Edição: 09/03/2008
Entrevista: Miguel Jorge

 

 

Entrevista - Miguel Jorge
Pacote federal socorre pólos industriais de SP
O governo federal prepara um pacote de medidas para incrementar a atividade produtiva em 25 segmentos e socorrer setores da indústria paulista fragilizados com a concorrência externa por meio da facilitação de crédito para modernização dos parques fabris.

A informação é do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, em entrevista exclusiva concedida à Associação Paulista de Jornais (APJ).

O conjunto de ações oficiais pró-indústria está materializado no projeto da ‘política industrial’, encaminhado por Miguel Jorge ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e que aguarda a votação do Orçamento para ser anunciado e mensurado em termos de montante de recursos.
“O principal é você procurar modernizar e fazer com que estes pólos sejam mais produtivos e eficientes. Com a facilitação de compra de equipamentos, financiamentos. É preciso modernizar esta indústria. Você não conseguirá competir no mercado internacional se não tiver produtividade e preço. Você não vai conseguir preço se não tiver produtividade”, diz o ministro.

Entre os segmentos contemplados pelo pacote estão o automotivo, o calçadista, o têxtil e o aeronáutico. Além de impulsionar as exportações e abrir novas linhas de financiamento, o ministério planeja aumentar o índice de nacionalização de peças e fornecedores.
Miguel Jorge, 62 anos, aposta ainda na superação de divergências ideológicas entre PT e PSDB para desenvolver uma estratégia conjunta de estímulo aos Arranjos Produtivos Locais e Parques Tecnológicos, envolvendo a União e o governo estadual. “Temos nos reunido com o secretário Goldman [Alberto, Desenvolvimento] e com o adjunto Luciano [de Almeida]. É você fazer que a parceria funcione dos dois lados. Se o Estado desenvolve, nós temos ferramentas para ajudar.”

Egresso da iniciativa privada, onde consolidou sua carreira como alto executivo do Banco Santander e da Volkswagen, o jornalista Miguel Jorge acredita que os resultados da economia ajudaram o empresariado a superar a desconfiança com o governo Lula.
O ministro, prestes a completar um ano no cargo, defende a condição do presidente petista de ‘caixeiro-viajante’, difundindo os produtos nacionais em novos mercados, especialmente o etanol.

“Tenho viajado com o presidente para o exterior. E ele é mesmo um caixeiro-viajante. E acho que é o papel de um presidente mesmo. Ele tenta vender, ela fala dos produtos. No caso do etanol, por exemplo, ele é um embaixador do etanol no mundo todo.”
Associação Paulista de Jornais - Quais medidas da nova política industrial, apresentada pelo senhor ao presidente Lula, contemplarão os pólos produtivos do Estado de São Paulo, especialmente os mais fragilizados pela competição externa e pelos elevados custos de produção?
Miguel Jorge - No caso dos pólos em dificuldades, como o de tecidos, o de calçados, já foram tomadas medidas especiais. E na política industrial, se aprofunda um pouco isso e se tentará uma coordenação maior dos vários órgãos de governo envolvidos na questão.
APJ - Como seria esta ação coordenada?
Miguel Jorge - O principal é você procurar modernizar e fazer com que estes pólos sejam mais produtivos e eficientes. Com a facilitação de compra de equipamentos, financiamentos. É preciso modernizar esta indústria. Você não conseguirá competir no mercado internacional se não tiver produtividade e preço. Você não vai conseguir preço se não tiver produtividade. No caso dos calçados, por exemplo, como o processo já começou há um ano, já se percebe uma mudança de tendência. O último relatório da Abicalçados mostra que os calçados não só aumentaram as exportações, 3,5%, mas aumentaram especialmente o preço da unidade vendida. Em valor, 7% do valor exportado. Isso significa o que? Que o pólo calçadista está vendendo um produto de maior valor agregado. Sempre digo que não conseguiremos concorrer com os chineses em produtos de US$ 2, por exemplo, pois eles têm uma quantidade enorme de mão-de-obra, com salários muito aviltados para os nossos padrões, de US$ 40 por mês. E também porque eles têm um sistema de trabalho que é incompatível com as regras daqui. Não conseguiremos concorrer com quem trabalha seis dias por semana, sem hora-extra, sem férias, sem décimo terceiro, sem proteção social. Nós temos que nos diferenciar nos produtos que fazemos.

