Edição: 03/05/2009
Entrevista: José Serra

 

 

Entrevista - José Serra
Serra promete obras ‘no atacado’ até 2010
Líder nas pesquisas de intenção de voto para o Palácio do Planalto, o governador José Serra (PSDB) promete obras ‘no atacado’ para o Estado de São Paulo nos dois últimos anos de seu mandato.

Em entrevista exclusiva à Associação Paulista de Jornais (APJ), o tucano avalia que os investimentos de R$ 20,6 bilhões projetados para o biênio 2009-10 estão ‘blindados’ à crise econômica, a despeito da queda na arrecadação estadual, que já atinge R$ 722 milhões apenas no primeiro trimestre.

“O investimento será muito elevado. [São Paulo] deve ser o lugar do Brasil em que a administração pública está investindo mais neste momento”, afirma.

A fórmula que permite a Serra apostar na imunidade paulista à turbulência internacional contempla a obtenção de fundos por meio de outorgas de concessões (R$ 5,5 bilhões), financiamentos externos (R$ 10 bilhões) e a venda da folha de pagamento do funcionalismo (R$ 2 bilhões) e da Nossa Caixa (R$ 5,4 bilhões).

Serra faz à APJ um balanço da primeira metade de sua gestão e diz perseguir uma fórmula que equilibre os repasses de recursos e a implantação de programas-chave entre os municípios, privilegiando a descentralização e sem ‘troca-troca político’.

“Vamos fazer [obras] em atacado. E fazemos isso sem coloração partidária. Até porque é mais econômico e mais rápido você fazer tudo no atacado. Não fazemos troca-troca político com prefeitos”, completa.
Associação Paulista de Jornais - Seu antecessor, o ex-governador Cláudio Lembo, disse, ao assumir o Estado, em 2006, que esperava encontrar uma Ferrari e acabou herdando um 'Fusquinha'. Pouco mais de dois anos depois, o senhor acredita que o Estado pode ser comparado a uma máquina mais eficiente?
José Serra - Na verdade, eu não acho que a máquina tenha se parecido um Fusquinha. O Lembo acho que se referia ao contexto daquelas questões do PCC. Mesmo porque do ponto-de-vista financeiro, o Estado estava razoavelmente arrumado.

APJ - Inclusive em termos de capacidade de investimentos?
Serra - Nós melhoramos, mas também não tivemos que ficar tirando esqueleto do armário. Não tinha. Dívidas, sabe? Coisas assim. Sabe quando você pega um Estado quebrado? Nós não pegamos um Estado quebrado. Isso é muito importante. Eu sei o que é um Estado quebrado, quando nós assumimos aqui o governo Montoro, depois da administração do Maluf e do Marin.

APJ - Mas não houve prejuízo à capacidade de investimentos?
Serra - O investimento aumentou e muito nos últimos anos, vamos chegar a R$ 20,6 bilhões este ano. Vem subindo porque havia uma certa capacidade de endividamento. E também porque nós fizemos a venda da conta-salário, recursos de concessões. Só da conta-salário, saíram R$ 2 bilhões. Nós conseguimos uns R$ 23 bilhões em receitas especiais.

APJ - A turbulência econômica afetou os investimentos públicos?
Serra - Apesar de a receita estar caindo, no primeiro trimestre ficou R$ 733 milhões abaixo da prevista, o nível do investimento vai ser mantido, pois não é com receita corrente. São receitas de capital, financiamentos, concessões. Então, graças a isso, e é uma situação muito peculiar, nós estamos conseguindo manter.

APJ - E estes recursos externos não correm o risco de serem drenados por conta da crise? São receitas asseguradas? E o horizonte para o resto do mandato?
Serra - Não existe esta possibilidade. Nem neste ano e nem no próximo. O investimento será muito elevado, praticamente deve ser o lugar do Brasil em que a administração pública está investindo mais neste momento.

APJ - Qual é o efeito mais grave que o Estado sente neste momento de estagnação econômica?
Serra - Sem dúvida nenhuma, a questão social. O desemprego. Na Grande São Paulo, a taxa é da ordem de 10%. Não tem um dado do Estado. E chegou a ser 7% por volta de setembro. Portanto, aumentou quase 50% a taxa de desemprego. E eu acho que o governo está fazendo sua parte. Se não fosse este investimento tão grande, o desemprego seria maior.

