Edição: 15/02/2009
Entrevista: Luiz Inácio Lula da Silva

 

 

Entrevista - Luiz Inácio Lula da Silva
Lula quer aumentar autonomia de prefeitos
O presidente Luiz Inácio da Silva (PT) planeja aumentar os mecanismos de negociação de dívidas dos municípios com a União para fortalecer a autonomia das prefeituras turbinando o pacote anunciado na última semana a 5.300 prefeitos de todo o país com medidas que passam até pela redivisão do bolo de repasses do IPVA (Imposto sobr Propriedade de Veículos Automotores).
"Queremos, definitivamente, que as prefeituras ganhem cada vez mais autonomia, ganhem cada vez mais condições financeiras porque, eu tenho certeza, você pode ter uma ou outra pessoa que vai cometer desvio, mas é muito mais fácil controlar o dinheiro, estando perto do povo", disse Lula durante entrevista concedida à Associação Paulista de Jornais.

O presidente prometeu ainda manter, a despeito da crise financeira internacional, os investimentos da Petrobras na construção de refinarias e nos projetos relativos à exploração da camada do pré-sal.

"É exatamente nesse momento da crise que eu quero que a Petrobras contribua para a geração de empregos."
Lula revelou que uma das prioridades de sua gestão no momento é estimular o crédito com a redução do 'spread' bancário (diferença entre a taxa de juros das operações de captação e liberação de recursos).

"Não é possível que num momento de crise como esse, em vez de as pessoas fazerem fluir mais dinheiro na praça, para o povo poder consumir mais, as pessoas se retranquem, não é possível. Então, isso nós estamos vendo com muito carinho, porque esse eu acho que é o grande problema."

O presidente, que diz rezar todos os dias para o êxito da política econômica do recém-empossado colega norte-americano Barack Obama, avalia que o impacto da crise ainda não afligiu os grandes investimentos privados no país.
"Eu pedi para que o presidente do BNDES me trouxesse os 100 maiores projetos de investimentos da iniciativa privada no Brasil. Até agora nenhum desistiu."
Para Lula, qualquer iniciativa que preveja redução de jornada de trabalho e corte de salários para preservar empregos deve ser amplamente debatida, com mediação das centrais sindicais. Ele critica os empresários que promoveram demissões de funcionários entre dezembro e janeiro, especialmente no setor automotivo.

"Eu penso que se houver juízo do governo, juízo dos empresários, juízo dos trabalhadores, a gente vai encontrar uma forma de não permitir que outra vez os trabalhadores sejam vítimas, primeiro, de uma crise que eles não têm nenhuma culpa."
Associação Paulista de Jornais - Presidente, parte da aflição dos prefeitos, que o senhor ouviu novamente ontem, está pontualmente ligada à questão da apreensão em relação ao FPM, e depois da jornada em relação ao aumento do percentual, de um ponto percentual que ocorreu recentemente, os municípios se preparam agora em relação às suas operações e frentes para discutir uma eventual redivisão do bolo, por exemplo, do IPVA, e também tem uma preocupação específica em relação à regulamentação do artigo 23 da Constituição, que trata das competências dos municípios, algumas que são duplas em relação ao Estado. O senhor tem algum panorama?
Luiz Inácio Lula da Silva - Eu digo isso com muito orgulho porque eu não conheço, na história do Brasil, um governo que teve a relação com as prefeituras como a que nós temos. E por que eu quero ter uma relação muito ligada, quase umbilicalmente, com os prefeitos? É porque eu sou o presidente hoje, mas amanhã eu sou o cidadão de uma cidade e vou querer que o prefeito cuide bem da minha rua, cuide bem da praça, cuide bem da saúde da cidade. Então, nós precisamos entender de uma vez por todas que as políticas sociais determinadas pelo governo federal ou pelo governo estadual serão muito melhor aplicadas se a gente tiver uma construção de parceria com os prefeitos. Por quê? Porque é o prefeito que está na comunidade, é o prefeito que sai de casa todo dia e atravessa a rua da sua cidade, é o prefeito que conhece a periferia da cidade, é o prefeito que sabe que onde estão as pessoas mais pobres, as pessoas de classe média, as mais necessitadas dos programas sociais. E o exemplo maior é o Bolsa Família, ou seja, se a gente não tivesse construído as parcerias com os prefeitos, certamente nós não teríamos atingido a quantidade de pessoas que atingimos, e certamente nós não saberíamos onde essas pessoas estariam.
Eu me lembro de que uma vez uma primeira-dama disse na imprensa que o problema das políticas sociais dos governos é que ficava mais fácil jogar o dinheiro de helicóptero para as pessoas pegarem, porque o dinheiro não chegava às pessoas. Quando nós criamos o Bolsa Família a coisa mais sagrada que nós fizemos foi o cadastramento das pessoas. O cadastramento que hoje o cidadão recebe e o presidente da República não sabe se você recebe, se é o Franklin que recebe, por quê? Porque você tem o seu cartão magnético, você vai ao caixa da Caixa Econômica, retira o seu dinheiro e não deve favor a ninguém. É libertar as políticas sociais do favor que as pessoas ficam devendo a quem faz política social. Eu acho que quanto mais forte for a prefeitura, quanto mais recursos tiver a prefeitura, mais coisas boas vão acontecer nas cidades. Eu tenho essa convicção. Acabou aquele conceito de que o dinheiro todo tem que ficar na Federação e os prefeitos têm que pedir, quase mendigando ao governo federal, que dê algumas coisas. Nós já demos muitas coisas aos prefeitos e eu acho que ainda estamos longe de atingir a perfeição de uma boa relação entre os entes federados. Mas qualquer prefeito vai dizer para você que no nosso governo houve uma evolução, não apenas na relação, mas na distribuição da fatia do dinheiro público brasileiro.

