente não tem que escolher, tem preferência quando a gente apoia.

APJ - Mas concorda com o presidente Lula no sentido de que sendo ou a senhora ou o Serra, o país estaria em boas mãos?
Dilma - Eu acho que hoje no Brasil é muito difícil o país não estar em boas mãos. Até porque o nosso povo sabe muito e ganhou muito neste tempo. E não vai querer perder não.

Acho que vai comer um tranco quem tentar tirar da população as suas conquistas.

APJ - Os mensalões igualam os partidos no quesito ética ou falta de ética?
Dilma - Não concordo com isso, não. Eu acho que tem uma tentativa estranha de transformar tudo em igual. Isso não é verdade. Primeiro é desigual a forma pela qual se condena as pessoas. Eu acho que não pode condenar sem provas. E muitas pessoas foram condenadas sem prova nenhuma. Eu acredito que o trato da questão da corrupção tem que ser drástico. Concordo e fiquei muito feliz quando o presidente enviou o projeto que transforma a corrupção em crime hediondo. E nos dois lados: o corrupto e o corruptor.

Porque também tem outra coisa estranhíssima no Brasil. Só aparece um lado, sendo que é uma moeda de dois lados. Só ocorre se tiver os dois participando.

Foi usado durante muito tempo como instrumento político. CPIs, investigações, destruições
de histórias pessoais... Eu acho que isso não leva a nada em matéria de combate à corrupção e de melhoria da ética. O que leva a alguma coisa é lei concreta como a que o presidente enviou ao Congresso. E a reforma política. Nós precisamos tirar as razões pelas quais o financiamento de campanha provoca práticas de corrupção e, ao mesmo tempo, tem outro efeito nefasto. Não torna as condições e oportunidades de disputa iguais. Isso tem demudar no Brasil.

APJ - Há distinções entre os casos?
Dilma - Você conhece algum processo de crime que possa ser igual?

APJ - O modo de operação é similar.
Dilma - O modo de operação é o financiamento de campanha, é isso que você está dizendo que é igual? Qual a igualdade entre eles? O que acho que não está certo é transformar uma questão em questão a ser resolvida no plano político. Ela tem de ser resolvida no campo criminal. É crime. Não é um problema político. Tem que mudar a regra política. Você tem que dar uma contribuição no positivo. O que? Você tem de eliminar a tentação. A maior tentação. Então, também uma reforma política. E por isso nós mandamos para o Congresso o financiamento público das campanhas.
Fábio Zambeli
Da Associação Paulista de Jornais
 
 
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