Edição: 25/11/2007
Entrevista: Claury Alves da Silva

 

 

Entrevista - Claury Alves da Silva
Estado restringe importação de atletas
O governo do Estado prepara um pacote de medidas para ampliar a competitividade dos Jogos Abertos e Regionais e conter a ‘importação’ de atletas às vésperas das competições, responsáveis pela mobilização do maior contingente de esportistas da América da Sul –51 mil.
É o que revela o secretário estadual de Esportes e Turismo, Claury Alves da Silva, em entrevista exclusiva à Associação Paulista de Jornais (APJ).
Entre as mudanças que entrarão em vigor em 2008 estão a extensão em 60 dias do prazo de vínculo obrigatório dos competidores com os respectivos municípios e a criação de duas divisões em todas as modalidades de disputa.
“Queremos estimular as delegações das cidades de menor porte e prestigiar os prefeitos que investem em programas perenes de desenvolvimento do esporte”, diz Claury, antecipando a alteração que ameaça o poderio das potências esportivas habituadas a utilizar profissionais e até equipes inteiras ‘forasteiras’ para dourar seus quadros de medalhas.
O secretário, ex-prefeito de Ourinhos designado pelo PTB para sua cota de participação no governo de José Serra, acredita ainda que os projetos esportivos do Estado tenham potencial para captar R$ 150 milhões da iniciativa privada com a finalidade de financiar as atividades de diversas categorias –seja de alto rendimento ou de base.
Para ele, a confirmação do país como sede da Copa 2014 trará reflexos positivos para a infra-estrutura do Estado –especialmente em equipamentos esportivos.
No Turismo, outro apêndice da pasta que coordena, Claury reforça a aposta na consolidação dos circuitos temáticos regionais e avalia que a crise aérea favorecerá os destinos paulistas. “As pessoas estão procurando os destinos do Estado, até porque preferem evitar a compra de pacotes aéreos nesta temporada.”
Associação Paulista de Jornais – Qual será o impacto da Copa 2014 no aprimoramento dos equipamentos esportivos do Estado? É possível prever melhorias e investimentos?
Claury Alves da Silva – Com certeza, por dois motivos. O primeiro é que a arena principal, que é a do Morumbi, vai receber todos os melhoramentos, de acordo com as exigências da Fifa. Então as adaptações que São Paulo vai ter que fazer já foram colocadas pelo Estado dentro de estruturas das mais modernas que existem hoje. Em segundo lugar, os estádios que estarão sediando as seleções que disputarem jogos em São Paulo também receberão melhorias. Teremos melhorias consideráveis em virtude da Copa.

APJ - E as cidades do interior e do entorno da capital podem abrigar seleções que estiverem na sede de São Paulo?
Claury - Sem dúvida, nós temos o estádio de Barueri, onde esta possibilidade é muito grande.

APJ - O senhor tem recebido demandas das prefeituras? Quem quiser se candidatar, como deve se comportar?
Claury - A fase que nós tivemos neste momento foi justamente a indicação da arena que poderá receber os jogos. Esta fase já passou. É claro que houve algumas propostas de outras arenas, mas houve um entendimento entre a prefeitura e o governo do Estado junto com o São Paulo Futebol Clube, que assumiu todos os compromissos para adaptação do Morumbi para a Copa. Agora, as outras fases serão definidas diretamente com a CBF.

APJ – Qual a condição atual dos equipamentos esportivos em São Paulo. A infra-estrutura é adequada para a prática esportiva? Constantemente notamos a reivindicação de obras de praças, áreas de lazer, feitas pelos prefeitos...
Claury - O Estado tem hoje a melhor infra-estrutura para o esporte, nas diversas modalidades. É claro que tem muito ainda o que avançar. O que nós estamos fazendo este ano é oferecer meios e recursos para as prefeituras. Em primeiro lugar, oferecer recursos para as reformas das praças de esporte existentes para colocá-las em condições de utilização adequada, priorizando comunidades que ainda não tinham quadras para desenvolver a prática de esportes. Devemos assinar até o final do ano mais de 300 convênios com prefeituras. Ainda tem uma demanda grande, temos um rol de solicitações e nós vamos priorizando com os prefeitos aqueles pedidos prioritários.

APJ – A principal demanda hoje é para se dotar o Estado de praças para alto rendimento ou para o lazer?
Claury - É mais para o social. De alto rendimento temos menos demanda. São quadras, pistas de skate, campos de futebol, ginásios, canchas de malha e bocha, pistas de atletismo. Temos catalogados mais de 3.000 pedidos.

APJ - Qual o diagnóstico da organização dos Jogos Abertos, recém-realizados em Praia Grande?
Claury – A organização foi o ponto forte, a infra-estrutura que a prefeitura apresentou foi fundamental para o sucesso dos Jogos. Tivemos três novos esportes, um ginásio para ginástica novo, uma piscina semi-olímpica nova, uma pista de atletismo sintética nova também. Este foi um ponto muito importante. Outra questão foi a dos alojamentos. As delegações ficaram muito satisfeitas. Praia Grande deu um salto muito grande. Até porque foi a primeira vez que sediou Jogos Abertos, ela pôde dar um salto de qualidade e o índice de satisfação foi muito grande.