APJ - A exemplo do ITR, há espaço para o IPVA, por exemplo?
Lula - Veja, há espaço para tudo. Há espaço para tudo. O que é importante é que... Essa pauta do IPVA deve vir muito forte na Marcha dos Prefeitos, que eu não sei se vai ser em março ou em abril. E de qualquer forma, o que acontece? Eles apresentam para nós a pauta de reivindicação, nós temos um ano para estudar essa pauta, para conversar com quem de direito e aí, no ano seguinte, a gente apresenta a resposta. Eu acho que o IPVA deve vir com muita força agora. Vocês sabem que o IPVA vai ter uma peleja com os governadores, nós vamos ter convencê-los da importância de contribuir. Quando nós passamos o transporte escolar diretamente para a prefeitura, quando nós reforçamos a merenda escolar, quando nós aumentamos o Fundo de Participação dos Municípios, o ISS, tudo isso é um pouquinho mais de dinheiro, a legalização das empresas com o programa do Super Simples, na verdade, você vai colocando mais dinheiro na cidade.
E o que tem acontecido? As cidades estão melhorando. O prefeito tem o direito de fazer uma obra. Porque, o que acontecia antes? O prefeito tomava posse, terminava o mandato e ele não fazia uma única obra na sua cidade, por quê? Ou ele não tinha dinheiro ou ele estava inadimplente, ele estava devendo alguma coisa no governo federal e não podia nem fazer convênio.
Quando nós assinamos a medida provisória negociando os 240 meses, nós sabemos que ainda tem prefeitos que nem assim vão poder pagar. Então não adianta a gente também ficar contabilizando no Tesouro uma dívida impagável. É quase como se fosse um castigo: seu filho não foi bem na prova, e em vez de ensiná-lo, você coloca ele de castigo. Não. Se depois de aprovada a medida provisória tiver prefeito que, ainda assim, não pode pagar, nós vamos ter que ver os municípios mais pobres deste país e vamos ter que fazer uma anistia, zerar as pessoas, para que as pessoas possam sobreviver dignamente. Não tem coisa mais triste do que você ter dinheiro disponível no Ministério e não ter um prefeito em condições de ser habilitado para pegar aquele dinheiro.
Então, nós queremos, definitivamente, que as prefeituras ganhem cada vez mais autonomia, ganhem cada vez mais condições financeiras porque, eu tenho certeza, você pode ter uma ou outra pessoa que vai cometer desvio, mas é muito mais fácil controlar o dinheiro, estando perto do povo.

