Edição: 05/08/2009
Entrevista: Luciano Coutinho

 

 

Entrevista - Luciano Coutinho
BNDES amplia crédito para o 'pós-crise'
Na esteira das previsões de retomada do crescimento da economia, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) reduziu as taxas de juros a patamares próximos de zero para financiar a ampliação da capacidade produtiva da indústria e os investimentos em infraestrutura e inovação.
O objetivo é fazer frente ao provável aumento da demanda por produtos e serviços e conter a pressão inflacionária no segundo semestre deste ano e em 2010, tranquilizando os mercados.
É o que revela o presidente do banco, Luciano Coutinho, em entrevista exclusiva à Associação Paulista de Jornais (APJ).
Para o economista, guindado ao comando de uma das vitrines do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o cenário macroeconômico exige ousadia na concessão de recursos para longo e curto prazos.
"O grande esforço do aumento do crédito que impediu que a economia brasileira tivesse entrado numa recessão viciosa se deveu aos bancos públicos brasileiros. E o BNDES se orgulha de ter sido um dos esteios desta atuação, respondendo por um terço deste esforço de sustentação do crédito", disse.
As linhas ofertadas pelo principal banco público de fomento do país são operadas a índices de 3,5% a 4,5% ao ano, o que, descontada a inflação do período (próxima de 4%), leva o crédito ao 'juro real zero', na matemática do governo.
"É fundamental para criar capacidade de oferta de bens e serviços, antecipadamente, de tal maneira que quando a demanda crescer, a oferta já cresceu, e com isso, o risco de criar gargalos de inflação seja controlado", acrescentou.
Após injetar R$ 25 bilhões na Petrobras, ele admite as dificuldades para que o banco contemple as pequenas e médias empresas, embora credite ao segmento uma crescente participação nos desembolsos --hoje, 24% do montante liberado.
"O BNDES tem uma certa dificuldade de chegar às pequenas empresas, mas o cartão tem estimulado. Temos hoje uma presença das micro, pequenas e médias empresas no orçamento do BNDES. Hoje, representam 23%, 24% do orçamento total, o que é muito relevante."
Coutinho promete socorrer setores da cadeia produtiva combalidos pela escassez de crédito internacional, notadamente as empresas exportadoras. A fórmula prevê a integração dos polos fabris paulistas com os parques tecnológicos em fase de estruturação. O próximo pacote de ajuda deverá financiar o segmento de autopeças, com amparo do fundo garantidor, que dará aval à busca de recursos.
"O mercado interno está recuperando, mas a exportação não vai se recuperar. Como fazer para evitar que nossas autopeças pereçam ou se debilitem, como está acontecendo nos Estados Unidos. Das dez grandes autopeças americanas, nove estão em processo de falência. Não podemos permitir que isso aconteça aqui no Brasil."
Para o dirigente do banco, a instituição cumpre seu papel no fomento ao agronegócio ao facilitar a modernização do maquinário e apoiar a recomposição de segmentos como o sucroalcooleiro, de olho no etanol.
"Temos uma interlocução muito frequente com o setor e estamos trabalhando para que o setor atinja uma trajetória pujante de investimentos, porque o etanol é uma grande possibilidade para o futuro e precisamos criar capacidade para ofertá-lo na escala necessária."
Associação Paulista de Jornais - Como o BNDES tem atuado no sentido de inibir os efeitos da crise econômica no setor produtivo?
Luciano Coutinho - O BNDES tem atuado de maneira muito incisiva desde o início da crise, em setembro de 2008, com a quebra do Lehmann Brothers. Em várias frentes. Uma primeira, importante, foi buscar acelerar os investimentos em infraestrutura especialmente em energia, saneamento, logística, transportes. Os desembolsos do banco nestes setores aumentaram significativamente nos últimos meses. Desde o último trimestre do ano passado e no primeiro semestre deste ano.

APJ - Este esforço inclui a Petrobras.
Coutinho - Outra área importante que o banco teve uma atuação muito grande anticíclica foi a área de petróleo e gás. Estamos apoiando o processo de investimentos da Petrobras. Asseguramos um financiamento de longo prazo à Petrobras, que deu tranquilidade à Petrobras. Deu condições à Petrobras para acelerar seu programa de investimentos.

APJ- E o crédito para exportação?
Coutinho - Além disso, o BNDES promoveu uma série de ações para mitigar os efeitos da crise às empresas que haviam sido afetadas por perdas cambiais. Atuamos em conjunto com os bancos privados, induzindo-os a refinanciar os débitos destas empresas e, em seguida, ajudar a reestruturação destas empresas, muitas delas competitivas e importantes para a economia do país e que não poderiam quebrar sem graves prejuízos para a sociedade brasileira.