APJ - A principal ação oficial no momento é com relação ao investimento em obras públicas?
Serra - Sem dúvida. Inclusive, antecipamos compras de bens duráveis. Já que você tem que comprar, compra antes. A dificuldade, às vezes, é você fazer a máquina funcionar com rapidez.

APJ - E a recolocação?
Serra - Não é somente através das Etecs. Temos um programa na Secretaria de Trabalho e Emprego que é de reciclagem para gente que está sob seguro-desemprego. Esta ano vão ser 60 mil pessoas. Temos também começando o treinamento para alunos do ensino médio, comprando vagas para eles no sistema S e no sistema Paula Souza. Fora aquilo que se faz diretamente. Por outro lado, estamos aumentando as vagas nas Etecs para o ano que vem em mais de 100 mil. E nas Fatecs estamos mais que duplicando. Isso é emprego qualificado. Quanto mais você treina, mais qualifica, isso não gera emprego em si, mas facilita a integração ao mercado de trabalho.

APJ - O senhor anunciou um pacote para o setor do agronegócio? Em que medida o Estado pode interferir para estimular este setor?
Serra - O Feap [Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista] expandiu muito seus recursos. Empresta muito dinheiro e focado no pequeno e médio produtor. O programa de tratores, financiamos em cinco anos, subsidiando juros. São R$ 100 milhões. Fortalecemos a parte sanitária da Secretaria de Agricultura. Também o programa Melhor Caminho.

APJ - Recuperação de estradas rurais...
Serra - Estradas rurais, que nós vamos recuperar 5.000 quilômetros. Fora as vicinais, que são 12 mil quilômetros. Eu acho que a questão de estradas é importante para este segmento.

APJ - Esses programas têm alcance grande, pois quase todos os municípios são contemplados. O senhor sente a demanda maior por este tipo de investimentos?
Serra - Vamos fazer em atacado. E fazemos isso sem coloração partidária. Até porque é mais econômico e mais rápido você fazer tudo no atacado. Não fazemos troca-troca político com prefeitos.

APJ - A interlocução com os prefeitos foi positiva nestes dois anos?
Serra - Muito, muito. Eu sempre estive acostumado a ouvir reclamação de prefeitos. É a primeira vez que eu não ouço. E não é porque sou governador, porque os secretários, os deputados, os membros do partido têm me dito. Eu diria que é o nível mais baixo de reclamação dos prefeitos nas últimas décadas. E, ao contrário, nós estamos até pressionando para eles fazerem as coisas. Com muita frequência. Eu fui lá a Mogi Mirim e Cosmópolis e cobrei o vice-prefeito de Itapira porque não está entregando o prédio da Etec. Em geral, é o contrário. O sujeito vem cobrar para você fazer. Nós estamos com uma boa relação com os prefeitos.

APJ - Na campanha, o senhor destacou o programa dos AMEs (Ambulatório Médico de Especialidades), que acaba papando filas na saúde...
Serra - Você usou uma expressão muito boa, é papa-filas mesmo.

APJ - Existe uma disputa entre cidades para abrigar estes
ambulatórios.
Serra - É regional, mas tem que ter um equilíbrio. Como também as Fatecs, como o Poupatempo. Todo mundo quer ter. Agora, você não pode fazer um AME em uma cidade pequena, nem fazer um AME do lado do outro. A capacidade de atendimento é muito alta. Tem alguns com 25 mil consultas. Tudo depende da estrutura. Tem um padrão médio, mas tem variações. O de Santa Bárbara vai fazer cirurgia. Agora tem uma coisa que me chamou a atenção, quando visitei. Tem um bom padrão. É um negócio caprichado, bonito, limpo, espaçoso.

APJ - E o modelo de gestão por meio das parcerias, é bem-sucedido na avaliação do governo?
Serra - Muito bem-sucedido. Foi uma ação praticamente paulista, começou com o Covas. Eu estendi, como prefeito da capital, para as AMAs. Funciona muito bem. Mas a localização é fundamental. Graças a Deus, a maioria das Santas Casas funciona bem. Então, se você tem duas cidades próximas, uma tem uma boa Santa Casa e outra tem uma ruim, você faz um AME na que tem a Santa Casa boa. Porque significa metade do caminho andado em matéria do AME. São eles que vão contratar. Tem que levar em conta os aspectos práticos.

