Edição: 04/11/2007
Entrevista: Jorge Rubez

 

 

Entrevista - Jorge Rubez
Fraude ameaça cadeia do leite em SP
A descoberta de um esquema de adulteração em duas cooperativas em Minas Gerais, com adição de soda cáustica e água oxigenada, ameaça toda a cadeia produtiva do leite no Estado de São Paulo e pode ter forte impacto no preço dos derivados já nos próximos dias.
A avaliação é do presidente da Associação Brasileira de Produtores de Leite, a ‘Leite Brasil’, Jorge Rubez.
Em entrevista exclusiva à Associação Paulista de Jornais (APJ), o dirigente sustenta que a qualidade do leite produzido no país é inquestionável e diz acreditar que interesses econômicos de outros segmentos da indústria possam estar ocultos na campanha para induzir a redução no consumo do produto. “Vão crucificar o leite? Algum interesse existe por trás disso. Vão vender refrigerante, pinga, vão vender bebida láctea, leite de soja, sei lá eu”.
Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam que as principais bacias leiteiras do Estado se localizam nas regiões de São José do Rio Preto, Vale do Paraíba, Campinas e Ribeirão Preto, mas o maior número de produtores se concentra em Presidente Prudente 5.200 dos 31.200 registrados em solo paulista.
Presidente da Câmara Setorial de Leite e Derivados da Secretaria da Agricultura e membro da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Leite do Ministério da Agricultura, Rubez, 70 anos, diz que o episódio detectado pela Polícia Federal é isolado e fruto de fiscalização leniente. “Por causa de 0,5% da produção nacional nós todos estamos pagando uma conta muito alta. O leite brasileiro é de ótima qualidade. Se não fosse, não seria exportado para mais de 80 países, com rigorosos mecanismos de controle de qualidade.”
Associação Paulista de Jornais - Depois do episódio de adulteração nas cooperativas de Minas Gerais, o senhor diria que é possível garantir a qualidade do leite consumido no Estado de São Paulo?
Jorge Rubez - Claro. Não tem problema nenhum. Nem aqui e nem em parte nenhuma do país. O que aconteceu foi um caso isolado. Dois indivíduos que fraudaram 0,5% da produção nacional e nós acabamos com toda a cadeia produtiva pagando uma conta muito alta por causa disso.

APJ - Os produtores haviam alertado sobre as fraudes há algum tempo. Houve falha na fiscalização federal?
Jorge Rubez - A fiscalização foi boa. O que não deu certo foi que a coisa se perdeu na burocracia. Eles pegaram alguns fraudadores, multaram e fizeram tudo o que era de competência da inspeção federal e abriram um processo. Só que os envolvidos recorreram juridicamente, disseram que não era verdade e a Justiça não deixou a inspeção federal divulgar os nomes. Então, ela multou, em algumas fábricas até interditou e alguns lotes foram retirados do mercado. Só não foi adiante porque a Justiça não condenou. Neste fato isolado, quem prendeu foi a Polícia Federal, pois a inspeção federal não tem competência para isso. A PF só foi ao local porque o Ministério Público pediu para os agentes irem lá junto com a inspeção. Aí viram e a polícia prendeu. Mas soltou. Não adianta, porque cinco dias depois, eles entram com recurso e você é obrigado a soltar.

APJ - Então o senhor não acredita em punição neste caso?
Rubez - Continua correndo o processo. Se vai condenar ou não é a Justiça. Aí eles usam recursos para não ficarem presos. Precisava ficar preso, pois são bandidos mesmo.

APJ - Na esfera administrativa, então, o senhor considera que estão sendo cumpridos os ritos normais de fiscalização, de atribuição da inspeção?
Rubez - Normais. Agora, o que houve é que não foi pra frente. É como sempre. Você já viu algum político ficar preso, por adulterar gasolina? Não vai, eles entram com recurso, uma série de coisas. Não prende. Fecha o posto, tudo bem. Mas prender, não prende.

APJ - O senhor defende a adoção de algum novo mecanismo para se fiscalizar e punir?
Rubez - O Ministério da Agricultura já tomou as devidas providências agora, depois deste fato. De modificar o sistema de inspeção e eu acredito que vai dar certo.