APJ - O senhor vê alguma razão da preocupação do setor agrícola para medidas pontuais em função da apreensão do mercado, tendo só como referencial que boa parte dos produtores, os de grande volume, eles fizeram investimentos com o custo das commodities elevado no ano passado. A maior preocupação agora é que vão desempenhar a sua produção na safra com um valor muito inferior. E um outro dado, essa é uma preocupação nacional: 75% dos fertilizantes são importados. Aí, uma relação direta com o mercado. O senhor vê uma preocupação direta com esse ponto específico?
Lula - Vejo. Primeiro, é importante lembrar que no ano passado o dólar também estava mais baixo. Então, hoje o aumento do dólar é um ganho adicional para os nossos exportadores de commodities. Nós temos um problema com fertilizantes, sério. E por isso nós tomamos a decisão, dentro do governo, de que nós vamos construir fábricas de fertilizantes no Brasil. Ou seja, a indústria petroquímica brasileira e a Petrobras têm a obrigação de resolver esse problema para nós. Nós já conversamos com a Petrobras, já conversamos com o setor e vamos começar a produzir, sobretudo a matéria... o fertilizante hidrogenado, que é a uréia, que precisa de gás. E estamos tentando fazer parcerias com países como o Peru, que tem muito gás, para que a gente possa produzir aqui na América do Sul fertilizantes para atender ao mercado e a gente não ficar importando da Ucrânia, da Rússia e da China.
Então, esse é um problema que nós temos. Normalmente, as trades que são as responsáveis pela venda de fertilizantes vendem caro na época da produção e depois não barateiam, ou seja, mesmo o preço caindo elas não baixam o preço. Por isso que a gente não pode ficar dependendo de uma coisa tão importante, como fertilizantes. Nós vamos ter que produzir aqui o potássio, vamos ter que produzir a uréia.
Nós temos algumas minas importantes. Nós tínhamos uma mina na Amazônia que a Petrobras tinha vendido, nós fizemos a Petrobras desfazer a venda, porque não tem sentido vender uma mina de fertilizantes no coração da Amazônia.

APJ - A Petrobras, que vendia o barril a US$ 160 no ano passado, teve um aumento de 8% no diesel mais ou menos no meio do ano, no setor agrícola, e que agora a US$ 40, US$ 50, eles não tiraram essa margem, presidente. A Petrobras, na opinião dos agricultores, está querendo fazer caixa com a diferença de...
Lula - Vamos atentar bem, porque as pessoas costumam chorar demais. A Petrobras, quando nós discutimos o plano de investimento da Petrobras, em que imaginou investir US$ 112 bilhões até 2010, e agora passou a um novo programa de US$ 174 bilhões até 2013, o preço do petróleo do primeiro programa da Petrobras de US$ 112 bilhões era calculado em US$ 35 o barril. Portanto, obviamente que para a Petrobras ou para uma empresa de petróleo qualquer, se o petróleo chegasse a 200, seria ótimo.
A verdade é que, nos cálculos deles, se o preço estiver a US$ 40, eles estão ganhando dinheiro. Eu acho que o petróleo não volta mais a US$ 150, mas também pode não ficar em 40, pode voltar a subir, a 50, 60, o que é um preço extremamente razoável. E nós...
O Brasil tem em mente que a partir do mês de abril nós vamos começar a explorar o poço de Tupi, durante uns 10 meses, 1 ano, nós vamos explorar em fase experimental para ir adequando novas tecnologias. Eu espero que o Brasil entre no mercado dos países exportadores não de petróleo, eu quero que o Brasil exporte derivados. Daí porque nós tomamos a decisão de fazer três novas refinarias: uma no Rio Grande do Norte, uma no Ceará e uma no Maranhão, fora a de Pernambuco que está sendo feita em parceria com a Venezuela. O Brasil há 20 anos não fazia uma refinaria neste país. Nós vamos fazer para quê? Para a gente exportar óleo diesel de qualidade e exportar gasolina de qualidade.

