Edição: 08/11/2009
Entrevista: Francisco Graziano Neto

 

 

Entrevista - Francisco Graziano Neto
Estado antecipa agenda da ‘economia verde’
Controlar a emissão de gases que contribuem para o efeito-estufa sem prejuízo à atividade econômica e estimular práticas sustentáveis de transportes público e geração de energia ‘limpa’.

São esses os principais desafios da recém-aprovada Política Estadual de Mudanças Climáticas, arsenal de medidas que o governo de José Serra (PSDB) pretende lançar mão a fim de levar a chamada ‘agenda verde’ a todos os rincões do Estado de São Paulo.
Algumas das metas são ousadas: cortar em 20% o lançamento de dióxido de carbono na atmosfera até 2020 e diversificar os eixos de mobilidade urbana, estabelecendo prêmios aos municípios que ampliarem, por exemplo, o número de ciclovias.

A lei será sancionada amanhã pelo governador no Palácio dos Bandeirantes e foi delineada pela equipe do secretário estadual de Meio Ambiente, Francisco Graziano Neto, o Xico Graziano.

Em entrevista exclusiva à Associação Paulista de Jornais, Graziano diz que é possível conciliar o desenvolvimento, inclusive do setor industrial, com práticas ambientais de vanguarda. Trata-se, nas palavras de Graziano, da ‘economia verde’.

“Vamos estimular novas atividades produtivas que vão fazer parte da nova economia mundial, a chamada ‘economia verde’. Essa é a nossa aposta. Que em dez anos, o Estado abra uma nova agenda, que já está acontecendo. Novas tecnologias e novos setores produtivos trabalhando na agenda da economia descarbonificada”, diz ele, referindo-se ao CO2, responsável pelo aquecimento global.

Graziano critica de forma contundente a política ambiental do governo federal, que, segundo ele, procura opor agronegócio e ambientalistas, impedindo a redução planejada do desmatamento.
“Os ministros de Agricultura e do Meio Ambiente, em vez de trabalhar conjuntamente, batem boca. Batem boca em público. O Lula viaja, não decide nada. E a chefe da Casa Civil agora também só acompanha ele. No Congresso, a confusão é notória. Aqui em São Paulo, se os secretários de Meio Ambiente e de Agricultura discutissem, no dia seguinte ambos estariam demitidos. Falta comando nesta agenda.”
Para o secretário, a indicação da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) para chefiar a delegação do país na COP-15, a Conferência do Clima em Copenhague (Dinamarca), marcada para dezembro, é ‘surpreendente’ e carece de sustentação técnica.

“Ela nestes anos todos no governou atuou contra o ambientalismo. Foi forte defensora das usinas termelétricas. Nas obras do PAC, o governo sistematicamente tem feito gestões para amenizar e até dispensar o licenciamento ambiental, o que é inconcebível. Então, ela não tem história e nem familiaridade”, afirma.
Associação Paulista de Jornais- Como é possível adotar metas tão ousadas na redução da emissão de gases em São Paulo sem que haja prejuízo à atividade econômica no Estado?
Francisco Graziano Neto- Estimulando as novas atividades produtivas que vão fazer parte da nova economia mundial, a chamada ‘economia verde’. Essa é a nossa aposta. Que em dez anos, o Estado abra uma nova agenda, que já está acontecendo. Novas tecnologias e novos setores produtivos trabalhando na agenda da economia descarbonificada, incluindo energia renovável, etanol, bioeletricidade, energia eólica.

APJ- Há um diagnóstico confiável e setorizado das emissões de gases que causam o efeito-estufa?
Graziano- Nos preocupamos com isso. A partir do inventário das emissões, teremos como ver setor a setor da economia paulista como está na agenda e é possível enfrentar esta questão, sem dúvida nenhuma. Sem medo nenhum.