APJ - Quando se fala em 25 segmentos que seriam contemplados nesta nova política industrial, incluem-se aí quais setores especificamente?
Miguel Jorge - Já existe um mapeamento. No caso de São Paulo, a indústria automobilística, por exemplo. Tem uma forte concentração em São Paulo. Apesar da desconcentração nos últimos anos. Não só com relação às montadoras, com as autopeças. Tem autopeças no interior, em Araraquara, Campinas, Grande ABC. No caso da indústria automobilística, o salto tem que ser dado. Um passo adiante. O Brasil produziu este mês, pela primeira vez desde que a indústria está aqui, em 50 anos, três milhões de veículos. Um pouquinho mais, com a produção anualizada, de janeiro a janeiro. A capacidade instalada está no máximo. Ela é de três milhões e meio. As fábricas de caminhões e ônibus, especialmente, estão trabalhando sábado, domingo, para atender o mercado. E, mesmo assim, especialmente os pesados têm espera de quatro, cinco ou até seis meses. Isso não só pelo fato de que não conseguem produzir mais como também auxiliado pelo crescimento da agricultura, já que estes caminhões são usados para o escoamento da safra.

APJ - Em que sentido se daria este salto? O governo tem condições de interferir para aumentar esta capacidade?
Miguel Jorge - Nós queremos, com a política industrial, chegar a 2010 com a capacidade instalada de cinco milhões de veículos. Que é o que consideramos um número importante para que você possa ser competitivo e possa enfrentar os países que estão entrando pesado na produção de automóveis, como a China, a Índia.

APJ - E em outros pólos industriais?
Miguel Jorge - Você tem o caso do parque aeronáutico. Queremos também fazer com que haja um novo salto. Novos fornecedores fazendo com que haja maior produção de peças no mercado interno e não importados. No caso dos helicópteros, por exemplo, temos um plano de produzir novos helicópteros no Brasil, mas também fazer com que os índices de nacionalização, que são baixos, aumentem com a promoção de novos fornecedores no país.

APJ – Neste mapeamento tem se descoberto algum tipo de nova vocação?
Miguel Jorge - O caso, por exemplo, dos equipamentos médicos. A idéia é fazer com que a política de compras do governo possa alavancar a criação de novos parques tecnológicos. O Brasil é um grande importador de aparelhos de hemodiálise, nós não fabricamos aqui. Ou mesmo um raio X de última geração. Estamos em negociação com estes fabricantes, que são hoje exportadores para o Brasil, para que eles venham produzir aqui e possamos ter uma plataforma de exportação para a América Latina.

APJ - Como o senhor observa esta espécie de leilão da indústria automotiva por regiões de custo inferior de produção? De alguma forma esse tipo de movimento pode implicar perda ou flexibilização de direitos dos trabalhadores do setor?
Miguel Jorge - Eu acho que é irreversível. Não é um processo novo. É um processo de desconcentração que começou com a Volks, com a fábrica de Resende, de caminhões e ônibus. Isso se deve a vários fatores, não apenas à questão salarial. Tinha a questão de logística, havia uma concentração muito grande em São Paulo. Já havia na época uma previsão de um mercado livre para o Mercosul. A GM, por exemplo, foi para Gravataí (RS) pensando na liberalização do comércio entre Brasil e Argentina. Além disso você tinha a questão salarial. A Fiat, em Belo Horizonte, já paga salários menores que os pagos em São Paulo. Os salários têm um peso razoável na formação de custo do produto. Se você tiver em região onde o salário é menor, você terá um custo menor e, portanto, ficará mais competitivo.

APJ – Entre os Estados, a disputa ocorre mais no aspecto fiscal...
Miguel Jorge - Este processo todo da disputa entre os Estados ocorreu no âmbito da guerra fiscal, que agora a gente pretende mexer com a proposta de Reforma Tributária, que foi para o Congresso na semana passada. Você tenta resolver a questão do ICMS, dos benefícios fiscais dados pelos Estados. Agora, as novas empresas sempre procurarão vantagens competitivas para se instalar. Acho difícil, por exemplo, que uma indústria, a não ser que tenha especificidades muito fortes, se instale em área de alta concentração industrial. Porque há dificuldade logística, de qualificação de mão-de-obra. A tendência, que é salutar, é ter uma desconcentração industrial no país.