APJ - Não é justa essa chiadeira do diesel em função de estar bem mais barato o preço do petróleo? Também em função do panorama da crise é o setor agrícola que está gritando em relação a essa choradeira da diferença dos US$ 160 do ano passado para os...
Lula- Mas as pessoas têm que lembrar que nós aumentamos muito menos o combustível. Eu vou dar um exemplo para vocês: o gás de cozinha, a Petrobras não aumentou desde que eu tomei posse. Ele aumenta na distribuidora, mas o preço que a Petrobras vende não aumentou desde que eu tomei posse.
Você vai analisar que os combustíveis subiram muito menos do que qualquer coisa. Obviamente que se o preço continua estável, fica parado nos 40, e a gente constatar que é possível mexer, não tenha dúvida de que nós mexeremos. O que é importante é que gente primeiro tenha noção do que vai acontecer com o preço do petróleo. Não é o Brasil que determina o preço. O mundo desenvolvido, na verdade, é que determina o preço. Ele chegou a 150 no ano passado porque o mercado futuro determinou um preço. Por isso, parte dessa quebradeira se deve à especulação do mercado futuro, e eu acho que no Brasil...
Eu aprendi uma coisa. Eu, quando era mais novo, eu tinha muito aquele negócio de achar que era tudo ou nada. Você vai ficando velho, o cabelo vai ficando branco, e você percebe que entre o tudo ou nada tem uma quantidade enorme de degraus para você pisar até encontrar um ponto de equilíbrio. E hoje eu sou muito mais um equilibrista do que um defensor da tese do tudo ou nada. Eu sempre tento procurar o ponto de equilíbrio. Eu, nas minhas decisões econômicas, não ouço apenas uma pessoa, ouço muitas pessoas. Nas minhas decisões políticas, eu não ouço apenas uma pessoa porque, senão, vem uma pessoa para te fazer a cabeça, conta apenas o que ele está pensando e você não ouve o outro lado, a tendência é você tomar uma decisão precipitada. Então, eu sempre prefiro ouvir duas, três pessoas sobre o mesmo assunto para poder formar o meu juízo.

APJ - Só para aproveitar a situação da Petrobras, com o dólar nesse patamar, se ele se estabilizar nesse patamar... o senhor mesmo reconhece que é uma questão de mercado, que não deve voltar aos valores do ano passado. A situação de investimento, pensando para o horizonte, em relação ao pré-sal, tende a ser mais ponderada?
Lula - Não. Nós não tiraremos um centavo. E todo o preço da Petrobras é calculado em dólar. Então, anote aí: o investimento da Petrobras é de US$ 174 bilhões até 2013. Qual foi a briga que eu tive com a Petrobras? Ela queria mudar a programação dela para 2017. Eu disse para eles: primeiro, eu não sei se vou estar vivo em 2017; segundo, em 2011 eu já não sou o presidente da República, então a decisão é agora.
E por que agora? Porque é exatamente nesse momento da crise que eu quero que a Petrobras contribua para a geração de empregos, por isso que eu quero fazer as refinarias. Se você começar ainda este ano a fazer terraplanagem, até você tirar licença-prévia, arrumar um terreno com os governadores e começar o processo de construção, leva dois anos. Então, precisa começar agora.
Nós não mudaremos. Aliás, eu vou lhe dizer uma coisa: eu pedi para que o presidente do BNDES me trouxesse os 100 maiores projetos de investimentos da iniciativa privada no Brasil. Até agora nenhum desistiu. Vocês estão percebendo o dinheiro que tem no BNDES. Ou seja, o BNDES pode emprestar no ano que vem, se quiser, R$ 168 bilhões, o que jamais foi imaginado o BNDES investir na vida. Eu acho que nós vivemos um momento em que a única coisa que falta é a gente não permitir que as pessoas percam a confiança.
Quando eu fui para a televisão, no dia 22 de dezembro, fazer publicidade para o povo comprar - não sei se vocês compraram alguma coisa - é porque a economia tem uma lógica. Aliás, eu vi o Obama dizer a mesma coisa em um pronunciamento. Ou seja, se as pessoas ficarem com medo, se você não comprar o sapato que você quer comprar, a meia que você quer comprar, a gravata que você quer comprar, se todo mundo pensar em parar de comprar, aí a economia para. É o momento de cada um perceber a contribuição que dá para o crescimento da economia.
Na hora que tem fartura de produtos, na hora que tem fartura de dinheiro, é fácil. Agora, no momento em que o crédito desaparece, mas as pessoas ainda estão recebendo o seu salário, é importante que as pessoas imaginem o seguinte: bom, se eu parar a minha atividade de comprar alguma coisa e colocar o dinheiro embaixo do colchão, aí eu vou contribuir para quê? Para a economia ficar atrofiada.