APJ- Houve pressão da indústria para flexibilizar esta meta? Como o Estado reagiu?
Graziano- Houve sim, os setores industriais mais conservadores. Ou as lideranças mais conservadoras ainda entendem a questão ambiental como uma ameaça ao crescimento econômico. É porque eles ainda raciocinam na forma do mesmo crescimento. Do mesmo padrão de economia. Se você muda o padrão de economia, se você muda o paradigma de pensamento, você vê diferente. Mas pressionaram. Alguns setores temem mais, outros acham que é possível.

APJ- Quais setores estão mais atentos e preparados?
Graziano- O setor de transportes, por exemplo. Muitas oportunidades já estão sendo criadas. Novas oportunidades. Então, você vê uma competição de setores tradicionais com setores novos e inovadores, que estão vendo na crise ambiental novas oportunidades.

APJ- O setor de transportes foi apontado no projeto que instituiu a política estadual de mudanças climáticas como um dos gargalos. Quando as cidades do interior, especialmente as médias e grandes, vão entrar nesta agenda do transporte sustentável?
Graziano – Todos hoje acompanham muito mais esta agenda. Há uma certa mobilização junto aos administradores municipais. No meu projeto chamado ‘Município Verde e Azul’, vou premiar as prefeituras que apresentarem os melhores projetos de ciclovias ou de transporte alternativo. Já estamos induzindo isso. Por exemplo: Sorocaba implantou quilômetros e quilômetros de ciclovias no município todo. Pode ser vencedor deste ‘concurso’ que estamos fazendo na linha do transporte alternativo. E o governo do Estado já está investindo muito em transporte coletivo. O investimento em metrô e metrô de superfície é a maior agenda hoje nesta área.

APJ- O Estado vai investir mais neste segmento? Faltam recursos às prefeituras para grandes projetos...
Graziano- Quando apresentarmos daqui a um ano a política para transporte sustentável, o Estado vai sinalizar mais fortemente ainda a necessidade do transporte coletivo. Não só nas cidades, mas no fluxo de cargas. Significa hidrovias, significa tirar gargalos de ferrovias, integrar modais de transporte. É por aí que vai a agenda da próxima década.

APJ- A implantação de rodízios de veículos e pedágios urbanos no interior é irreversível?
Graziano- Só podemos pensar nestas formas de controle, nesta política de restrição de mobilidade quando avançarmos bem no transporte coletivo nas cidades. Não dá para colocar a carroça na frente do burro. Primeiro, os governos, e isso vale para grandes municípios, precisam melhorar seus sistemas de transporte coletivo. E, se for necessário, mais para a frente pensar em restrição à mobilidade. Se não, não funciona. Isso está no horizonte das políticas sustentáveis, mas o ‘timing’ é outro.

APJ- O senhor considera a ministra Dilma [Rousseff, Casa Civil] a figura adequada para representar o Brasil na Conferência de Copenhague?
Graziano- Todos os ambientalistas se surpreenderam muito com a indicação da ministra Dilma, pois ela nestes anos todos no governou atuou contra o ambientalismo. Ela foi forte defensora das usinas termelétricas. Nas obras do PAC, o governo sistematicamente tem feito gestões para amenizar e até dispensar o licenciamento ambiental, o que é inconcebível. Então, ela não tem história e nem familiaridade. Não vou dizer que ela é contra, porque hoje em dia ninguém tem coragem de dizer que é contra a agenda ambiental. Mas é surpreendente. Mostra a falta de sensibilidade do governo Lula com a questão ambiental. Isso está sendo levado da maneira mais conservadora possível. O governo Lula é conservador na política ambiental.

APJ- Sua trajetória é ligada ao agronegócio e agora o senhor é gestor público na pasta do Meio Ambiente. Como conciliar interesses, muitas vezes conflitantes, entre os dois segmentos?
Graziano- Eu não tenho dúvida que as agendas são conciliáveis. A agricultura com o meio ambiente. Mas é um desafio. Até porque a falta de definição do governo federal deixou este assunto ficar muito atritado. Hoje há uma polêmica forte entre ruralistas e ambientalistas, o que é uma insanidade. Atuo há anos para fazer esta mediação. O fato de ter sido secretário de Agricultura me ajuda nisso. A minha formação profissional, de engenheiro agrônomo. Tenho um desafio de vida: trabalhar para esta conciliação. É possível, mas tem que fazer na prática. Em teoria, dá.

