A CPI da Bancoop na Assembléia Legislativa de São Paulo começa a esquentar na prática a partir desta terça-feira. Transformou-se em queda-de-braço na disputa política entre a situação e a oposição. A arena do Parlamento paulista reproduz com perfeição a polarização entre os pré-candidatos Serra e Dilma. E quem dá as cartas na pauta que gera holofotes é a maioria que apóia a candidatura tucana. O PSDB cuida da CPI como quem alimenta a sua criatura. E o PT tenta resistir ao rolo compressor.
As denúncias sobre a Bancoop, porém, não são novas. Circulam na Assembléia Legislativa no mínimo desde maio de 2007, quando a má gestão nos recursos destinados à construção de casas foi denunciada pelo deputado tucano Fernando Capez. Nada se fez na Casa, desde então, para desvendar a história.
Mas em 2010, ano eleitoral, o assunto foi resgatado com a pompa de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), instalada no dia 9 de março para investigar os indícios de irregularidades e fraudes praticados pela cooperativa na gestão presidida por João Vaccari Neto, agora tesoureiro do PT. Sinal de que a campanha eleitoral começou.
Estratégia
No dia 31 de março, um dia após Serra deixar o governo do Estado para se lançar candidato, o tucano Samuel Moreira foi eleito o presidente da CPI. Mas a comissão ainda não botou a mão na massa. Nesta sexta-feira, por exemplo, não deu quórum para a reunião extraordinária que deveria votar os requerimentos para chamar as testemunhas. Somente quatro deputados apareceram.
O prazo para fechar a CPI é de 120 dias, o que deixará o assunto em evidência até setembro, após a Copa do Mundo e na reta final das eleições. Como o trem vai andar, dependerá do PSDB, que tem a faca e o queijo na mão já que o PT ficou fora da cúpula dos três postos-chave da CPI. O vice-presidente da comissão é Chico Sardelli, do PV de Marina Silva, e o relator, quem afinal dará o tom nas conclusões, é Bruno Covas (PSDB).
A função de uma CPI
De acordo com a Assembléia, uma CPI não julga e nem tem competência de punição. Ela investiga e propõe soluções e encaminha conclusões ao Ministério Público, à Defensoria Pública, ao Poder Executivo e ao Tribunal de Contas do Estado, entre outros. Então, qual será a contribuição da CPI da Bancoop sabendo-se que há inquérito do Ministério Público Estadual em investigações conduzidas desde 2006 e que já levantaram oito mil páginas de transações bancárias?
Obra do PT
A Cooperativa Habitacional dos Bancários do Estado de São Paulo (Bancoop) foi criada em 1996 por um grupo ligado ao PT quando Ricardo Berzoini era o presidente do sindicato dos bancários. A investigação é por apropriação indébita, estelionato, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. As supostas fraudes teriam servido para alimentar a campanha que elegeu Lula em 2002 e usadas para abastecer o "caixa dois" do PT muito antes do esquema montado por Marcos Valério e que resultou no Escândalo do Mensalão. Berzoini chegou à presidência do partido.
Promotor e a política
A CPI poderá convocar o promotor José Carlos Blat, que pôs Vaccari sob suspeita ao pedir quebra de sigilo bancário e congelamento de contas da cooperativa. Os pedidos foram indeferidos pelo juiz Carlos Eduardo Lora Franco "em razão do momento do calendário eleitoral, evitando qualquer interpretação política que terceiros venham querer emprestar-lhe”.
Os dois lados
Moreira, o presidente da CPI, afirma que há disposição entre os deputados para apurar as denúncias com rigor e isenção, "um diagnóstico isento", e que o momento eleitoral não vai interferir no andamento dos trabalhos. Esperar para ver. O petista Vanderlei Siraque, membro da comissão, afirma que a bancada do PT não permitirá o uso político da CPI. "Temos o interesse em ouvir as partes envolvidas e esclarecer denúncias de irregularidades”. Esperar para ver, também.
Pedofilia
Enquanto isso, o PT ganha postos em CPIs que não resvalam no governo do Estado, como a da Pedofilia, em que a relatora é Beth Sahão. Vai investigar crimes no Estado e suas conexões com outros estados e países, um assunto, aliás, em alta em várias cidades do Interior. Só na quarta-feira, a polícia prendeu um professor em Araçatuba, um monitor de transporte escolar em Jaú e um servidor municipal em São José dos Campos, isso além do caso do padre Dé em Franca. |