APJ - Os produtores já haviam denunciado que havia tentativas de adulteração. É algo comum no meio?
Rubez - Nós não denunciamos nada. Nós ajudamos o Ministério a se aparelhar para poder ‘pegar’ os que misturavam soro no queijo e no leite. A denúncia não fomos nós que fizemos. Eles [inspeção federal] disseram que não conseguiam pegar porque tinha problema de aparelhagem e a iniciativa privada, nós, os produtores, aparelhamos naquilo que pudemos alguns laboratórios. Daí eles passaram a pegar, pegaram o mínimo e acabaram com isso. Agora, a grande verdade é a seguinte: isso é minoria. Desta vez só conseguiram fazer isso porque os dois fiscais que estavam lá dentro, e isso também não é regra, porque os fiscais são ótimos, eram coniventes. Se tem outros casos, se não tem, fica muito difícil. Até onde eu sei, tanto a inspeção federal quanto o governo do Estado e até o ministro da Agricultura estão afirmando que o leite do Brasil é de ótima qualidade, e eu acho que é mesmo. Porque se não fosse, não conseguiríamos vender lá fora e estamos vendendo. E a cada vez que você vende lá fora, vem uma inspeção aqui dentro. E a inspeção olha toda a questão sanitária, inclusive esta questão de fraude. E mais de 80 países estão comprando leite aqui do Brasil.

APJ - Independentemente das garantias que o senhor vem dando, de qualidade do produto, o prejuízo do setor é irreversível agora...
Rubez - Já aconteceu. O estrago já foi feito. Esse menos de 0,5% que eles [cooperativas mineiras envolvidas em fraude] representam estragou toda a cadeia. Não é só o produtor, toda a cadeia está tendo prejuízo. Por isso que o camarada tem que ser punido mesmo, porque ele acabou com a vida de muita gente. Desde o pequeno produtor até o grande industrial. Arrebentou com todo mundo. Isso é um crime muito sério. Além de ser um crime de fraude, um crime contra a saúde, é um crime que também causou um prejuízo enorme.

APJ - Já é possível mensurar a dimensão deste prejuízo para o produtor?
Rubez - O produtor de leite não sabe o que vai acontecer com ele, pois ele não recebeu nenhum pagamento depois que aconteceu este episódio. Quem está tendo dificuldades é a indústria, que transforma o leite em pasteurizado, em longa vida, em leite em pó, queijo. Estes é que já estão tendo dificuldades e estão achando que o mercado está retraindo.

APJ - Quando este impacto será sentido na produção?
Rubez - Na produção já vamos sofrer. No primeiro pagamento que eu tiver, pode ter certeza que vai ser um estrago total. Agora, quanto vai ser, não sei. Só daqui a 20 dias, porque estão fazendo análise. Enquanto esse negócio estiver na mídia, esquece. Enquanto não derem nome aos bois, quem frauda quem não frauda, quem é bom, quem não é, fica complicado.

APJ - Então o senhor defende que se divulgue amplamente quem é quem depois deste problema?
Rubez - Não adianta nada fazer este escândalo todo e todo mundo ficar pagando o pato.

APJ - A fraude parece estar minando especificamente o segmento dos longa-vidas. O senhor acredita que pode haver uma retração na produção deste tipo de leite, em caixinha?
Rubez - Estão falando demais em longa vida. Na verdade, o que foi fraudado não foi o longa-vida, em si. O que foi fraudada foi a matéria-prima, o leite, que entrou na usina bom, eles acrescentaram 20% de soro, para consertar essa ‘gororoba’ que eles fizeram lá, que acidifica o leite, eles colocaram soda cáustica e água oxigenada e venderam esta matéria-prima para quem quisesse comprar. Eles não têm fábrica de longa-vida, uma delas, a Casmil. O outro tem, que é o Centenário. O leite Centenário já tiraram, já fecharam a fábrica. Não tem mais nada. A Casmil não tem fábrica de longa vida. Só vende o leite para outras fábricas, que envasam lá. Agora, por que pegaram só o longa-vida de paulada eu não sei.

APJ - Então o senhor não vislumbra comprometimento para o segmento longa-vida?
Rubez - Não, absolutamente. Da matéria-prima pode se fazer sorvete, bebida láctea, um monte de coisas, chocolate, doce de leite...