APJ - O senhor falou a respeito do crédito do BNDES, da pujança do BNDES em socorrer diversos segmentos produtivos. O governo já agiu no setor automotivo. O senhor acha possível estender esse socorro para outros pólos produtivos, o pólo têxtil, calçadista, aeronáutico? Existe uma crítica desses segmentos de por que o setor automotivo tenha sido privilegiado...
Lula - Deixe-me falar uma coisa: o setor automotivo, por uma razão. A indústria automobilística tem uma participação de 24,5% no PIB industrial brasileiro. Não é apenas a fábrica que produz o carro, é a loja que vende, é o mecânico, é o borracheiro, é o posto de gasolina. Então, quando nós atendemos a indústria automobilística, nós tomamos três decisões importantes: primeiro, garantir que a indústria automobilística continuasse produzindo, e para isso era preciso resolver o problema de crédito para vender o carro, porque os bancos pequenos pararam de financiar carros. Nós tomamos a decisão de comprar a Nossa Caixa, em São Paulo, e tomamos a decisão de comprar metade do Banco Votorantim exatamente para que a gente, através do Banco do Brasil, possa manter a carteira de carros em dia e possa, inclusive, financiar carro usado. Você sabe que a classe média brasileira, sobretudo a classe média média e a classe média baixa, se não vender o carrinho do ano passado, não compra o carrinho do ano que vem. Então, é preciso que tenha financiamento.
O Banco Votorantim era um banco que tinha uma carteira de R$ 90 bilhões de financiamento de carro usado. Na hora que ele para, parou o mercado de carro usado. Então, nós entramos exatamente para garantir.
Ao mesmo tempo, nós tomamos uma decisão de capital de giro para a pequena e média empresa brasileira. Vocês sabem que nós já disponibilizamos mais de R$ 100 bilhões do compulsório para fazer o crédito fluir. E, ao mesmo tempo, nós agora acabamos, com uma medida do Banco Central, de disponibilizar US$ 36 bilhões para garantir o financiamento de empresas brasileiras que têm dívida em dólar, para garantir os créditos da Petrobras e de outras empresas que têm projetos em dólar, para construir coisas no Brasil.
Nós tivemos um problema que ainda não conseguimos resolver. Como 30% do crédito brasileiro, 30% de todo o crédito no mercado interno era crédito feito em dólar, grandes empresas que tomavam dinheiro em dólar, como a Petrobras, por exemplo, na hora que seca o mercado de dólar, esses 30% vêm para dentro do Brasil. Então, aconteceu o seguinte: você tem mais gente procurando empréstimo. Os bancos, além de ficarem mais seletivos, começaram a cobrar uma taxa de spread muito maior.

APJ - O spread pode baixar?
Lula - Eu constituí um grupo de trabalho entre o Tesouro e o Banco Central, o prazo vence amanhã [quinta-feira], certamente eles vão pedir mais uns dias para mim, que nós precisamos resolver o problema do spread bancário no Brasil. Não é possível que num momento de crise como esse, em vez de as pessoas fazerem fluir mais dinheiro na praça, para o povo poder consumir mais, as pessoas se retranquem, não é possível. Então, isso nós estamos vendo com muito carinho, porque esse eu acho que é o grande problema.
O segundo problema é que eu estou... Vocês nem imaginam o quanto eu rezo para o Obama. Eu estou rezando para o Obama mais do que rezei para mim. Por quê? Porque como a economia americana tem uma incidência na economia do mundo inteiro, e alguns parceiros nossos dependem muito dos Estados Unidos, como a China, por exemplo, nós queremos que a economia americana se recupere logo, para que a economia vá voltando à normalidade. O mundo inteiro pode se recuperar, mas se os americanos não se recuperarem nós teremos problema, afinal de contas o buraco é lá. O chamado "buraco negro", que todo mundo fica procurando, está exatamente na economia americana. Hoje se fala que o rombo talvez seja de US$ 4 trilhões. É uma quantia tão grande que a minha cabeça não consegue imaginar o que significam US$ 4 trilhões.
Então, eu estou torcendo para o Obama acertar. Estou torcendo para o Obama... Não é nem resolver o problema logo, mas se estancar... E qual é o grande problema nos Estados Unidos? É, primeiro, restabelecer a confiança na sociedade. E, junto com o restabelecimento da confiança, resolver o problema da dívida das pessoas.
Imaginem o que aconteceu nos Estados Unidos: eu comprei uma casa por R$ 300 mil, o mercado valorizou essa casa para 600. Lá, o hábito de crédito é de que eu poderia tomar emprestado a diferença entre o valor real e o valor de mercado, eu tomei mais US$ 300 mil emprestado e aí a minha casa não vale nem 600 e nem 300, vale 200. Ou seja, eu estou pendurado numa dívida por conta de um patrimônio que eu tinha e que não tenho mais esse patrimônio. Então, ou resolve esse negócio ou não resolve mais nada.
Então, eu penso que essa é a preocupação do presidente Obama, e eu acho que ele sabe que tem que tomar medidas rápidas para que a gente não veja as coisas piorarem.