APJ - A ação do banco chegou às pequenas empresas?
Coutinho - O banco se engajou em buscar mitigar os efeitos da crise sobre as pequenas empresas. Uma ação mais rápida do banco se deu por meio do cartão BNDES, cujos limites foram ampliados de R$ 250 mil para R$ 500 mil. Os prazos foram ampliados, a taxa de juros foi reduzida. Desta forma, os desembolsos do cartão BNDES têm subido mais de 200%. O que tem beneficiado mais de 200 mil pequenas empresas nos últimos meses.

APJ - O que falta para o BNDES atingir de forma objetiva e rápida o micro e o pequeno empresário?
Coutinho - O BNDES tem uma certa dificuldade de chegar às pequenas empresas, mas o cartão tem estimulado. E mostra que o BNDES, através de produtos inovadores, consegue chegar às pequenas. Temos hoje uma presença das micro, pequenas e médias empresas no orçamento do BNDES. Hoje, representam 23%, 24% do orçamento total do BNDES, o que é muito relevante.

APJ - O senhor diria que a necessidade de projetos mais qualificados seria o principal entrave?
Coutinho - No caso do cartão, o crédito é aberto automaticamente. O que existe é uma lista de fornecedores que permite à empresa utilizar o cartão como capital de giro para comprar insumos, para comprar máquinas e equipamentos. Agora, tem outro papel importante, que é a Linha Finame, que dá a possibilidade de financiar máquinas, equipamentos, ônibus, caminhões. Está acessível a qualquer pequeno empresário. Neste caso, não existe um processo demorado. É um ato comercial de compra que é liquidado e transacionado num prazo muito curto.
É claro que um projeto de investimento que pressupõe uma unidade fabril nova, num terreno novo, vai exigir uma avaliação da capacidade de pagamento, da consistência do projeto. E isso, naturalmente, leva algum tempo. Dependendo, porém, da modalidade, não é verdadeira a afirmação de que é demorado o processo no BNDES. Temos trabalhado com muito afinco para reduzir o prazo médio de aprovação dos projetos que são diretamente apoiados pelo BNDES. Este prazo hoje é de seis meses, em média. Estamos trabalhando intensamente um projeto de mudança da plataforma de informática do banco que irá reduzir ainda mais.

APJ - O banco tem cumprido seu papel de financiar a produção diante de um cenário de escassez de crédito no sistema privado?
Coutinho - O BNDES buscou oferecer, desde a crise, linhas de capital de giro, coisa que não fazia, pois não era parte de sua missão. Nossa linha tem sido bastante acionada, está crescendo fortemente. O BNDES, junto com os dois grandes bancos públicos brasileiros: o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, substituíram grande parte do crédito privado desde a crise. Se tomarmos o crédito antes da crise como igual a 100, hoje os bancos públicos estão em 122. Ou seja, aumentaram em 22% a oferta de crédito. E os bancos privados aumentaram de 100 para 103, portanto, o grande esforço do aumento do crédito que impediu que a economia brasileira tivesse entrado numa recessão viciosa se deveu aos bancos públicos brasileiros. E o BNDES se orgulha de ter sido um dos esteios desta atuação, respondendo por um terço deste esforço de sustentação do crédito.

APJ - A intervenção do Estado tem sido decisiva, mas quando haverá a descompressão? Ou seja, quando o setor privado recuperará seu lugar como financiador da produção?
Coutinho - Temos a esperança de que o setor privado se torne mais propenso a financiar. E de uma maneira mais cautelosa, com spreads mais baixos, o sistema empresarial brasileiro. Porque ele está deixando de cumprir um papel importante. Nós temos a expectativa de que isso se inverta. Porque a economia já cruzou a linha crítica. O mercado de trabalho foi mantido, a massa de salários não caiu. O emprego já voltou a crescer. Não existe, salvo a China, uma economia onde o emprego formal está crescendo e o Brasil já voltou a criar empregos. A taxa de desemprego está caindo. O mercado interno está se expandindo.

APJ - Quais indicadores sustentam esta avaliação?
Coutinho - No primeiro semestre deste ano, por exemplo, a venda de automóveis ter recuperado e crescido um pouco em relação ao ano anterior. Poucos países têm demonstrado esta capacidade de resistência à crise. E o Brasil já mostrou. Quero louvar o papel muito firme desempenhado pelo ministro da Fazenda [Guido Mantega], que não se acovardou diante da crise. Ofereceu incentivos de redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), mesmo com a receita tributária caindo. O ministério reduziu tributos, adiou tributos e permitiu estimular o consumidor de eletrodoméstico, eletroeletrônicos, automóveis e outros produtos. A economia está recuperando o crescimento do consumo e é chegada a hora de acelerar os incentivos para o investimento. E isso foi objeto de um novo conjunto de medidas anunciado recentemente.