APJ- E, na prática, o que precisa ser feito? O desmate é a maior preocupação?
Graziano- Na prática, significa fazer um pacto contra o desmatamento no país. Proponho uma moratória de cinco anos, prazo suficiente para que este assunto seja melhor discutido, melhor acomodado. Para depois você ocupar, depois, espaços de territórios que podem ser ocupados, mas de uma forma regulada, planejada. E não da forma como se tem feito na Amazônia. E nas áreas mais tradicionais da agricultura, temos que recuperar. Recuperar beirada de brejo, beirada de rio, as matas ciliares. A agenda é essa. Se só fizer isso na agricultura dos Estados que produzem mais, o ganho ambiental é enorme. Pois você recupera a biodiversidade e protege as águas.

APJ- O senhor considera possível a conciliação destes interesses, então? Há exemplos?
Graziano- Não tenho dúvida, até porque em outras questões isso já acontece. Por exemplo, na conservação do solo, o plantio direto já é uma agricultura sustentável. Já é uma prova onde você produz com níveis de produtividade melhores e promove o combate à erosão e garante a conservação do solo. Porque conservar solo também é questão ambiental. É uma prova de que é possível fazer boa agricultura, agricultura sustentável. Na questão dos agrotóxicos, podemos ainda avançar. Na utilização de controle integrado de pragas, com mais controle biológico. Essa é a agenda da agricultura sustentável. Dá para fazer, tem provas.

APJ- Na sua opinião, falta um grande mediador nacional, um ponto de convergência?
Graziano- Claramente. Nós não temos com quem conversar. Os ministros de Agricultura e do Meio Ambiente, em vez de trabalhar conjuntamente, batem boca. Batem boca em público. O Lula viaja, não decide nada. E a chefe da Casa Civil agora também só acompanha ele. No Congresso, a confusão é notória. Aqui em São Paulo, se os secretários de Meio Ambiente e de Agricultura discutissem, no dia seguinte ambos estariam demitidos. Falta comando nesta agenda. Falta querer resolver. Quem é governo precisa resolver conflitos, propor soluções. Por isso que a agenda está enroscada.

APJ- O senhor tem mantido uma postura rigorosa quanto aos aterros sanitárias irregulares no Estado...
Graziano- Eu diria até intolerante.

APJ- Quais as metas? O Estado ficará sem nenhum lixão até o final de 2010?
Graziano- Ainda vou divulgar os dados finais. Quando assumimos o governo, funcionavam em São Paulo 143 lixões. E eu disse ao Serra que ia acabar com todos eles até o final do governo. E, depois, com a intolerância que eu imprimi junto com a equipe da Cetesb e ajuda que demos aos municípios com compra de equipamentos, eu disse ao Serra que ia acabar com os lixões em 2009. E vou cumprir. Hoje, estamos com nove municípios em processo de interdição. Já interditamos 13 e os outros estão adequados. No final deste ano teremos acabado com estas fábricas de urubus, esta coisa vergonhosa. Não é só problema ambiental, é uma questão de vergonha pública, para não falar de saúde pública. São Paulo merece um aspecto melhor na disposição de seus resíduos.

APJ- E como lidar com as pressões políticas para a liberação?
Graziano- Deu certo. Tive que enfrentar resistência, dar umas peitadas políticas por aí afora. Mas o governador me deu sustentação, bancamos o intolerante e deu resultado. Porque político gosta de empurrar com a barriga estes problemas. Querem prazo, mais um ano e vai levando, vai levando. Agora acabou. O poder público, quanto toma decisão e implementa, começa a haver uma resposta. Os municípios começaram a fazer. Descobriram que tinham que fazer, pois, caso contrário, perderiam acesso a outros recursos do governo. De forma que eu diria que é um bom resultado de uma ação decidida. É a vontade política. Quando você quer fazer, você resolve.
Fábio Zambeli
Da Associação Paulista de Jornais