Edição: 14/10/2007
Entrevista: Marta Suplicy

 

 

Entrevista - Marta Suplicy
Marta anuncia caravana do turismo em SP
Um grupo de 500 agentes e operadores de viagens desembarca nos principais
circuitos turísticos do Estado em novembro para traçar um diagnóstico dos
destinos mais atraentes e seu respectivo potencial de exploração imediata
para visitação.

A informação é da ministra do Turismo, Marta Suplicy. Em entrevista
exclusiva à Associação Paulista de Jornais (APJ), ela revela os planos para
incrementar os roteiros do interior e classifica a 'caravana' dos
profissionais do setor pela região como um impulso revolucionário para
popularizar recantos de turismo ecológico, religioso e de negócios. "Como
são agentes de viagens, eles precisam conhecer o produto que eles vão
vender", diz.

De olho em um filão prodigioso na geração de emprego e renda, ela tem na
ponta da língua a equação do segmento turístico no país. "Hoje temos 140
milhões de brasileiros que viajam, agora viajam geralmente para cidades onde
têm família, ficam na casa da sogra. Temos que criar um caldo cultural para
a viagem pela viagem e não pela visitação."

Defensora da aviação regional como alternativa para fomentar o turismo,
Marta afirma ter enviado ao Ministério da Defesa um relatório detalhado com
os aeroportos de São Paulo que podem servir aos principais destinos de
visitantes e que merecem atenção --e recursos-- da União.

Para ela, a crise aérea é coisa do passado. "O momento pior já passou", diz
Marta, que, no ápice do apagão chegou a recomendar que o passageiro
'relaxasse a gozasse' diante dos atrasos nos vôos.

A ministra figura como nome obrigatório em qualquer lista de
pré-candidaturas do PT à prefeitura de São Paulo, ao governo estadual e à
presidência da República, mas garante: desenha sua agenda à margem do
calendário eleitoral. "Essa discussão foi antecipada de uma forma que não
interessa a ninguém. É prematuro. Não me coloquei como candidata nem em 2008
nem em 2010."
Associação Paulista de Jornais - Como caminham os programas do ministério
para o Estado de São Paulo, especialmente os que tratam da regionalização dos circuitos?

Marta Suplicy - Temos feito projetos de regionalização no Brasil todo. E o de São Paulo nós vamos incrementar com um convênio com o governo do Estado de R$ 400 mil. Este projeto dá os subsídios para o ministério prever os investimentos que precisam ser feitos para alavancar as regiões turísticas.
Nós temos a capital, que hoje é um chamariz internacional no setor de
eventos. É o local do Brasil mais conhecido para negócios. O interior pode
se transformar num local de eventos também. Como estava conversando com o
prefeito de Campinas, que gostaria de ter um centro de convenções, que ele
está encaminhando com uma parceria privada. Ou, por exemplo, na região de
Ribeirão Preto, que pode ser um local que comporta um centro de convenções
principalmente hoje por causa da questão do biodiesel, do etanol. Faz falta
ter um lugar que possa abrigar conferências sobre este assunto que hoje está na pauta do mundo.

APJ - Mas há liberação de recursos?

Marta - É um ministério que não tem recursos, tem um orçamento de R$ 1,8
bilhão e, deste total, R$ 1,4 bilhão é referente a emendas. Chamei os
deputados de todas as bancadas e mostrei as emendas que interessam ao Estado
como estruturantes. Eles ouviram bem. Todos ganharam livros com todos os
projetos, com o porquê de cada obra. E estamos implantando escolas em todo o
Estado com recursos do próprio ministério. Já temos cinco.

APJ - Os municípios precisam qualificar a mão-de-obra?

Marta - Tem muita qualificação. Temos em Campos, em Santos, em Osasco, em Guararema, Ubatuba e Guarulhos. E no Circuito das Frutas, poderia fazer uma.
No Circuito das Águas também. Nesta reunião que tive na segunda-feira
estavam presentes 21 prefeitos e vários vice-prefeitos. O que fui anunciar
foi que o turismo hoje não é feito por cidade, mas por destino e por
roteiro. Então eles têm que pensar as regiões como roteiros e não a cidade
sozinha. Isso já é compreendido.

APJ - Como se pode vender o interior como destino?