APJ - Quanto à taxa de juros, é possível crer na manutenção dela em um dígito no cenário pós-crise?
Coutinho - Sua pergunta é boa. Me permite fazer um registro positivo quanto à atuação do Banco Central, que foi também corajoso e reduziu as taxas de juros. A taxa Selic está em 8,75%, a mais baixa dos últimos 20 anos, muito favorável. Temos toda a tranqüilidade em imaginar que a taxa real de juros no Brasil pode encontrar um patamar muito mais baixo do que o do passado recente. No passado recente, o juro real brasileiro sempre esteve acima de 8, 9 ou 10%. Agora, estamos em torno de 4,5%. É possível? É possível estabilizar o juro num patamar real mais baixo, em torno do que se encontra hoje. Para isso, é preciso que a retomada do crescimento no segundo semestre de 2009 e em 2010, 2011, seja acompanhada da recuperação dos investimentos. É fundamental para criar capacidade de oferta de bens e serviços, antecipadamente, de tal maneira que quando a demanda crescer, a oferta já cresceu, e com isso, o risco de criar gargalos de inflação seja controlado.

APJ - A pressão inflacionária é a preocupação do mercado.
Coutinho - Há um certo exagero dos mercados com relação aos riscos futuros de inflação. O mercado está temeroso e o mercado de juros de longo prazo está mais alto do que deveria estar, considerando todas as condições favoráveis que a economia brasileira tem. E por isso mesmo é que a equipe do governo decidiu que neste segundo semestre de 2009 é o momento fundamental para acelerar decisões de investimento. E por esta razão, o BNDES está oferecendo taxas de juros excepcionalmente baixas para toda a venda de máquinas e equipamentos em todo o território nacional. Projetos de aumento de capacidade produtiva também estão sendo financiados em uma taxa de juros real igual a zero. Estamos financiando a 4,5% o juro para investimento neste segundo semestre.
Além disso, o juro para inovação é de apenas 3,5% ao ano. Com a inflação de 4, 4,5%, é um juro negativo. É uma demonstração do empenho do governo para estimular o investimento. Também para caminhões e ônibus as taxas foram reduzidas, taxa final de 7%. E quero sublinhar que no caso do programa do caminhão para o caminhoneiro individual, a taxa do programa Pró-Caminhoneiro é de 4,5% ao ano. As taxas de seguro foram reduzidas porque haverá a possibilidade de se utilizar um fundo garantidor do BNDES. Todas estas medidas visam acelerar a disposição ao investimento e tenho certeza que, como existe a perspectiva de que o crescimento é sólido, vai se sustentar, vai crescer a economia no mínimo 4%, provavelmente mais.

APJ- Como tem sido o diálogo do BNDES com setores da cadeia produtiva nas vocações regionais, nos polos produtivos regionais do Estado?
Coutinho - Temos tido um diálogo freqüente e permanente com as cadeias produtivas. Primeiro quero dizer que este conjunto de medidas traz um benefício grande para o Estado de São Paulo, que é o principal Estado manufatureiro brasileiro e é a principal base de serviços sofisticados do Brasil. Por exemplo, uma obra de infraestrutura é numa região remota, mas a produção dos equipamentos é feita em São Paulo. Toda esta política anticíclica é muito benéfica para o Estado de São Paulo.
Mas, além disso, o Estado é um exportador importante. E as cadeias exportadoras estão sofrendo muito mais. O crescimento brasileiro está sendo sustentado pelo nosso mercado interno, felizmente. Mas a exportação está prejudicada pela crise das grandes economias, especialmente a norte-americana e a europeia, que é uma crise longa, difícil. Portanto, as perspectivas da exportação não são tão positivas assim. Como temos cadeias exportadoras importantes temos que zelar por elas para que não se desestruturem.

APJ - Pelo que o senhor diz, pode-se entender que o apoio à pesquisa será uma das apostas...
Coutinho - Investimento em pesquisa, a montagem de um Parque Tecnológico como o que estamos apoiando em São José dos Campos. É um exemplo. Mas este exemplo, o do polo aeronáutico, precisa e deve ser estendido a outro polos tecnológicos do Estado. Tem a cadeia calçadista, o pólo na área de móveis, mecânicos, petroquímicos, de plásticos, na área de fármacos e farmacêutica, na área de equipamentos de telecomunicações. Existem várias cadeias muito importantes e que demandam um diálogo muito grande.

