Edição: 07/06/2009
Entrevista: Geraldo Alckmin

 

 

Entrevista - Geraldo Alckmin
Alckmin diz que Estado reage à crise
Quatro meses após assumir o cargo no auge da crise econômica mundial, o secretário estadual de Desenvolvimento, Geraldo Alckmin (PSDB), avalia que o Estado dá sinais de reação à turbulência e anuncia um novo pacote para aumentar a 'empregabilidade'.

O conjunto de medidas contempla a criação de 9.600 vagas noturnas no ensino técnico em 45 cidades, utilizando a rede física de escolas do Estado.

"É exatamente neste momento de crise que se tem que redobrar o esforço, seja na qualificação profissional, no desenvolvimento humano, na formação técnica e tecnológica, enfim, fazer um esforço ainda maior", afirma o ex-governador.

Em entrevista à Associação Paulista de Jornais, o tucano diz que as ações do governo paulista para socorrer a economia se diferenciam das do governo federal pela consistência.

"É importante separarmos discurso de ação. Uma coisa é você falar, outra é você agir. O que estamos anunciando, por exemplo, tem um cronograma. Então você tem o começo, o meio e o fim", afirma o tucano.

Alckmin, líder nas pesquisas de intenção de voto pelo Palácio dos Bandeirantes em 2010, nega que esteja em campanha pelo cargo, embora admita que irá intensificar suas maratonas pelo interior --todas, ele garante, a trabalho.

"Nós não misturamos as coisas. Quem faz campanha 24 horas é o Lula. Nós não. Estamos é procurando trabalhar. Eu nunca fiz uma reunião partidária, política. O que nós fazemos são compromissos de trabalho."
Associação Paulista de Jornais - Qual o critério utilizado para definir quais cursos seriam oferecidos em cada cidade?
Geraldo Alckmin - A demanda regional. Este é o critério. O eixo indústria vai ser feito nas próprias Etecs, pois demanda laboratórios. Agora, o eixo serviços a gente faz na própria escola, porque na realidade, vamos comprar 50 computadores por escola para ter laboratório de informática. E rápido. Em vez de construir prédios, que demoraria dois anos, fazendo projeto, licitação... Perderíamos tempo e gastaríamos muito dinheiro. Quando tem muito prédio vazio e com salas à noite que não são utilizadas.

APJ - Por que se verifica este fenômeno?
Alckmin - Antigamente, 80% do ensino médio era à noite. Hoje, 60% é de dia. Portanto, não há mais aquela defasagem do aluno com a idade dele. Então, você tem muita escola à noite vazia. Vamos utilizar a estrutura.E exatamente o curso técnico tem que ser à noite, pois muitos trabalham de dia. E alta empregabilidade, a cada cinco formandos, quatro são empregados.

APJ - Serão necessárias obras para adaptar as salas?
Alckmin - Estamos projetando investimentos de R$ 20 milhões, mais em laboratórios de informática. Em sala, não, as salas são comuns. Não há necessidade, é mais a parte de equipamentos. No Estado inteiro nas escolas estaduais.

APJ - E qual será a economia para o Estado?
Alckmin - Sim, cada escola custaria, em média, quase R$ 6 milhões. Quer dizer, nós vamos abrir 9.000 vagas gastando R$ 20 milhões. E na verdade, são mais vagas, porque temos vestibulinho a cada seis meses. São 28 mil vagas abertas neste período.

APJ - O senhor avalia que este tipo de ação é suficiente para o enfrentamento ao desemprego em tempos de crise?
Alckmin - O melhor investimento para combater a crise é o desenvolvimento humano. É você investir nas pessoas. E hoje, o que está acontecendo? Você tem muita faculdade que a pessoa gasta um dinheirão, estuda cinco anos e depois não vai exercer a sua profissão. Tanto que o país precisa de técnicos e tecnólogos. E eles são bem remunerados, porque há uma procura muito grande.

APJ - E as Fatecs? Há previsão de ampliação?
Alckmin - No caso das Fatecs, eram 26. Vão ser 52. Dobrou praticamente. Veja, no caso da Etec a empregabilidade é 78%, no caso da Fatec, é de 94%. São escolas de muito boa qualidade. Todas do Centro Paula Souza.

APJ - Qual o papel da Secretaria da Educação neste processo, visto que os prédios são de responsabilidade dela?
Alckmin - Nós só compartilhamos o prédio da Secretaria da Educação, que, aliás, tem sido grande parceria. É bom para aproveitar melhor os equipamentos públicos, tem mais segurança, estrutura, prédio. Porque você tem à noite muita ociosidade.

APJ - De que maneira o Estado tem agido para atender, com estes cursos, as vocações regionais?
Alckmin - Isso é feito permanentemente. Para você ter ideia, pagamos o bônus para professores, funcionários, e diretores das Etecs e Fatecs na semana passada. O bônus é pago pela qualidade das escolas. Qual o critério? O aprendizado, o aluno e o egresso, quer dizer, o aluno que saiu daquela Etec, conseguiu emprego? O curso foi importante para seu desempenho profissional? Esta é a lógica. Ele é voltado ao setor produtivo. É a demanda.