Marta - Estão vindo 500 operadores para o Estado com esta idéia de incrementar o turismo no interior. Dia 10 de novembro, 250 desembarcam na
região das frutas. Como são agentes de viagens, eles precisam conhecer o
produto que eles vão vender. Então eles vão conhecer os lugares que fabricam
geléias, que fabricam licor, vão visitar os apiários, os orquidários, as
fazendas de avestruz, as fazendas históricas, a escola agropecuária. Todos
os roteiros que interessam ao turista e hoje não temos de forma organizada.
Isso para os prefeitos foi excelente. Nunca houve um incremento tão violento
de ações para as regiões. Hoje temos 140 milhões de brasileiros que viajam,
agora viajam geralmente para cidades onde têm família, ficam na casa da
sogra. Temos que criar um caldo cultural para a viagem pela viagem e não
pela visitação.

APJ - E o papel dos consórcios intermunicipais? Isso facilita?

Marta - Os consórcios são facilitadores. Juntas, as regiões conseguem agregar valor e ter mais força na disputa turística. A disputa turística é muito acentuada no Brasil e no exterior. Para você trazer turista ao Brasil, é uma disputa a tapa e ouro. Os mercados investem muito, as agências investem muito. Agora começamos a trazer operadores do exterior para conhecer os
destinos. O turista japonês você não pode vender sol e praia, pois ele tem
interesse em música e belezas naturais. Vai para o Amazonas, para Foz do
Iguaçu. Estamos focando. Vamos fazer propaganda nos Estados Unidos e aí
vamos divulgar as praias, pois queremos competir com o Caribe.

APJ - Mas o turista estrangeiro pode se interessar pelos destinos do
interior?

Marta - Para o turista estrangeiro temos a capital como foco. Agora quando estivermos organizados os circuitos de fazendas de café e de frutas, aí eu acredito que é um turismo vendável. Isso, a gente trazendo as agências, elas já podem ir fazendo de forma autônoma. O Ministério não vende roteiro. A gente propicia as agendas, as coisas com infra-estrutura organizada e as agências fazem os trabalhos de vendagem lá fora. O interior de São Paulo ainda está se organizando turisticamente. Por que o turista que vem passar o fim-de-semana na capital não pode visitar as cidades do interior?

APJ - A senhora tem identificado alguns destes roteiros mais promissores?

Marta - Agora tem o turismo muito legal, em Socorro. Que é o turismo para o portador de deficiência, desde o tetraplégico até o cego. E nós, quando
vimos isso, achei que era um nicho muito importante para desenvolver. E
principalmente focado em turismo radical. Eles têm 17 modalidades de
aventura. Desde rafting até algumas coisas que eu nem sei o que significa. O
ministério vai ajudar a incrementar mais do que eles têm hoje. O programa do
'Viaja Mais, Melhor Idade', um dos lugares que os idosos vão passar é lá,
por causa da acessibilidade. O turismo da Melhor Idade vai ajudar também o
interior paulista, em cidades como Campos do Jordão.

APJ - As estâncias, principalmente as menores, sobrevivem basicamente dos repasses do FPM e recorrem constantemente ao Dade para garantir subvenções.
Como o ministério pode apoiar estas cidades?

Marta - Olha, o ministério tem poucos recursos. Mas, veja só um exemplo. Os prefeitos com quem me reuni na segunda-feira entregaram projetos. Nós vamos estudar e, dentro do limite que nós temos, vamos tentar ajudá-los. Agora, posso lembrar que estes 500 agentes de turismo vão visitar Ubatuba e São Sebastião, Santos e Guarujá e depois vão para Campos do Jordão e ainda para
o Circuito das Águas. Agora o 'Viaja Mais, Melhor Idade' está entrando
nestas pequenas cidades. Este projeto não é de ocasião, ele vem para ficar.

APJ - Qual o impulso que falta para o turismo se transformar numa indústria efetiva que gere emprego e renda no Brasil?

Marta - Aqui o consumo aumenta há 42 meses consecutivos, a massa salarial
aumentou, a inflação controlada, o crédito consignado, nós precisamos
colocar na cesta de consumo do trabalhador a viagem também. Não temos a
cultura da viagem. Tem prestação de 12 vezes para viajar. É um caldo
cultural que a gente vai ter que assimilar.

APJ - Nesta última semana, a senhora liberou recursos para a Maria Fumaça de Campinas...