APJ - Como tem sido esta conversa?
Coutinho - A cadeia de autopeças, por exemplo. São Paulo tem a maior cadeia de autopeças do Brasil. Eu acabei de ter uma reunião com o Sindipeças. E precisamos, neste contexto, de tomar medidas. As autopeças paulistas eram grandes exportadoras. O mercado interno está recuperando, mas a exportação não vai se recuperar. Como fazer para evitar que nossas autopeças pereçam ou se debilitem, como está acontecendo nos Estados Unidos. Das dez grandes autopeças americanas, nove estão em processo de falência. Não podemos permitir que isso aconteça aqui no Brasil. Vamos fortalecer nossa cadeia de autopeças, buscar maneiras de fazê-la ter acesso ao crédito, acesso a encomendas, se consolidarem. Esperamos que este fundo garantidor que o BNDES está criando e entra em operação imediatamente tenha esta direção. Quer dizer: não apenas reagir à crise, mas tomar medidas de longo prazo para aproveitar as oportunidades que poderão surgir.

APJ - No agronegócio, o senhor concorda com a visão dos produtores de que o acesso ao crédito ainda é muito difícil e pulverizado?
Coutinho - Temos várias frentes nesta área. No caso das máquinas e equipamentos, o juro de zero a 4,5%, nominal, vale para máquinas e implementos agrícolas. Esperamos que com o plano-safra, a aquisição de equipamentos possa ajudar a recuperar a produtividade da agricultura e ajudar ao segmento de máquinas agrícolas do Estado, que é muito importante. Este é um lado. A outra frente importante é que alguns setores do agronegócio paulista também ficaram machucados a partir da crise. Um deles é o setor sucroalcooleiro, que felizmente, já está saindo da crise. Em boa medida porque os preços do açúcar melhoraram, mas também porque as linhas de crédito que foram oferecidas. Especialmente recursos do BNDES repassados pelo Banco do Brasil, que tem sido muito mais firme no repasse. Mas também pelo apoio que o BNDES tem dado a processos de reestruturação societária em várias grandes usinas. Temos uma interlocução muito freqüente com o setor e estamos trabalhando para que o setor atinja uma trajetória pujante de investimentos, porque o etanol é uma grande possibilidade para o futuro e precisamos criar capacidade para ofertá-lo na escala necessária.
Além disso, tivemos problema na cadeia de carnes. Afetaram alguns frigoríficos no Estado. Estamos buscando enfrentar este problema. Anunciamos medidas para que os frigoríficos adotem uma política de responsabilidade ambiental não só nas suas operações, mas também se responsabilizem por toda a cadeia de fornecimento. É um estímulo para que a pecuária brasileira aumente sua produtividade de forma responsável social e ambientalmente.

APJ - Com a exigência da rastreabilidade, o senhor acredita que estas empresas aumentarão a possibilidade de acessar o mercado externo?
Coutinho - A longo prazo não só o mercado externo mas como o mercado interno brasileiro vai exigir rastreabilidade. O consumidor brasileiro sabe da importância do meio ambiente e qualquer resistência a um processo de rastreabilidade seria pouco inteligente. O que temos é que criar as condições para que o aumento de produtividade na pecuária, que é possível, permita conciliar um processo de rastreabilidade com essas exigências. Vejo que a crise no setor de frigoríficos também já começa a passar. Embora tenha sido uma crise não desprezível. No setor de laticínios, também afetado, a crise vem sendo superada de forma mais rápida.
Ainda temos trabalho pela frente. Estamos dispostos a dialogar de maneira franca e direta para compreender os problemas e buscar soluções para a indústria, os serviços e agricultura brasileira.

APJ - Que recado o senhor enviaria ao empreendedor que ainda desconfia das perspectivas de crescimento da economia, mas busca acesso aos produtos do BNDES?
Coutinho - Confiem no Brasil. Nossa economia tem energia, tem forças para caminhar com suas próprias pernas. As condições fundamentais para isso foram consolidadas. Temos hoje um balanço de pagamentos sólido, com reservas de divisas. Temos a inflação sob controle, taxas de juros num patamar mais baixo dos últimos 20 anos, que serão consolidadas. Mas para isso é preciso que o empresário brasileiro confie no Brasil e invista para criar capacidade produtiva para oferecer mais bens e serviços no futuro, prevenindo o aparecimento de eventuais pressões de inflação.

APJ - O país se descolou da crise?
Coutinho - O Brasil já se descolou e vai ser descolar ainda mais da crise mundial. É uma das economias que vão ajudar o crescimento. E isso não é o presidente do BNDES que está dizendo. É a expectativa dos mercados. Os mercados estão corrigindo a expectativa de crescimento. O número de 2010, que era de 3,5%, está subindo para 3,7% e vai chegar para 4% ou 4,5%, que é nosso prognóstico para o ano que vem.
Fábio Zambeli
Da Associação Paulista de Jornais