APJ - Até que ponto a ascensão do presidente Lula ao governo contribuiu para o distensionamento das relações entre classe patronal e os trabalhadores, representados por seus sindicatos?
Miguel Jorge - Eu diria que contribuiu, mas não pela origem sindicalista do presidente Lula. O distensionamento ocorreu muito mais pelo processo de desenvolvimento econômico que se deu nos anos do governo Lula. O tensionamento sindical se dá nas fases de recessão. Se você perceber o que aconteceu nos últimos anos... Nós estamos no vigésimo terceiro trimestre consecutivo de crescimento da economia. Isso significa alguns anos de crescimento. As negociações entre os setores empresariais e os sindicatos estão se dando num clima totalmente diferente. Porque como as empresas estão ganhando, fica mais fácil negociar e dar aumento real para os trabalhadores. Em todos os setores da economia as negociações sindicais estão levando a ganhos acima da inflação para os trabalhadores.

APJ - Inclusive no setor automotivo?
Miguel Jorge - No caso da indústria automobilística, por exemplo, o último acordo foi considerado um dos melhores. Por que? Porque a indústria automobilística está batendo recorde em cima de recorde. Ela está tendo lucro. Se está tendo lucro, ela pode dar reajuste real. A massa salarial industrial teve um crescimento muito grande. Não há muita razão para que você tenha a tensão. Ela se dá quando o trabalhador não conseguia repor nem as perdas da inflação. O que significava que ele perdia poder de compra a cada ano. Neste crescimento, há uma parceria entre o setor produtivo e os sindicatos, fazendo com que os ganhos da indústria se transfiram, em parte, para os trabalhadores. Então este distensionamento tem muito mais relação com o crescimento do que com a origem sindical do presidente.

APJ - E esta lógica se aplica também à desconfiança do empresariado em relação ao presidente, que hoje quase desapareceu?
Miguel Jorge - Você pode ver isso em dois ponto-de-vista. Do ponto-de-vista dos trabalhadores, que poderiam imaginar que a vitória do presidente Lula fosse transformar o Brasil em um paraíso proletário, dos operários. E ia acontecer o que? O presidente influenciaria nas políticas relacionadas ao trabalhador de uma maneira invasiva. Ao mesmo tempo, os empresários imaginavam, pelas relações do presidente com economistas mais à esquerda, que ele seria um presidente populista da pior espécie. Um populista de esquerda. E o presidente mostrou que não era nem uma coisa nem outra. Não seria presidente dos sonhos dos trabalhadores, embora os ajudasse na medida em que estimulasse a produção, e também não foi o presidente dos pesadelos dos empresários. Porque ele sabia que só um país estável, em que você tivesse política fiscal correta, controle de inflação, era que poderia crescer e fazer com que os empresários ganhassem. Com os empresários ganhando, os trabalhadores também ganham.
O presidente insiste muito em seus discursos. Ele diz que quer que as empresas continuem ganhando dinheiro, que os bancos continuem ganhando dinheiro. Porque isso significa que o país está em um bom caminho. As empresas perdendo dinheiro fariam com que os trabalhadores também perdessem dinheiro.

APJ - O texto da Reforma Tributária, que o senhor reconhece não ser a ideal, mas a possível, conseguirá desonerar a produção?
Miguel Jorge - O presidente na semana passada se reuniu com mais de 100 representantes do empresariado em âmbito nacional. Eu fiquei impressionado porque houve uma unanimidade, uma aceitação muito grande da proposta. Embora, com algumas ressalvas, em que diziam que é preciso avançar mais, que seria uma proposta tímida, todos foram a favor desta reforma. Não houve nenhum empresário que tenha dito que a reforma não é boa. Todos foram unânimes em dizer que deveria ser aprovada o mais rápido possível. E que deveria avançar

APJ - Ela desonera a folha de forma satisfatória?
Miguel Jorge - Com relação à folha, ela desonera, tira vários custos embutidos na folha. Isso certamente ajudará na geração de empregos, que é uma das propostas da reforma.