Marta - Sim, hoje as Maria Fumaça fazem parte do patrimônio de vários
Estados. Isso eu estou vendo sob dois aspectos. É a recuperação do
patrimônio histórico de cada cidade. É o resgate de costumes. É a história
da cidade e é algo turístico. A criança adora andar, os idosos gostam. E as
pessoas da cidade vão gostar. É um nicho turístico importante. Como o nicho
do turismo religioso. No último mês como fui em procissão, meu Deus... Fui à
procissão da Boa Morte, em Cachoeira (BA), fui no Ceará, em Canindé de São
Francisco das Chagas e fui ao Círio de Nazaré. E estou vendo o quanto
movimenta. O povo brasileiro é um povo muito espiritualizado. É um nicho que
ninguém havia acordado, nem a Igreja e nem o turista.

APJ - E há vários Santuários no Estado...

Marta - Tem muito, em Aparecida o Ministério sinalizou. Demos bastante
recurso para a cidade na visita do papa. Iluminamos, sinalizamos, fizemos
parceria para hotelaria. A outra coisa é que queríamos que a economia
girasse na cidade. Este esforço estamos fazendo. O Brasil está despertando,
o turismo religioso sempre foi forte espontaneamente, agora pode ser forte
de maneira organizada.

APJ - E o transporte ferroviário, pode ser uma opção de acesso e de estímulo ao turismo?

Marta - Eu queria muito fazer um trenzinho que foi uma sugestão do prefeito de Aparecida, que seria uma ligação com o Rio de Janeiro. Mas tem muita dificuldade. Porque tem o trilho, mas é usado comercialmente. Então o
investimento que se faria seria grande. Teria que recuperar estações etc. E
os horários que o comércio permite usar não o tornam viável.

APJ - E o trem de alta velocidade? Pode contribuir?

Marta - Trem de alta velocidade não pára. Mas ajuda o turismo. Agora o
ministério não tem bala para fazer o trem. Conversei com a Dilma [Roussef,
Casa Civil], conversei com o Serra. Todos acham importante fazer o trem e já
está sendo auditado.

APJ - Qualquer parada seria inviável?

Marta - Olha, um trem desta velocidade pra ser rentável tem que ser rápido, tem que parar pouco. Não é um trem turístico, mas ajuda o turismo Rio-São Paulo, certamente. Eu acho que vai favorecer muito. De repente faz alguma parada, mas será mínima. Não é o interesse deles.

APJ - E o acesso aos destinos? A maior parte dos roteiros é servida pelas
rodovias. Qual a avaliação da senhora sobre o estado de conservação da malha
rodoviária paulista?

Marta - As rodovias pedagiadas têm uma condição ótima e um pedágio péssimo.
Agora isso está sendo bastante questionado, e com razão. O recurso que era para ser colocado nas vicinais, não foi efetivamente. Tanto que o Estado
está se endividando, o governador mandou um pedido de endividamento para
recuperação das estradas que não foram pedagiadas. Isso mostra que foi um
acordo que tem que ser revisado, porque se a outorga foi para se investir em
estrada, não foi investido em estrada. Isso acaba tendo impacto no turismo,
mas acaba tendo impacto pior ainda nos preços dos alimentos.

APJ - Mas qual o modelo alternativo?

Marta - Isso de dizer que a outorga é maravilhosa porque o Estado pôde colocar o dinheiro nas vicinais, não é verdade. Este último empréstimo do
governador mostra que não procede. Agora com esse novo leilão vão ter ser
revistos estes pedágios novos e até os atuais. Está no tribunal. Temos uma
chance de não ser aprovado como foi no apagar das luzes do governo
Alckmin-Lembo. Que foi aditado, mas com o mesmo índice, que é um índice
prejudicial.

APJ - E os pequenos aeroportos? Como podem interagir neste processo e
facilitar o turismo?

Marta - Isso todos os Estados vêm me pedindo. Foi interessante. Quando colhi os projetos estruturantes, não teve um governador que não pedisse ou a
melhoria de um aeroporto existente ou um novo aeroporto. Eu acho que eles
têm razão. Quando falo para as bancadas, peço que se façam emendas sobre os
aeroportos. Em cada Estado tenho falado com um senador para encaminhar. O
ministério não tem recurso, a não ser que seja pequeno. Como no Piauí, demos
R$ 6 milhões para torná-lo mais receptivo. Mas são recursos limitados.