APJ - Existe a pressão, inclusive para equilibrar os investimentos do Estado. O senhor defende que existam compensações?
Serra - Você tem Poupatempo, AME, Etec, Fatec, Rede Lucy Montoro. Em termos de localização. A idéia é descentralizar. Hospitais também. Ribeirão Preto, Bauru. Agora, o maior de todos é o de Presidente Prudente. Nós encampamos o hospital da faculdade, que é do Agripino Lima e da mulher dele. É gigantesco, eu conheci como ministro da Saúde e na época disse a eles que seria difícil manter, mas é uma bela instalação. Nós pegamos e tem muita capacidade de atendimento. Que é para atender toda a região. As obras no interior são regionais, não são obras locais.
Outra coisa que estamos fazendo são os Fóruns. É o maior investimento que se fez no Estado.

APJ - Existe uma regra para se compensar os municípios?
Serra - Cada caso é um caso. No início do governo, mandei fazer um estudo. Mas não é isso que resolve, você vai acabar dando coisa para quem não precisa. Eu sou inteiramente favorável.

APJ - As cidades reagem, geralmente, às construções de presídios, unidades da antiga Febem. Como o senhor avalia?
Serra - É perfeitamente legítimo. É uma demanda legítima dos prefeitos. Porque isso gera uma sobrecarga sobre saúde, claro, tem problema de saneamento. Tem problema viário. Eu acho que compensação, sem abusos, é demanda legítima, quando sensata e racional. Mas cada município é um caso. Infelizmente, esta questão dos presídios, quando eu vou ao interior é o que mais me perguntam.
E os deputados do PT, que não têm muito assunto para falar do governo, vão lá e começam a fazer abaixo-assinado. Mas o governo também é criticado porque tem superpopulação carcerária. Estão superlotados. Mas todo mundo quer no vizinho. Nós somos inteiramente abertos à localização. Eu não me lembro de nenhum caso que tenha chegado a mim e que nós não tenhamos revisto se nós percebemos que era uma demanda razoável.
No município, o prefeito e a comunidade sabem muito melhor aonde deve ficar do que a gente. Então, é muito melhor que eles digam.

APJ - Também é uma meta do governo aliviar as cadeias?
Serra - Eu não fiz meta quantitativa, mas quero esvaziar ao máximo as cadeias. Porque, em geral, são unidades centrais e até é bom que sejam, porque as delegacias fiquem no centro. O que não é bom é que a carceragem seja lá. São demasiado cruéis. É uma coisa lamentável. Então você tem que fazer unidades. O famoso CDP de Jundiaí, por exemplo, o promotor questionou. Porque tem que ver a coisa do meio ambiente. Muitas das observações do Ministério Público são corretas, mas algumas não. Tem que ver caso por caso. Tem excessos, mas tem muita coisa certa.

APJ - O senhor diz que quando visita o interior, as queixas geralmente recaem sobre a segurança...
Serra - É, mas também é sinal que estamos fazendo as outras coisas. Por exemplo, estrada, a gente está fazendo tanta coisa que não tem muita demanda. Então, em geral eu faço um discurso curto com um balanço e aí vem sempre que está faltando polícia ali e acolá, e aí você confere e não é bem assim.

APJ - Mas isso reflete uma sensação de insegurança generalizada que aflige o cidadão?
Serra - Não. Os nossos índices de criminalidade estão baixos, estão sendo reduzidos. Às vezes as pessoas pedem batalhão, companhia da Polícia Militar. Mas muitas vezes é apenas questão de prestígio.

APJ - Qual a visão do senhor sobre a segurança no Estado?
Serra - Os indicadores são bons. Mas basta ter um assalto, não precisa nem ser a mão armada, para criar uma sensação de insegurança. E aí é melhor ser prudente e não ficar contando vantagem. O importante é que as coisas melhorem e não fazer propaganda de que as coisas estão melhorando. É claro, é nítido, você constata pelos indicadores que São Paulo está cada vez segura. Mas isso não elimina a sensação de insegurança.

