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APJ - Associação Paulista de Jornais
REDE PAULISTA DE JORNAIS
31/03/2010
Wilson Marini
wmarini@apj.inf.br
 
A humanidade sai da toca
Em 1970, 21 índios que viviam isolados no noroeste de Mato Grosso foram contatados pela primeira vez. Eram remanescentes de um povo que chamava a si mesmo de "Mynky" (cujo significado é Gente). Deles, foi extraída uma história deliciosa, recolhida pela antropóloga Elizabeth Amarante e contada pelo filósofo Alípio Casali, da PUC-SP. Resumidamente, é assim:
A humanidade, no começo, morava numa toca. Até que um dos homens decidiu: "Vou sair desta pedra e dar uma olhada lá fora". Tomou a forma de um urubuzinho e saiu por um vão. Andou pelo campo limpo e viu muita coisa bonita. Mas o que achou mais bonito foi uma florzinha. Colheu uma, escondeu debaixo da asa e levou para dentro da pedra.
Ficou na forma de gente de novo. Por dentro, estava muito alegre, mas, por fora, fazia cara de triste. Os outros perguntaram: Por que está triste?
Ele respondeu: "Aqui dentro desta pedra é feio. Lá fora, sim, é bonito, muito bonito mesmo!". Contou que tinha saído e mostrou-lhes a flor. E os outros começaram a dizer: "Eu quero sair! Eu quero sair!".
Um velho disse: "Vocês precisam pensar bem! Aqui dentro a gente não briga, não pega doença e não morre. É um lugar bom. Lá fora a gente briga, pega doença e morre. É um lugar ruim".
Ninguém quis escutar o velho. Todos foram saindo. Cada povo ficou debaixo de sua árvore. E só então os povos começaram a pegar doença, brigar e morrer e tiveram de trabalhar.

Informação
O filósofo Casali relaciona o conto indígena à diversidade cultural nos tempos atuais. A humanidade saiu da toca e agora habita toda a sua superfície, lembra ele. De fato, o cruzamento de raças e culturas pulverizou pelo planeta conhecimentos que antes ficavam guardados em arquivos das inúmeras "cavernas". O Oriente veio para o Ocidente, e vice-versa. A Terra se transformou numa grande e múltipla toca que não cessa de promover trocas. Antes viajantes trocavam um tapete por cereais. Hoje, troca-se informação, conhecimento, inovação, serviços. E as comunidades não são mais geográficas. São mentais, criadas conforme os interesses e afinidades, sem barreiras do vento ou das montanhas, graças à comunicação instantânea. A quebra de paradigmas ocorre a todo instante, como a leitura da sentença proferida ao casal Nardoni, acompanhada por milhões pela televisão, internet e o rádio. Antes, seria preciso ir ao Fórum.

Padronização
Com a globalização veio a padronização de costumes. Os shopping centers são um exemplo. Coloque uma venda num amigo e solte-o num centro de compras de um país de outro continente. Nem é preciso um McDonald's para ele se familizar rapidamente com a paisagem incolor, insípida e inodora. E se ele não dominar a língua desse país, terá alguma dificuldade em deduzir com os olhos e até ouvidos em que país está, tal será a quantidade de estímulos visuais, marcas e símbolos a que está habituado. Esteja onde estiver. Já foi dito que antes uma cidade era o mundo; agora, o mundo é uma cidade. O conto indígena não é uma boa ilustração da saga migratória dos povos e da globalização?

Transformação
É preciso estar atento ao movimento que ocorre na sociedade e que vai desembocar, fatalmente, em mudanças de comportamento profundas. Quem diz isso é o analista político e de redes sociais Augusto de Franco. Segundo ele, as cidades já estão experimentando alterações profundas, mas as grandes estruturas atuais e os governos ainda não perceberam. É impossível segurar o processo, alerta. É impossível dizer o que virá, mas certamente o futuro será desenhado pela população, que começa a assumir com mais determinação as decisões sobre o seu destino. Nessa linha, o filósofo Pierre Lévy, professor da Universidade de Ottawa, no Canadá, afirma que o amplo acesso a informações altera também a antiga noção de cidade. "A esfera pública era elitista, restrita a quem se manifestava em público. Era um mundo pequeno", afirma. "Hoje, qualquer pessoa pode fazer seu discurso público".

Cidades médias
Uma das tendências é a valorização das cidades de médio porte, que levam vantagem por não ter os problemas das grandes e nem a falta de recursos das pequenas. "Elas vão vitais para o desenvolvimento regional", afirma a economista Ana Carla Fonseca, consultora da ONU. Segundo ela, as cidades médias são mais engajadas, estabelecem pontos de conexão entre as pequenas e grandes, entre o local e o global, entre o passado e o futuro.
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