APJ - E os desafios para 2008? Quais as mudanças previstas?
Claury – Estamos fazendo uma proposta de alteração para os Jogos Regionais e Abertos. Hoje encerramos a etapa de consulta. Estivemos visitando as oito regiões, as oito sedes de Regionais, onde nós fizemos uma proposta de mudanças. Foi muito bem, hoje estamos avaliando o resultado. Estamos propondo uma participação maior das delegações menores. A idéia nossa é criar a primeira divisão e a segunda divisão, já a partir dos Regionais e em seguida para os Abertos, já em 2008. Isso proporciona a maior participação dos pequenos municípios, que era uma reivindicação que nós tínhamos aqui da maioria das cidades, que não tem condições técnicas para disputar com grandes delegações. Abrimos esta possibilidade de uma forma democrática, ouvimos todo mundo.

APJ - Alguma outra medida deve ser adotada no sentido de impulsionar os municípios menores e os que investem mais na preparação regular dos atletas?
Claury - Sim, em segundo lugar, vamos rever o vínculo de atletas. Estamos propondo uma antecipação do vínculo do atleta com o município a fim de que nós possamos prestigiar as administrações que investem em programas de esportes de uma forma perene. Que nós possamos reduzir aquela importação que ocorre às vésperas da realização dos Jogos. O que nós queremos é prestigiar os prefeitos que estão investindo realmente num programa de desenvolvimento do esporte no seu município.

APJ - Qual seria este novo prazo?
Claury - Nós estamos antecipando para 1º de fevereiro. Atualmente é 1º de abril. Nós estamos antecipando em 60 dias este prazo, o que já dará um resultado bastante representativo. E pretendemos até aumentar este prazo depois.

APJ - Esta alteração já foi submetida aos representantes dos municípios?
Claury - Fizemos a consulta. Fizemos em cada uma das sedes do ano que vem. Posso afirmar para você que estas mudanças estão aprovadas. Pelo que nós sentimos nestas oito assembléias que tivemos.

APJ - E a mudança na configuração das divisões? Este formato já existe em algumas modalidades...
Claury - O que vai existir? Continua do mesmo jeito as modalidades, a única coisa é que vamos colocar uma primeira divisão, em que vamos colocar os oito primeiros colocados, mais o município sede, e mais dois de cada modalidade que vão subir para a Primeira Divisão. Cada modalidade vai subir dois, com um bônus de três pontos. Então ele vai ter um incentivo para ir para a Primeira Divisão, é lógico que todo mundo vai querer disputar com as grandes equipes. Vamos ter este estímulo de participação. Ficou muito interessante, pois vai ter uma adrenalina maior nas disputas. E vamos fazer duas premiações, da primeira e segunda divisões.

APJ – E a pontuação? Terpa pesos diferentes?
Claury - A pontuação é igual, a diferença é que aquele que estiver indo da segunda divisão para a primeira ele vai com três pontos de bônus, para ele poder se entusiasmar com o acesso.

APJ – A reação foi boa a este pacote de mudanças?
Claury - Totalmente positiva, quase unânime. Tivemos menos de 1% de votação contrária.

APJ - No financiamento do esporte, como o Estado tem agido para orientar a captação de recursos pelos municípios, inclusive do setor privado?
Claury - Nós estamos fazendo seminários. Fizemos um em Praia Grande, vamos fazer outro em Campinas, Araraquara e Marília este ano. Uma equipe faz toda uma explanação das leis de incentivo fiscal, inclusive a última, sancionada após o Pan. Nestes eventos, esta equipe explica cada uma das leis. Várias leis de incentivo que os empresários podem se aproveitar para incentivar o esporte. Achamos importante aproveitar estes recursos da iniciativa privada e queremos estimular isso. Estamos promovendo estes seminários para prefeituras, empresários esportivos, para que eles entendam as leis e aprendam a formular projetos que possam receber a chancela do Ministério do Esporte e possam fazer a captação. No Estado de São Paulo nós acreditamos que se possa buscar recursos privados da ordem de R$ 150 milhões. É muito dinheiro, que poderia estar incentivando equipes esportivas, melhorias de praças esportivas, eventos, atletas.

APJ - Qual o principal obstáculo para a captação deste dinheiro hoje?
Claury - Creio que seja a desinformação. É simples fazer um plano de trabalho. É fácil de elaborar. No esporte é tudo muito simples. É mais o acesso à informação que falta.

APJ - Sua pasta também compreende o turismo. O senhor acredita que a tendência de se fortalecer os circuitos regionais é definitiva para o Estado?
Claury – A principal ação nossa é atuar de forma regionalizada. A partir do momento em que o conceito de turismo passou a ser de forma regional, em que você organiza roteiro e a partir deste roteiro você vai envolvendo diversos municípios, você vai utilizando toda a estrutura e todos os ativos turísticos de cada região e de um menor custo. Se você pegar o potencial hoteleiro e gastronômico de uma cidade e somar com os atrativos de outra cidade você consegue montar um circuito e desenvolvê-lo de uma forma organizada. A partir daí você tem a capacitação. Desde a mobilização da comunidade local até a capacitação dos agentes. Esta é uma questão. Em seguida a divulgação e depois a comercialização. Temos hoje 45 circuitos identificados, vários deles ainda estão em uma fase de inventário, mas outros já estão na fase de comercialização, como Circuito das Frutas, onde organizamos recentemente uma visita de 280 agentes de viagens do país todo que conheceram a região e se preparam para vender este destino.