APJ - Ex-governadores foram criticados por subdimensionar o poder de fogo de facções criminosas, como o PCC. Alguns até negavam a existência. Como o senhor enxerga o alcance destes grupos que agem nos presídios e fora deles?
Serra - Estão sendo bem enfrentadas. Às vezes, setores da mídia, superestimam o poder deles. É superestimado. Às vezes interessa dar a ideia de um alcance maior do que têm. Não quero, com isso, desprezar. A gente procura ter uma visão realista a este respeito. Eu não acompanho o dia-a-dia, mas é visível que o problema de inquietação nos presídios diminuiu, pelo menos, em relação a 2006. E também no âmbito da antiga Febem, a Fundação Casa.

APJ - O fato de o senhor ter nomeado um secretário de Segurança que já passou pela Secretaria de Administração Penitenciária tem alguma relação com a preocupação de que as duas pastas ajam em sintonia?
Serra - O Marzagão (Ronaldo, ex-secretário) e o Ferreira (Antonio Fernando, atual) estudaram juntos e tiveram carreira no Ministério Público. E eles sempre se entenderam muito bem.

APJ - Na visão do senhor, é fundamental que as duas secretarias estejam com ações sincronizadas?
Serra - É crucial. São como siameses. E isso tem acontecido. É claro que o fato de o novo secretário já ter atuado na Administração Penitenciária, isso intensifica, acaba estreitando mais. Mas já era bom o relacionamento.

APJ - A Educação foi, na campanha, uma das maiores preocupações. De que forma nestes dois anos de mandato, o senhor conseguiu implantar as medidas prometidas?
Serra - Eu dou aula, quando eu posso, eu dou. Vou para a quarta série. Faço um teste de aritmética, de leitura. Eu ensino a ler jornal, explico o que é primeira página, foto, legenda. A garotada tem muita curiosidade. Eles perguntam sobre a minha vida etc. Agora eu fico testando. Por exemplo, a ideia de que tem que memorizar a tabuada, porque surgiram teorias de que não precisava memorizar. Acho que tem que memorizar, sim.

APJ - Foi dado o salto que o senhor imaginava?
Serra - Na educação, sim. No lado técnico e tecnológico, foi estrondoso, sucesso estrondoso. É claro que você tem sempre garrafa meio cheia e garrafa meio vazia. Porque a imprensa disse que da quinta à sexta série está fraco. É claro, porque o investimento foi feito no primeiro e segundo anos, na alfabetização. Para que o aluno que amanhã vai estar na quinta e na sexta seja melhor preparado. Nossa política está bem-sucedida, só que os resultados são a longo prazo. Eu acho que para melhorar você precisa de uns três governos, para ter uma melhora substancial.

APJ - E os docentes. Há professores nota zero. Isso passou uma impressão de que o nível de ensino é baixo.
Serra - Isso foi um exame. É verdade, um exame de temporários. E a Apeoesp conseguiu na Justiça derrubar isso. O Paulo Renato (de Souza, secretário da Educação) está com esta missão. Está trabalhando para resolver este assunto. E está mergulhado nisso. Como é que nós resolvemos o problema dos temporários que estão menos habilitados.

APJ - Muda o perfil da gestão?
Serra - Não, o Paulo me disse inclusive que está abismado com o volume de trabalho da Secretaria. E ele é um homem experiente. Foi secretário do Montoro, reitor da Unicamp, o ministro da Educação mais longevo no regime democrático. Então, é uma experiência ambulante nesta matéria.

APJ - Os erros nas apostilaram entregues aos professores incomodaram o senhor?
Serra - Foi um erro na gráfica. E uma revisão que não foi bem feita. Você não ver lá uma crase numa revisão, vá lá, agora não ver que o Paraguai está no lugar do Uruguai? Aliás, veio para a imprensa por causa da correção que se mandou para os professores, veio de Rio Preto. O Aloysio (Nunes Ferreira, secretário da Casa Civil) que me contou.

APJ - Nestes dois anos de mandato, o quanto o senhor acredita ter cumprido do seu plano de governo?
Serra - É heterogêneo, é difícil. Eu diria que na área de estradas, 100%. Nas escolas técnicas, 100%. Presídios é onde nós fomos mais devagar. Por causa das dificuldades de localização, não é por causa de dinheiro. Problemas ambientais, Ministério Público, resistência etc. E também os Fóruns, porque não sei que epidemia que muitas empresas que assumem obra de Fórum quebram. Nunca vi. Isso é consequência da Lei 8.666 (A Lei de Licitações). Colocam o preço lá embaixo e o risco é muito grande. Aí a empresa quebra. O caso mais famoso é o de São José dos Campos. Tudo equacionado, dinheiro, prefeitura parceira. Aliás, a Prefeitura de São José é parceira de primeira classe. Tudo o que nós fazemos, eles dão a parte deles. Puseram até dinheiro no Fórum. O problema é com a construtora. E aí há uma rigidez.