APJ - E as reformas trabalhista e sindical, que também são clamores do setor produtivo, ainda estão na pauta para este governo?
Miguel Jorge - Elas virão. O primeiro passo, realmente, é a reforma tributária que está sendo encaminhada. Mas as reformas política, sindical, trabalhista, elas todas deverão vir. O que nós não podemos é fazer uma reforma ampla, geral e irrestrita. Porque os interesses são muitos. No caso das outras reformas também. Nós não podemos mandar ao Congresso quatro reformas de uma só vez porque no fim nenhuma delas passaria. Vamos com calma, aos poucos. O fato de a reforma tributária, que há um consenso nacional em relação à necessidade dela. É mais ou menos como em qualquer tipo de negociação. Você começa a negociar com os pontos mais fáceis. Comecemos pelos pontos em que todos concordam e depois vamos avançando para os pontos mais difíceis.

APJ - O presidente Lula sempre diz que age como uma espécie de 'caixeiro-viajante' difundindo os produtos brasileiros internacionalmente. Em que medida o governo tem este papel e atua neste sentido?
Miguel Jorge - O presidente tem toda a razão quando ele diz e faz isso. E ele tem feito isso. Tenho viajado com o presidente para o exterior. E ele é mesmo um caixeiro-viajante. E acho que é o papel de um presidente mesmo. Ele tenta vender, ela fala dos produtos. No caso do etanol, por exemplo, ele é um embaixador do etanol no mundo todo.
E não há nenhum desmerecimento em torno disso. Eu me lembro, por exemplo, que a Rainha Elizabeth veio ao Brasil para vender aviões britânicos. Depois o príncipe Philip voltou ao Brasil para vender aviões. Isso acontece com frequência. Ministros, presidentes fazem isso com frequência. Eu me lembro que o presidente Itamar Franco numa conversa no Palácio me dizia que estava impressionado com o fato de o presidente Bill Clinton ter telefonado pessoalmente para ele para dizer que estava interessado em que o Brasil, por meio do Sivam, analisasse com profundidade a proposta da Raytheon para fornecer equipamentos. Dizia o presidente Clinton que aquela medida geraria 20 mil, 30 mil empregos nos Estados Unidos. Por que? O presidente, ao fazer a venda dos aviões da Embraer, não está preocupado com o produto, mas com quem está por trás do produto, com quem faz o produto. Eu acho que ele está absolutamente certo. O ministro das Relações Exteriores tem feito este papel, o ministro do Desenvolvimento, obviamente, tem que fazer isso.

APJ - E este processo é contínuo...
Miguel Jorge - Sim, tanto que agora no fim do mês iremos para a Índia com uma missão de empresários. Depois iremos diretamente para a Colômbia com outra missão. Nós já estivemos recentemente na Venezuela com mais 130 empresas que fizeram negócios lá. E há outras missões para países árabes e da Europa. Nós temos que vender o máximo possível. Acho que todo ministro deveria ser caixeiro-viajante. Todo ministro deveria fazer discurso em favor do produto brasileiro lá fora.

APJ – E qual o papel do BNDES no fomento às exportações, principalmente quanto à Embraer?
Miguel Jorge - Nestes últimos anos o BNDES ficou fora dos financiamentos da Embraer. Neste momento estamos discutindo a volta do BNDES. Houve uma questão polêmica sobre os financiamentos da Embraer por causa da Bombardier. Como estas questões estão hoje resolvidas, o BNDES pode voltar. O BNDES tem que assumir o papel fundamental de financiamento. Nós temos que estar neste jogo e concorrer com países até mais fortes que o Brasil comercialmente. Se estes países, como o Japão, por exemplo, têm bancos de fomento, por que nós não usaremos um dos maiores bancos de fomento do mundo? Vamos aprofundar este papel.

APJ – Os fundamentos da macroeconomia parecem dificultar a balança comercial. O senhor concorda?
Miguel Jorge - O câmbio tem favorecido as importações de máquinas e bens de capital para o Brasil.