APJ - Vamos voltar para o setor automotivo. Embora tenha havido essa irrigação do crédito para o consumo, algumas montadoras promoveram demissões, é o caso da GM lá de São José dos Campos, que demitiu e está colocando funcionários em férias coletivas subsequentemente. Existe alguma maneira de condicionar esse apoio à manutenção do emprego?
Lula - Eu disse ontem, em uma reunião que eu fiz com empresários, que quem mandou gente embora foi precipitado. Eu intuí isso porque no domingo... eu vou contar a história para vocês. No domingo eu fui em um bairro lá em São Bernardo visitar um sobrinho meu, filho da minha irmã. Eu fui visitar a minha irmã, mas ela estava internada, eu vi o meu sobrinho. O meu sobrinho tem um caminhão, ele transporta postes para o Rio de Janeiro, para Porto Alegre, para sei lá... e esse meu sobrinho, depois... o pai dele, antes de morrer, era o dono do caminhão e ele tinha outro. Hoje está com dois caminhões. Ele não conseguia muita carga, tempos difíceis. Ele me disse que no ano passado ele ganhou mais dinheiro do que ele jamais imaginou ganhar na vida, transportando postes, e que este ano a situação não estava muito boa. Mas ele falou assim: "Tio, eu não vou mandar o motorista embora porque eu estou capitalizado. O que eu ganhei no ano passado dá para eu segurar um pouco".
Os empresários deveriam pensar assim, porque os empresários brasileiros nunca foram tão capitalizados como foram em 2007 e em 2008. Ganharam dinheiro como nunca. Eu conheço empresa que tem 15 bilhões em caixa e mandou gente embora. Ora, então não é justo que no primeiro refrega que a empresa tem... Primeiro, pega o dinheiro daqui para salvar as suas matrizes que quebraram na Europa. Segundo, mandar trabalhadores embora, todas elas poderiam. A folha de pagamentos é o custo menor na produção de um carro ou de uma coisa qualquer. Então, eu disse para os empresários: eu acho que foi exagero de vocês, não é justo que façam isso com os trabalhadores, porque se você começa a ter muito desemprego, você tem menos salários, menos renda, menos poder de compra, mais atrofia a economia outra vez.
Nós, então, tomamos uma decisão: cada empréstimo que a gente fizer, em dinheiro público, nós vamos ter que vincular à manutenção dos postos de trabalho. Não tem sentido eu dar dinheiro para o Franklin Martins para capital de giro, e ele pega e manda os trabalhadores embora para pagar indenização com o meu dinheiro.

APJ - Faltou essa exigência do compulsório?
Lula- No compulsório, depois que foi feito, nós colocamos isso, tanto é que a GM se comprometeu a pagar o salário até março, das pessoas, porque eram também trabalhadores contratados com contrato temporário. Mas isso tem que ter uma vinculação e eu acho que é uma questão da responsabilidade do governo, dos empresários.

APJ - Mas como vai ser formalizado isso? Qual o formato desse condicionamento?
Lula - Na hora em que você for emprestar o dinheiro, você condiciona para colocar no contrato.
Deixem-me dizer para vocês. O que nós estamos fazendo no governo federal? Eu reuni todos os ministros de infraestrutura: o ministro Alfredo Nascimento, o ministro Geddel, o ministro Márcio Fortes e a companheira Dilma e coloquei o seguinte: agora todos os contratos que a gente for fazer com empresas em obras do PAC, nós temos que conversar com os empresários para que eles possam fazer dois turnos ou três turnos. Ou seja, se vai fazer uma estrada, em vez de trabalhar das 7h às 5h ou das 8h às 6h, vamos trabalhar em dois turnos, das 6h às 2h e das 2h às 10h, vamos trabalhar 24 horas por dia. Por quê? Este é o ano em que nós precisamos não permitir que haja muito desemprego. Por isso é que nós vamos, então, exigir que as empresas, junto conosco, assumam o compromisso de colocar... Vai construir casas em um bairro, até 10h você pode fazer um barulhinho, depois das 10h você não pode mais. Então, que se trabalhe até 10h da noite, mas que se contrate uma turma a mais. Não é para fazer hora extra, não, é para contratar outra turma.
Eu penso que se houver juízo do governo, juízo dos empresários, juízo dos trabalhadores, a gente vai encontrar uma forma de não permitir que outra vez os trabalhadores sejam vítimas, primeiro, de uma crise que eles não têm nenhuma culpa.