APJ - A FAO (Food and Agriculture Organization) tolera a adição de alguns destes produtos químicos em certas regiões do planeta...
Rubez - Na Índia e na África. Não a soda cáustica, a água oxigenada. Para poder o leite durar mais um pouco, mas no industrializado não pode pôr.

APJ - O efeito desta crise vai ser sentido no preço do leite?
Rubez - O impacto que vai ter é preço mesmo. Mas isso não dá para avaliar por enquanto. Veja bem, o produtor de leite ainda não recebeu pagamento depois da crise. Não tem jeito de mensurar o que vai acontecer. É uma incógnita.

APJ - Já houve uma pequena redução?
Rubez - Quando caiu o preço do leite, não tinha nada de fraude. Caiu porque houve excesso de produção mesmo. No começo do ano, agora, 20%. Depois deste episódio, nada aconteceu no preço, que eu saiba.

APJ - O que o senhor diria ao consumidor hoje? Há alguma medida a ser adotada do ponto-de-vista da segurança no consumo do leite?
Rubez - Para continuar tomando leite. Não tem perigo nenhum. Agora aparece um monte de especialista de plantão, cada um falando uma bobagem. A verdade é a seguinte: o leite no Brasil é de ótima qualidade. Não é por causa de irresponsáveis que fizeram uma besteira do tamanho de um bonde, que todo mundo vai ser jogado na vala comum. Não existe isso. O leite produzido no Brasil, de uma forma geral, é de ótima qualidade. Existe uma norma de qualidade sobre isso.

APJ - Que tipo de análise que o senhor considera absurda e vem sendo difundida neste episódio?
Rubez - Já vi gente dizendo que colocam urina de vaca no leite e não sei o que. Isso é brincadeira. Então só falam ‘abobrinha’. Se você colocar água no leite, qualquer químico pega. Não tem como você fazer fraude. Se você aplicar um antibiótico na vaca, é pego na hora. Se você chega na usina, faz a análise e já é jogado fora.

APJ - Os mecanismos de controle de qualidade são eficientes então?
Rubez - São eficientes. É que estes dois casos o inspetor que estava lá dentro estava conivente. Caso contrário, não fazia [fraude]. Agora a inspeção é boa? É sim. Estes sujeitos não eram, paciência, foram presos.

APJ - Os produtores se queixam de falta de apoio governamental. Há alguma reivindicação pontual da categoria neste momento de crise?
Rubez - Veja bem, não atrapalhando, o resto está tudo bom. Não tem nada o que contestar. O que nos atrapalha muito é que muita gente fala muita bobagem, o que acaba diminuindo o consumo. Dizem: olha, faz mal. Parece que leite virou agora... Vão crucificar o leite? Algum interesse existe por trás disso. Vão vender refrigerante, pinga, vender bebida láctea, vender leite de soja, sei lá eu. Ninguém sabe o que está por trás destas coisas. É muito difícil.

APJ - Falta uma política melhor delineada para o estímulo à exportação?
Rubez - Mecanismos nós já temos. Tanto é que o Brasil é hoje o sexto maior produtor de leite do mundo. Deixe a gente em paz, que nós sabemos trabalhar. Agora, quando atrapalha, aí fica difícil.

Perfil

Nome: Jorge Rubez
Idade: 70 anos
Naturalidade: Cruzeiro (SP)
Propriedade: produtor de leite na Fazenda Palmeira da Barra, de 500 hectares, em Cruzeiro (SP)
Formação: Engenheiro civil pela Universidade Mackenzie e agrimensor
Cargos: Presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite - Leite Brasil, membro da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Leite do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Presidente da Câmara Setorial de Leite e Derivados da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo; integrante da Comissão Nacional de Pecuária de Leite da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil CNA Brasil; coordenador da Mesa Diretora de Assuntos Técnicos de Pecuária Leiteira da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo; diretor de Pecuária Leiteira da Sociedade Rural Brasileira; conselheiro da Láctea Brasil - Associação para o Progresso do Agronegócio Lácteo; membro do Conselho Superior de Agronegócios da Fiesp.
Fábio Zambeli
Da Associação Paulista de Jornais