APJ - O suficiente para modernizar o parque fabril brasileiro?
Miguel Jorge - Pode não ser suficiente, mas é fundamental. Cerca de 70% das importações têm sido de máquinas, equipamentos e bens de capital, insumos para escritórios, computadores de grande porte, por exemplo. Empresas estão importando máquinas de última geração para produzir com mais qualidade. Na semana passada, um presidente de uma importante indústria têxtil que exporta para a Inglaterra me dizia que já conseguiu trocar todos os teares dele por teares mais modernos, e isso ia garantir mais eficiência, mais qualidade e melhores condições de competir. Acho que o importante é que as importações não estão se concentrando nos bens do consumo. Isso vai dar um salto de produtividade. Nos últimos quatro anos aumentamos a produtividade em 20%. Sem perda de emprego, aumentando o nível de emprego. Esta equação é fundamental para que possamos modernizar nossa base industrial, que é bem diversificada.

APJ - Mas o resultados da balança comercial devem sofrer com o câmbio...
Miguel Jorge - Não há uma preocupação ainda com a balança comercial. Nós temos projeção de que ela deva reduzir este ano de US$ 40 bilhões para US$ 35 bilhões. Não é motivo de preocupação. Principalmente quando se avalia o que estamos importando. Se nós estivéssemos importando 70% de bens de consumo, deveríamos estar, aí sim, muito preocupados com a nossa balança.

APJ - Em fevereiro, os resultados desfavoráveis na última semana são reflexos de fatores conjunturais?
Miguel Jorge - Sim, fatores conjunturais. Petróleo, trigo da Argentina.

APJ - O senhor considera que os números das vendas externas não são preocupantes?
Miguel Jorge - Este mês é mais curto, não há operações no Carnaval, você só tem três semanas. Nós deveríamos esperar um pouco mais para ver como se comportam as exportações brasileiras. As análises mostram que por enquanto não há motivo de preocupação e que as exportações continuarão em um ritmo bastante bom. E que nós exportemos US$ 180 bilhões este ano. A Secretaria de Comércio Exterior continua muito confortável em relação a esta meta.

APJ - Mesmo com o real se valorizando?
Miguel Jorge - Mesmo com o real se valorizando. Aliás, esta previsão foi feita com o real valorizado.

APJ – E os Juros? O empresariado cobra o corte da taxa Selic, mas o Banco Central tem sido extremamente conservador.
Miguel Jorge – Sobre os juros, a única coisa que posso dizer, e não vou entrar nesta discussão, que é do Banco Central e do Ministério da Fazenda, é que os juros precisariam diminuir. É evidente que todo Banco Central, com esta questão das ‘subprimes’, tem que ser conservador. E o Banco Central do Brasil tem sido conservador na medida em que observa com muita atenção o que está acontecendo. Ainda não há clareza de percepção exata de como esta crise pode afetar os mercados. Acho que pode ter efeitos outros na economia.

APJ - O Ministério tem desenvolvido ações para incrementar os Arranjos Produtivos Locais?
Miguel Jorge - Nós temos feito vários, especialmente no Norte e Nordeste do país e em regiões específicas em outros Estados. Sem dúvida, o arranjo é uma ferramenta importante. Estamos trabalhando agora com a ministra Marina Silva e com o Ministério de Desenvolvimento Agrário para tentar estabelecer com as madeireiras onde tem tido este problema do corte ilegal de madeira. O nosso pessoal do Ministério participa de reunião esta semana para a gente possa estabelecer APLs nestas regiões. A emblemática que está sendo avaliada é a da Tailândia. Você tem lá um número grande de madeireiras atuando na ilegalidade e milhares de trabalhadores sem emprego. A APLs, e tem dezenas no país, com resultados muito bons, com móveis, artesanatos, são ferramentas muito boas.

APJ – Há disposição do governo Lula em dialogar com o governo Serra para dinamizar as APLs em São Paulo?
Miguel Jorge - Nós temos feito reuniões com o governo do Estado, com o secretário Alberto Goldman [Desenvolvimento] e o adjunto Luciano de Almeida, de Piracicaba. Ele já esteve no ministério e fez reuniões com nosso pessoal para que a gente possa aprofundar este relacionamento entre o Ministério do Desenvolvimento e a Secretaria de Desenvolvimento do Estado de São Paulo.