APJ - Que locais estes agentes percorreram?
Claury - No final de semana passado, 700 agentes vieram conhecer cinco destinos, Socorro, Campos, Circuito das Frutas, Ilhabela, Santos-Guarujá.

APJ - E o resultado, é bom?
Claury - Este famtour é necessário, porque se você não viabiliza estas visitas técnicas, você não consegue colocar na prateleira para comercialização. E para você organizar isso tem que haver a definição do tarifário. Quando os agentes vêm, eles querem saber os preços das diárias, do café da manhã, de um passeio. Toda essa preparação é que fizemos com os circuitos envolvidos. São 700 agentes que vieram para comprar estes novos destinos.

APJ - A infra-estrutura para o turismo é satisfatória?
Claury - São Paulo tem a melhor infra-estrutura para receber turistas. Primeiro, a rede hoteleira, que é muito boa. Temos a capacidade de receber turistas muito grande. Não só na capital, mas no interior. Podemos citar Campinas, que é a sexta cidade em destinação de eventos internacionais, que se destaca muito em infra-estrutura. A segunda é que nós temos as melhores rodovias do Brasil. As 18 melhores estradas do país estão no Estado, segundo a CNT. Isso viabiliza muito o turismo rodoviário. Depois temos ainda uma rede aeroportuária que vai se desenvolver muito.

APJ - Esta é uma área em que são necessários investimentos e que merece tratamento diferenciado?
Claury - Estamos em contato com a Associação Brasileira de Transporte Aéreo Regional para incrementar o turismo através da aviação regional. Pois temos infra-estrutura e podemos operar com tarifas bastante compatíveis e convidativas para diminuir as distâncias do interior com a capital.

APJ – A segmentação é irreversível?
Claury - Temos uma segmentação do turismo no Estado invejável. Temos turismo rural, por exemplo, com 800 propriedades cadastradas. Temos eventos, São Paulo é carro-chefe, mas no interior temos outros pontos muito avançados em área de conhecimento científico. O turismo religioso também está se desenvolvendo bem, com o advento da canonização do Frei Galvão, criou-se um roteiro importante no Vale do Paraíba. Temos também o turismo ecológico, de aventura, o turismo sertanejo, o Circuito das Artes. Uma segmentação forte, com possibilidade de crescimento.

APJ – Há interferência da crise aérea no turismo paulista?
Claury - A crise aérea, que ainda não tem uma solução a curto prazo para esta temporada, está fazendo com que estes destinos do Estado de São Paulo sejam procurados até por aqueles que estão com receio de adquirir pacotes aéreos.

APJ - Para se dinamizar a aviação regional é preciso preparar os aeroportos do interior para o turismo...
Claury - Eu acho que este é um setor que deve crescer muito. Devemos reduzir as distâncias pelo incremento da aviação regional, pois são poucos os investimentos que o Estado precisaria fazer para adaptações de alguns aeroportos. Talvez alguns investimentos em estações outros em equipamentos, mas poucos investimentos, para um retorno muito grande. No interior temos a maior malha aeroportuária. Com certeza, este é um setor que vai crescer. Esta parceria com as empresas vai ser importante para desenvolver o destinos do interior.

APJ - Qual é a estrutura da Secretaria hoje? As delegacias serão mantidas?
Claury - Temos 14 delegacias espalhadas pelo interior, juntamente com as inspetorias, atuam em parceria com as prefeituras municipais. Temos o calendário de eventos em que a participação das prefeituras é importante. A nossa intenção é cada vez mais ter a participação desta rede junto conosco na avaliação, na elaboração de eventos regionais ou locais, que podem servir para o desenvolvimento do esporte. Temos aqui algumas vertentes, que é tratarmos da infra-estrutura, dos núcleos de esporte social e a questão da distribuição de material esportivo e realização de eventos. Desde o acesso ao esporte até o esporte de alto rendimento, que pretendemos ampliar para o interior. O governador já autorizou e vamos dar mais centros de excelência esportiva dando mais oportunidades para os atletas que se destacarem e se revelarem nas modalidades.

APJ - Qual a meta a ser perseguida pelo Estado na área de alcance da secretaria que o senhor dirige?
Claury - A principal meta que o governador tem é fazer com o esporte seja um instrumento de inclusão social. O governo tem que estar atuante desde a mais tenra idade, tanto na revelação de atletas como na identificação de crianças com as modalidades esportivas. Estas crianças e jovens devem estar bem treinadas, com orientações técnicas, trabalho em equipe, para que sejam não só bons esportistas, mas acima de tudo, bons cidadãos.
Fábio Zambeli - Da Associação Paulista de Jornais