APJ - Há alguma intervenção oficial neste sentido?

Marta - Agora o Ministério do Turismo preparou todo um mapa de aviação
regional e entregamos para o ministro Nélson Jobim [Defesa]. Ele tem que
fazer um esforço junto com a Anac para que a aviação regional passe a
funcionar. Porque não dá para você não ter vôos que liguem as cidades. Hoje
você para ir de Belém para uma cidade vizinha, você tem que ir a Brasília. O
ministro Jobim escutou, está vendo quais as possibilidades. Conversamos com
o BNDES para que se financie. Tem que ser avião de menor porte, para que se
possa lotar.

APJ - Mas o interior pode ser contemplado?

Marta - Pode, nós fizemos. O nosso país é um continente e nosso Estado é enorme. Muitas vezes para você cruzar o Estado é difícil e com o preço das companhias aéreas dá para incrementar o turismo com a aviação regional. No Estado de São Paulo é um pouco mais fácil, mas é precário ainda se comparado com outros países que têm um turismo mais desenvolvido. Sem aeroporto regional e aviação regional, o turismo fica estrangulado.

APJ - Neste último feriado prolongado, a senhora recebeu informes sobre a situação dos aeroportos? Isso tem sido monitorado?

Marta - Não acompanhei. Só vi pelos jornais. Não vi nada diferente. Tudo funcionou normalmente. Atrasos normais, dentro da expectativa.

APJ - Mas a senhora acredita que o momento de tensão passou? O passageiro
começa a voar com mais segurança?

Marta - Ah, isso sim. Eu acho que o momento pior já passou. Agora, eu estou conversando com o ministro Jobim porque eu acho importante ter novamente vôo charter de Congonhas no final de semana. E principalmente a Bahia está
preocupada com o cancelamento de vôo charter de Congonhas. E é desnecessário
porque tem uma ociosidade lá e não vai atrapalhar em nada no sábado e
domingo fazer este tipo de vôo. Já para a Bahia tem havido impacto negativo.

APJ - A senhora aparece bem nas pesquisas para a corrida eleitoral em São Paulo. A ministra será candidata à prefeitura ou está voltada para 2010?

Marta - Eu acho que esta discussão toda, de 2008 e 2010, totalmente prematura porque eu estou fazendo um trabalho como ministra, estou Sapir engajada. Eu não acho que é o momento de falar. Porque se eu falar de 2008, você vai falar de 2010. E assim nós continuamos, porque eu acho que não é o tema para falar este ano. Não tem vantagem para ninguém. Eu acho que o [Gilberto] Kassab também não tem nenhum interesse em antecipar, porque isso prejudica muito.

APJ - A senhora autorizou seu grupo a negociar um acordo com o deputado Arlindo Chinaglia para a prefeitura, sinalizando que seu objetivo é 2010?

Marta - Eu li no jornal que o Jilmar (Tatto) fez, não eu. Essa discussão é prematura. Eu não tenho intenção de me candidatar e acho que é prematura a discussão, repito. Acordos são prematuros, discussão é prematura. É o que tenho colocado e reafirmo para você.

APJ - O lançamento de três candidaturas consideradas fortes de São Paulo no PED do PT, mostra uma divisão acentuada do partido em seu berço?

Marta - Eu acho que não, isso mostra a força de São Paulo, vira e mexe a força de São Paulo acaba prevalecendo. Mas eu não estou me posicionando
também. Como ministra, considero muito complicado você levar esta luta para
o governo. Já tenho minha decisão tomada e não vou externar. E também não
farei campanha para nenhum deles.

APJ - Qual o momento da largada? Quando começa a se cristalizar o quadro e será necessário um posicionamento?

Marta - É 2008. Ano que vem começa a ser realmente um ano eleitoral. Isso começou a ser pensado agora, de uma maneira muito prematura. E não tem
sentido. É o que tenho dito a eles (correligionários). Não tenho a intenção
de ser candidata e vocês começaram esta discussão de forma precipitada.
Vamos deixar isso para resolver o ano que vem.

APJ - Há alguma recomendação do presidente Lula neste sentido, de postergar a discussão?

Marta - Nunca conversei com o presidente sobre este assunto. Nem quando ele me convidou, nem agora.
Fábio Zambeli
Da Associação Paulista de Jornais