APJ - Somente nas APLs ou nos Parques Tecnológicos também?
Miguel Jorge - Parques Tecnológicos e APLs. Em todas as iniciativas do Estado de São Paulo que o ministério possa se engajar. Nós temos feitos em vários Estados. Há um fórum dos secretários. Mas, além disso, é importante este contato direto dos técnicos do ministério com os técnicos das secretarias estaduais.

APJ - Este contato seria no sentido de estabelecer programas do ministério que possam interagir com programas da secretaria?
Miguel Jorge - Ou vice-versa. Ou programas do Estado que possam interagir com o Ministério do Desenvolvimento. É você fazer que a parceria funcione dos dois lados. Se o Estado desenvolve, nós temos ferramentas para ajudar. Vamos avaliar isso, se discute. Ou se o ministério tem um programa de uma APL específica e nós precisamos colocar o governo do Estado fazendo isso junto conosco.

APJ – O Ministério tem participado de Grupos de Trabalho para criar mecanismos de desburocratização, com a eliminação de normas que travam o setor produtivo...
Miguel Jorge - Tem dois trabalhos sendo desenvolvidos. Um deles é esse, da desburocratização, principalmente para a pequena e média empresa. E estamos criando outro que trabalhará especificamente a área de exportações. É um grupo amplo, que deve se reunir na semana que vem, para que a gente possa avaliar todos os procedimentos na área infra-legal, ou seja, circulares, coisas do Executivo, que a gente possa limpar para desburocratizar mais e fazer com que as pequenas e médias empresas possam exportar. Podem ser alavancas fortes. Fizemos um acordo com o Banco do Brasil e outro com a Caixa Econômica para que sejam agentes de desenvolvimento na área de exportação. Queremos facilitar ao máximo para as empresas pequenas e médias.

APJ – O senhor tem se manifestado a favor da privatização de setores que considera ‘não-estratégicos’. Com relação aos bancos, por exemplo, a reação no próprio governo não é unânime...
Miguel Jorge - Privatização não significa você vender todos os ativos, 100% de um Banco do Brasil, por exemplo. Eu sou sócio da Petrobras e comprei as ações com meu Fundo de Garantia. A Petrobras continua sob controle do Estado e tem um grande número de acionistas minoritários. Acho, por exemplo, que se os trabalhadores pudessem usar seu FGTS para comprar ações do Banco do Brasil, da Caixa, seria importante não só para os trabalhadores, mas para os bancos, que receberiam uma alavancagem financeira.

APJ – E a operação de aeroportos, pode ser privatizada?
Miguel Jorge - Há outros casos, como a Infraero. Na minha opinião deveria realmente cuidar da infra-estrutura aeroportuária, que é torre de controle, controle aéreo, junto com a Aeronáutica. Mas construir e operar aeroporto eu acho que esta iniciativa não é estratégia, não é de segurança nacional e deveria ser privatizada. Seria muito mais barato e eficiente. Para cuidar de carrinho de bagagens, para instalar fingers, escada rolante, para colocar lojas, acho que uma empresa privada faria isso com maior eficiência que o Estado.


APJ - O senhor acredita que o etanol é hoje a grande bandeira do comércio exterior? As políticas de governo neste sentido têm colaborado em que medida para tanto?
Miguel Jorge - O etanol tem sido levado como bandeira pelo presidente Lula. O Flex Fuel tem sido levado também. O Brasil atinge a produção de cinco milhões de veículos flex. E se consideramos que havia desconfiança do consumidor quanto ao flex. Hoje representa 99% das vendas do mercado interno. Portanto, temos uma bandeira. Com o etanol brasileiro sendo produzido a um quarto do preço do etanol norte-americano feito a partir do trigo. Temos que ter esta bandeira, brigar para que as barreiras protecionistas contra o etanol brasileiro sejam derrubadas. Especialmente a americana, já que eles cobram US$ 0,54 por galão de etanol. Inviabiliza a exportação de etanol brasileiro para os EUA. Inclusive numa viagem do presidente a Noruega, o presidente de lá retirou a barreira ao etanol brasileiro. Isso é importante, isso é que faz o caixeiro-viajante. É vender e trazer resultado.
Fábio Zambeli - Da Associação Paulista de Jornais