Quem pensa que o pior das chuvas já passou, cuidado com o excesso de confiança. O geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos, ex-diretor do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e atualmente consultor ambiental, avisa: "As águas de março ainda não fecharam o verão". E para quem imagina que o drama das enchentes vai terminar em março ou abril, o cientista José Goldemberg manda um recado a médio e longo prazos: "Os próximos anos tendem a ser de seca no Nordeste e de muita chuva no Sul e Sudeste, por conta das mudanças climáticas". O desmatamento na Amazônia, segundo ele, é o fator principal das modificações na circulação atmosférica que estão alterando o clima de forma irreversível.
As advertências foram feitas nesta terça-feira em São Paulo no evento "Como as cidades devem se preparar para evitar futuros desastres", na sede da Federação do Comércio. Se estiverem corretas as projeções, a maioria das cidades paulistas negligencia atualmente os prováveis efeitos da temporada de chuvas -- e, além disso, fazem muito pouco para se precaver da realidade nos próximos anos.
Modo de vida
Nabil Bonduki, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, diz que a persistir o atual modo de vida da população, o problema das enchentes não vai se resolver, ao contrário, vai se agravar. O que deve ser mudado: consumo exagerado, transporte individual, grande produção de lixo, desperdício de água e de energia, falta de educação ambiental, desigualdade no uso dos espaços urbanos e crescimento a qualquer custo.
Aqui e agora
Mario Thadeu Leme de Barros, da Escola Politécnica da USP, traçou panorama sombrio para São Paulo e as grandes cidades. A tendência é de aumento de inundação, erosão, assoreamento, poluição das águas e temperatura urbana; de diminuição da oferta de água para abastecimento; e de mudanças no regime de chuvas.
O que pode ser feito
Álvaro dos Santos, o geólogo do IPT, apresentou sugestões para aliviar os efeitos das chuvas: bosques com florestas (e não o modelo de jardins gramados), incentivos a calçadas, passeios e pátios com espaços para infiltração de água; e reservatórios para águas da chuva em residências e empresas (as piscininhas). "As prefeituras deveriam quebrar o cimento das sarjetas com marretadas para dar espaço à vazão da água”, diz ele, que é favorável a descontos no IPTU para moradores que criarem faixas de drenagem nas calçadas, embelezando-as, desde que mantenham faixas para pedestres e cadeiras de rodas.
Os erros
Santos apontou a impermeabilização dos solos e a canalização dos rios e córregos como "culturas equivocadas" do crescimento das cidades. Citou também a preferência por áreas planas em grandes projetos residenciais, empresariais e públicos como um erro de arquitetura urbana. "É a obra que deve se adaptar à natureza e não o contrário", diz ele. E fez uma crítica contundente ao programa de piscinões adotado na capital: "São áreas de risco sanitário, urbanístico e ambiental, autênticos atentados que degradam a qualidade de vida".
Dicas para monitorar
Os desastres naturais são tema tão emergente que a Fundação Prefeito Faria Lima (Cepam) vai expor como o geoprocessamento pode auxiliar nas emergências nas cidades. Segundo a geógrafa Josefina De Leo Ballanotti, técnica do órgão, estão disponíveis na internet diversos programas gratuitos de monitoramento de áreas, nem todos conhecidos amplamente nos municípios. O encontro será no próximo dia 17.
Queimadas
O Jornal da Cidade, de Bauru, informa que as águas de março consagradas na canção de Tom Jobim já não são mais as mesmas. O período está sendo o mais seco dos últimos tempos, sem chuvas. E como efeito associado ao forte calor, o Corpo de Bombeiros registra alto índice de chamados para combater queimadas em toda a região. A notícia confirma prognósticos do aquecimento global. Estamos vivendo outra era dos extremos, expressão antes imortalizada pelo historiador Eric Hobsbawm em referência ao século 20, e que hoje se aplica muito bem às oscilações climáticas -- frio e calor, chuva e seca.
Dengue
Chuva e calor, aliás, formam o ambiente que o mosquito da dengue tanto gosta. Os índices são alarmantes em Rio Preto, Araraquara e Araçatuba, mas a explosão ocorre em todo o Estado. Jornais da Rede APJ mostraram nos últimos dias que a incidência este ano é superior à do passado. |