APJ - E a rodovia dos Tamoios, o senhor acha possível duplicá-la?
Serra - Eu nunca disse que iria duplicar a Tamoios. Mais sério ainda é quando dizem que vou duplicar a Mogi-Bertioga. Não é questão de não querer. Nunca disse: 'vou garantir e tal'. No caso da Tamoios não tem estudo ambiental, não tem projeto. E o RodoAnel, vai fazer o trecho leste? Vou, mas tem a questão do meio ambiente, que você está entrando em mata virgem. Meio ambiente é uma causa e tanto. Você tem o problema ambiental.

APJ - O que o governo pretende fazer?
Serra - O que estamos fazendo? A parte de cima e embaixo a questão mais crítica, o contorno de Caraguá a São Sebastião. E a Mogi-Bertioga tem problema de demanda também. Eu não tenho dúvida que a Tamoios vai ter. Hoje não tem durante a semana, tem no fim-de-semana.

APJ - Seria o caso de conceder?
Serra - Seria, seria.

APJ - Trouxe preocupação ao governo o entrave na concessão do sistema Ayrton Senna?
Serra - Nós já sabíamos que a empresa vencedora tinha problema. Ela foi impugnada, nós até aceitamos o recurso dela. Ela tinha sido impugnada na presunção de que ela não teria condições financeiras para cumprir os compromissos. Nós acolhemos o recurso dela, agora, não cumpriu, vai para o outro.

APJ - Como tem sido a relação do governo com a União, do senhor com o presidente Lula?
Serra - Tem sido boa. Do ponto-de-vista administrativo, foi boa.

APJ - Então é recíproco, pois o presidente tem feito referências elogiosas ao senhor...
Serra - É, se você me perguntar se eu me sinto discriminado, não.

APJ - Existe um diálogo institucional satisfatório?
Serra - No campo administrativo anda normalmente.

APJ - Mas o processo eleitoral pode prejudicar este status?
Serra - Não. Tem algumas prefeituras do PT, mas também porque tem os deputados. Provavelmente, o governo federal faz mais coisas nas prefeituras do PT que nas outras. Mas não é uma conspiração. É porque tem os deputados do PT, que trazem os pleitos da prefeitura. Analisando com frieza, é até normal. O governo federal atua pouco em São Paulo. No governo do Estado, isso não tem porque eu atuo muito. Imagina deixar uma prefeitura de lado? Isso não existe. Você precisa pensar no Estado.

O Estado, por exemplo. A utilização da capacidade de endividamento, está caminhando normalmente. Não é dinheiro federal, porque do governo federal é pouco que vem para cá. Isso é assim. Isso é São Paulo. O Fundo de Participação, para nós, é erro de arredondamento. Em alguns Estados, é mais de 50% da receita. Aqui, se você vai arredondar, saiu.
A parte mais substancial é para o RodoAnel. Para eles também ajuda, como a coisa do PAC. É a coisa do PAC que mais anda é o investimento do RodoAnel, que eles dão R$ 300 milhões por ano. No total é R$ 1,2 bilhão e custa R$ 4,3 bilhões. Eu estou conseguindo fazer o trecho sul porque nós fizemos as outorgas, é dali que eu tiro dinheiro. Aliás, estamos antecipando.

APJ - Os números de investimentos do Estado são mais volumosos que os do PAC?
Serra - Comparam com o PAC em âmbito nacional. Mas eu não gosto de comparar. Eu, sinceramente, não aprovei. Hoje eu dei uma palestra e disse que o IPI tinha caído mais que o ICMS aqui e já em um despacho da Reuters saiu como se eu tivesse dito que era uma vantagem. Bobagem, não estava falando neste sentido, até porque eu falei a favor da redução de impostos federais como elemento de reativação econômica. O que eu disse é que Estados e municípios não podem fazer porque eles não emitem dívida. Se você corta dinheiro de Estados e municípios, eles cortam gastos. Como é que você vai financiar isso? Se eles não emitem papel de dívida? O governo federal pode.