APJ - E, na avaliação do senhor, este processo pode se aprofundar?
Alckmin - Sim. Por exemplo, em São José dos Campos, setor aeronáutico, aeroespacial. No litoral, petróleo e gás. No ABC, termoplástico, automotivo. Em Franca, sapato. Em $Americana, têxtil. Em Sorocaba, metal mecânico. Em Campinas, tecnologia da informação. E também serviços: comércio, administração, contabilidade, marketing. Enfim, serviços, que é o que mais cresce hoje.

APJ - Haverá interface com os parques tecnológicos?
Alckmin - Onde tiver parque, estamos procurando fazer com que as Etecs e Fatecs fiquem até dentro dos parques tecnológicos. É o ideal, mas hoje só acontece em São José. Agora, temos poucos parques ainda. Funcionando mesmo temos São José e São Carlos. Mas a ideia é ter uma rede de parques e isso será importante.

APJ - A exemplo da equipe econômica do governo federal, o senhor acredita que o pior da crise econômica já passou?
Alckmin - Eu diria que começou a reagir. A curva começou a mudar. Em vez de perder o emprego, se começa a recuperar o emprego. Mas ainda lentamente. Eu diria que as coisas vão melhorar mais no segundo semestre e no ano que vem.

APJ - Como o senhor analisa o resultado das ações empreendidas pelo governo estadual no enfrentamento da crise?
Alckmin - É exatamente neste momento de crise que se tem que redobrar o esforço, seja na qualificação profissional, no desenvolvimento humano, na formação técnica e tecnológica, enfim, fazer um esforço ainda maior. O governo do Estado vai investir este ano R$ 20,6 bilhões. Infraestrutura, logística, obras. Isso gera muito emprego, direto, indireto, induzido. Eu diria que o pior momento está passando, mas não podemos nos iludir. O crescimento não será em 24 horas. Ele vai melhorar mais lentamente este ano. E acredito num crescimento mais forte no ano que vem.

APJ - Este esforço que o senhor menciona de enfrentamento da crise pode ser contaminado pela agenda eleitoral? Em âmbito estadual e federal?
Alckmin - É importante separarmos discurso de ação. Uma coisa é você falar, outra é você agir. O que estamos anunciando, por exemplo, tem um cronograma. Dia 5 de junho abrimos inscrição, 12 de julho vestibulinho e 3 de agosto a aula começa. Então você tem o começo, o meio e o fim. São medidas muito concretas e efetivas. Há um abismo entre o falar e o fazer. São Paulo está procurando fazer sua parte. Nós não temos política monetária, a taxa de juros é federal, a política cambial é federal, mas estamos fazendo um esforço grande aqui.

APJ - O senhor lidera as pesquisas de intenção de voto para o governo do Estado em 2010. Como avalia estes números e a ansiedade que se cria no PSDB para se definir o quadro eleitoral?
Alckmin - Eu fico muito feliz. Isso é uma prova de reconhecimento, de confiança. Me deixa muito alegre e mostra que o povo paulista tem uma enorme confiança no nosso trabalho. Agora, eleição é só o ano que vem. Agora é trabalhar o máximo, fazer bem feito o que nós estamos fazendo, cuidar com responsabilidade das tarefas do Estado de São Paulo. Aqui na secretaria que eu tenho a honra de servir e eleição é ano par, estamos ainda em ano ímpar.

APJ - O senhor admite a realização de prévias para se escolher o candidato do partido?
Alckmin - Tanto em nível nacional quanto em nível estadual eu acredito num entendimento. Acho que não precisa ser agora, pode ser lá no fim do ano. Agora, se precisar fazer uma consulta, uma prévia, não vejo nenhum problema. Pelo que eu sinto, tanto em nível estadual quanto no federal, provavelmente se caminha para o entendimento.

APJ - Como o senhor reage aos questionamentos feitos principalmente pela oposição de que o senhor estaria em pré-campanha ao intensificar o ritmo de reuniões e eventos com prefeitos e lideranças partidárias paulistas?
Alckmin - Nós não misturamos as coisas. Quem faz campanha 24 horas é o Lula. Nós não. Estamos é procurando trabalhar. Eu nunca fiz uma reunião partidária, política. O que nós fazemos são compromissos de trabalho. Por exemplo, eu fui a Sorocaba. Fazer o que? Visitar a Fatec, ver obra, expor a agência de desenvolvimento. Fui ao Vale do Paraíba para inaugurar a Etec de Cachoeira Paulista, fomos a Lorena na Santa Casa. Quer dizer, são medidas administrativas, concretas. A questão eleitoral é importante, mas ela tem o seu momento. Ainda não é o momento.
Fábio Zambeli
Da Associação Paulista de Jornais