Dados da Secretaria da Saúde de São Paulo divulgados segunda-feira revelam que os números da dengue no Estado este ano chegam a 69.148 casos e 64 mortes, o que é um patamar preocupante. O problema é que os dados são ainda piores. Araçatuba aparece nesse quadro estadual com "apenas" 6.067 casos, mas já contava 10.243 dia 4 de maio. Em São José do Rio Preto, onde já morreram 10 pessoas este ano pela doença, a Secretaria aponta 8.604 casos, mas a conta no começo do mês no município chegava a 10.258 e aumenta a cada dia. Ribeirão Preto aparece com 13.007 casos, mas na verdade já passou de 15 mil.
Isso tudo considerando-se somente os casos comprovados por exame laboratorial. Agora, um segundo problema. As prefeituras, o Estado e o governo federal podem estar subestimando os casos na opinião de especialistas como o professor Roberto Medronho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Segundo ele, por se tratar de epidemia, a confirmação dos casos deve ser feita por meio de diagnóstico clínico exclusivamente. Essa é a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS). Em entrevista ao "Diário da Região", de Rio Preto, ele disse que fazer exames custa caro, além de sobrecarregar o serviço dos profissionais de saúde.
E os números se tornam ainda mais alarmantes se for considerado que para cada caso comprovado, teoricamente podem existir até 10 vítimas que adquiriram a doença e o quadro de sintomas não foi manifestado ou o paciente não procurou ajuda médica. O jornal "O Vale" apurou que nessa lógica Taubaté já pode ter 40 mil pessoas contaminadas pela dengue em 2010.
Recorde
O presidente da Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa, Fausto Figueira (PT), que é médico, afirma que há subnotificação dos casos da doença. Ele é autor de representação ao Ministério Público Estadual sobre o que chama de "escamoteamento" da epidemia. "Os números da doença, apresentados pela Secretaria Estadual da Saúde, são muitas vezes menores do que os notificados pelas Prefeituras".
A dengue é um desafio nacional. O número de casos quase dobrou no País este ano em relação a 2009, possivelmente devido à associação entre calor e chuvas mais prolongadas favorecendo a proliferação do mosquito. No Estado de São Paulo, o índice de aumento é muito superior à média do País. A sociedade tem o direito de receber as explicações sobre como isso aconteceu e qual é a situação atual em cada cidade ou região.
Do governo federal emanam as diretrizes gerais. Nos municípios, ocorrem as ações preventivas como os mutirões e o tratamento da doença. O Estado tem o papel de apoiar as ações locais. Mas com tanta dificuldade em lidar com a informação atualizada, deve-se questionar no mínimo como os agentes públicos em todos os níveis estão lidando com esse grave e incômodo problema de saúde pública.
E por falar em números...
A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo não contabilizou 53 assassinatos nas estatísticas criminais de Franca entre os anos de 2003 e 2007, segundo revela o "Comércio da Franca". Crimes não computados como homicídios pela polícia foram confirmados por atestados de óbito disponíveis no Ministério da Saúde. O município teve 158 assassinatos no período, mas a Secretaria de Segurança do Estado registra apenas 105.
Indicadores servem de parâmetro para ações governamentais. Não é tolerável errar ou subestimar números de interesse público. A transparência é cada vez mais exigida pelos cidadãos. E somente a eficiência pode desviar o fantasma da manipulação de dados e jogo de esconde-dados. Nesse caso específico, há divergência de conceitos no levantamento, pois a Secretaria computa apenas os dados de vítimas que morrem na hora e ignora os que venham a morrer depois, na hospitalização. Se é assim, ao menos deve haver uniformidade entre os órgãos públicos e os critérios bem explicados, tim-tim por tim-tim. Do contrário, haverá sempre desconfiança. |