APJ - O senhor vai procurar limitar suas opiniões sobre a política monetária?
Serra - A política monetária esteve errada. E eu digo, como economista, muito antes de ela ter mostrado que estava errada e de ter ficado provado isso e claro para todo mundo. Eles fizeram uma política fiscal eficiente, mas não a monetária.

APJ - E quanto ao gasto público?
Serra - Diminuir imposto é uma maneira de conter o gasto, se você quiser.

APJ - O gasto é incorreto?
Serra - Muito em salário. A curto prazo, tem um papel anticíclico. Mas no longo prazo é discutível. Porque é melhor você ter investimento, porque acaba. O gasto corrente, em geral, a contratação, ele é eterno. No Brasil, até CLT no setor público vira estabilidade.

APJ - O receituário contra a crise é que está equivocado?
Serra - Acho que na parte fiscal, estão fazendo. Se podia pensar em melhorar aqui ou acolá, mas estão fazendo.

APJ - O impacto da crise? É possível mensurar?
Serra - Este ano é de estagnação. O ano que vem vai ter uma pequena recuperação. Agora, dar palpite, eu tenho experiência como economista para saber que não é certo.

APJ - O senhor externa estas preocupações com o presidente Lula?
Serra - Eu não tenho falado muito com o Lula nos últimos tempos. Mas, com relação às questões da economia, eu sempre deixei claras as minhas posições. Na reunião sobre o programa habitacional, eu levei várias sugestões ao presidente, participaram vários ministros, a Dilma, o Guido Mantega. É da minha natureza. Eu não jogo no 'quanto pior, melhor' e tendo a ser pró-ativo em matéria de sugerir coisas.

APJ - E o futuro político do senhor? Qual é a data-limite para defini-lo?
Serra - Em 2010, no primeiro trimestre ano que vem.

APJ - Existe uma pressão para o lançamento da sua candidatura a presidente, como senhor lida com isso?
Serra - É natural. Eu não penso nisso. Vivo não me deixando contaminar pela ansiedade. Mas eu sei que é muito difícil fazer com que ela não exista.

APJ - Dentro e fora do partido?
Serra - Dentro e fora.

APJ - No PSDB, como deve ser tratada a definição do candidato? O senhor resiste a prévias?
Serra - Não, não. Deixa lá no começo do ano que vem. Se não houver consenso, faz uma consulta. Eu nunca fui contra, realmente. Eu acho que é prematuro abrir temporada de campanha presidencial. É prejudicar o país. Há muito trabalho a fazer.

APJ - Como ex-ministro da Saúde, qual a sua análise sobre os riscos da Gripe Suína?
Serra - Até agora, não teve nada mais sério. Pode acontecer? Pode. O que tem que fazer é atuar com muita eficiência para detectar. A epidemia, por mais incrível que pareça, a ação mais importante é descobrir os casos. Aí você pode isolar e impedir a propagação. Em São Paulo, articulados com o Ministério da Saúde, nós estamos prontos. A Vigilância Sanitária que tem a ver com entrada de gente é federal, não é estadual. Mas nós estamos prontos, tem o Emílio Ribas, que é de alta qualidade.

APJ - Que recado o senhor daria para o cidadão que enxerga sua administração voltada para a metrópole em detrimento do interior?
Serra - Eu não sou nem metropolitano, nem interiorano. Sou um político nacional. Costumo olhar as coisas em seu conjunto. Com 20 anos, eu já tinha feito agitação política em todas as principais cidades do interior. E tenho família no interior também. Eu olho São Paulo como um todo e procuro entender as diferenças e as prioridades. Qual a prioridade do interior? Infraestrutura, educação e saúde. Prioridade na Grande São Paulo, além disso, é transportes. O foco dos problemas sociais do Estado está na Grande São Paulo. O interior é muito mais desenvolvido. O interior é padrão de país desenvolvido. E eu governo para melhorar por cima e não por baixo. E a gente continua procurando o conjunto do Estado. A minha mensagem é que eu desejo que o interior continue sendo bom, como vem sendo há muito tempo.
Fábio Zambeli e Nélson Gonçalves
Da Associação Paulista de Jornais