APJ - Por essa lógica, a gente pode entender que o senhor reprova qualquer tipo de flexibilização de jornada ou de salário, como vem sendo cogitado por alguns setores?
Lula - Deixe-me dizer uma coisa. Esse é um assunto velho no movimento sindical, e os sindicatos, individualmente, têm feito acordos. Eu sou de uma categoria... Eu sou da categoria mais organizada do Brasil e, em momentos de crises outras, o sindicato fez acordo, o sindicato fez compensação de horas, o sindicato fez redução. Depende do momento. O que nós achamos é que se os empresários se sentarem com os trabalhadores em torno de uma mesa, nem é tudo o que os empresários querem, nem é tudo o que os trabalhadores querem. Ou seja, é exatamente um denominador comum que possa dar tranquilidade aos dois lados. Eu acho que há um espaço de negociação, eu estou acompanhando pelos jornais, a CUT está negociando, a Força Sindical está negociando. Daqui a pouco eles se compõem e todas as centrais sindicais, então, vão se reunir com os empresários e vão estabelecer um acordo. Eu estou convencido disso. Agora, eu trabalho para que a crise acabe o mais rápido possível, e para que ela não chegue ao Brasil com a força que chegou aos Estados Unidos.

APJ- Uma questão de interesse de todo o Estado de São Paulo, dos 18 milhões de hectares do Estado, 10 milhões são de pasto, 5 milhões são de cana, mas a preocupação maior, a grita que vai na agricultura familiar, que vai nos grandes produtores, é que para a questão da reserva legal dos 20%, que é a discussão, qual seria o critério, isso significaria reduzir, no tempo, 3,4 milhões de hectares de área agricultável no estado de São Paulo, ou de produção. É uma questão da definição de quanto tem que deixar de mata para cada tipo de propriedade, tipo de uso.
Lula - Isso é mais fácil onde já tem a mata. Tentar reverter isso onde as coisas...
Nós, agora, estamos muito preocupados em recuperar as terras degradadas. Tem quase 60 milhões de hectares de terras degradadas no País e nós queremos, então, plantar cana nessa terra, se for possível, plantar dendê onde for possível, para que a gente possa recuperar. Na verdade, o Brasil é um país privilegiado. Nós, hoje, não precisaríamos derrubar uma única árvore para plantar nada. É só a gente utilizar melhor o que já tem.

APJ - Presidente, na questão ambiental, os recentes cortes no orçamento acabaram atingindo o MCT e o Inpe, que é um instituto que faz monitoramentos. O diretor está pleiteando a inclusão do projeto estratégico de monitoramento da Amazônia no PAC da Ciência. O senhor acha possível ajustar o orçamento?
Lula - Eu acho. Se ele convencer o Sergio Rezende, é possível. O corte no orçamento, também... Vamos ter em conta o seguinte: a gente faz corte no orçamento todo começo de ano. Se a arrecadação não se recuperar, vai ser contingenciado mesmo, mas a gente está sempre na perspectiva de que a gente possa recuperar e poder cumprir o orçamento como um todo. Se o companheiro do Inpe acha que é importante, é só propor uma discussão com o Sergio Rezende, que haverá sensibilidade para ver qual é o programa que é prioritário e qual aquele que pode esperar um pouco mais. E essa questão ambiental, agora, vai ganhar uma dimensão muito grande, porque se os Estados Unidos mudarem de posição e virarem mais ambientalistas, nós teremos muito mais trabalho e muito mais parcerias para construir.
Fábio Zambeli e Nélson Gonçalves
Da Associação Paulista de Jornais